Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
Uma filha licenciada
Passado o período eleitoral, os noticiários voltaram a abrir com falências e desemprego. Ontem, um operário da Império Pneus, de Braga, explicava o contexto em que um possível despedimento o encontraria. Dizia que a sua mulher estava desempregada e que tinha “uma filha licenciada”, que também não tinha emprego. Aquele homem falava de uma “filha licenciada” como quem fala de uma filha doente. Aquela filha está dependente dos pais como se fosse doente. É apenas “licenciada”. E desempregada. Numa altura em que em vez de se discutir a Educação se discutem apenas os problemas laborais dos professores, talvez não fosse má ideia escutar aquele operário de Braga. As condições de trabalho dos professores, das quais também depende a qualidade do ensino, não podem esgotar uma discussão sobre um sistema de educação, do qual muitos dos actuais docentes são já um produto. Muito antes da avaliação, há demasiado tempo, que as reivindicações dos professores ocupam o lugar central de um discurso que deveria conter mais os alunos, o saber e as competências. Isto é um discurso de direita? É pena. É culpa dos professores que não exista uma efectiva discussão sobre Educação? Estar sempre preocupado em encontrar culpados faz com que não se saia do papel de vítima. E isso é muito mau. Reformulo a pergunta: Isso é da responsabilidade dos professores? Parece-me que é da responsabilidade de todos os (como é que se chamam?) agentes educativos. Dos professores também.
Domingo, 25 de Outubro de 2009
Coisas que não precisam de um braço direito #2
"Apesar de todo o seu legado humanista e das muitas gerações de estudiosos e cientistas que produziu, é improvável que o Rio venha a gerar, por exemplo, um filósofo de verdade - imagine um Heidegger de bermuda e comendo churrasquinho na calçada".
Sábado, 24 de Outubro de 2009
Ainda se fosse Agosto
Não sei se é da tendinite, se estou a criar algum juízo, mas esta leitora da Bíblia e leitora ocasional de Saramago, está-se nas tintas para a pseudo-polémica que se instalou no país. Ainda se fosse Agosto. Ainda se houvesse alguma coisa que tivesse graça ou uma protagonista de telenovelas envolvida na história. Assim, é tudo um bocadinho aborrecido, dado o nível do debate. Como há liberdade de expressão, o Saramago escreve o seu livro, os católicos e a Igreja acusam-no de ser ignorante sobre a Bíblia e pronto, seguimos em frente. Para livros melhores. Para posições mais urgentes por parte da Igreja e do Saramago, se lhe apetecer. Eu gostaria que outros lessem a mensagem tranformadora da Bíblia, como eu tardiamente li. Gostaria que encontrassem, como eu encontrei, sobretudo no Novo Testamento, uma mensagem que é para todos e não apenas para uns eleitos - que incluiu as mulheres de uma forma inédita -, que tem uma ética que toca mesmo os que não são cristãos. Mas se tantos católicos não encontram essa mensagem na Bíblia, porque haveria José Saramago de a encontrar?
Coisas que não precisam de um braço direito
"No dia em que se reescrever a Constituição, um dos artigos dirá: Todo o brasileiro tem direito a um cantinho e um violão".
Enquanto a tendinite não me larga e as coisas que se fazem exclusivamente com a mão direita não páram de aumentar, não precisar do membro superior direito para ler é de um conforto incrível.
Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Uma anedota de portugueses
Num vídeo literalmente sem graça, uma mulher brasileira muito bonita diz, sem subtilezas e sem originalidade em relação à tradição de anedotas do seu país, que os portugueses são burros. Em termos de sofisticação, é mais ou menos o equivalente ao sketch dos alentejanos nos “Malucos do Riso”. Dois anos depois, há portugueses que se indignam com o vídeo. I rest my case.
E se escrevo com a mão esquerda estas linhas (tendinite oblige), é porque o episódio fez-me reflectir sobre o humor. Será que, como na Arte, é humor aquilo que o criador diz que é humor? O vídeo daquela senhora muito bonita não tem graça, mas é assim que aparece no programa “Saia Justa”, que pelo menos em tempos teve muita piada. O vídeo é carimbado como sendo de humor, logo é humor. Parece-me lógico. Só que não tem graça. E o que é que se faz a uma coisa que não tem graça? Não se liga nenhuma. E o que é que uns quantos portugueses fizeram? Uma petição na Internet sobre o assunto, dois anos depois. I rest my case.
Esta não é uma história de inteligência desde o início. O que me parece mais dramático é que existam pessoas, suponho que jornalistas, que caucionaram a divulgação de notícias em horário nobre, inclusivamente no serviço público de televisão, sobre um vídeo com dois anos de antiguidade e uma petição lançada no facebook. Hoje de manhã já havia uma reacção da própria senhora muito bonita, que pensa mesmo que os portugueses são burros porque mais ou menos que pedia desculpa, ao mesmo tempo que dizia que aquilo era "humor inteligente". A difusão daquela "notícia" na televisão, responsabilidade de alguns jornalistas sem vida própria que vivem dentro do facebook e acham que o lá se passa é que é vida, transformou o que era a burrice de alguns portugueses, na burrice de um país inteiro. Não há nada que tenha graça nesta história. Para lá de burrice, é uma tristeza.
E se escrevo com a mão esquerda estas linhas (tendinite oblige), é porque o episódio fez-me reflectir sobre o humor. Será que, como na Arte, é humor aquilo que o criador diz que é humor? O vídeo daquela senhora muito bonita não tem graça, mas é assim que aparece no programa “Saia Justa”, que pelo menos em tempos teve muita piada. O vídeo é carimbado como sendo de humor, logo é humor. Parece-me lógico. Só que não tem graça. E o que é que se faz a uma coisa que não tem graça? Não se liga nenhuma. E o que é que uns quantos portugueses fizeram? Uma petição na Internet sobre o assunto, dois anos depois. I rest my case.
Esta não é uma história de inteligência desde o início. O que me parece mais dramático é que existam pessoas, suponho que jornalistas, que caucionaram a divulgação de notícias em horário nobre, inclusivamente no serviço público de televisão, sobre um vídeo com dois anos de antiguidade e uma petição lançada no facebook. Hoje de manhã já havia uma reacção da própria senhora muito bonita, que pensa mesmo que os portugueses são burros porque mais ou menos que pedia desculpa, ao mesmo tempo que dizia que aquilo era "humor inteligente". A difusão daquela "notícia" na televisão, responsabilidade de alguns jornalistas sem vida própria que vivem dentro do facebook e acham que o lá se passa é que é vida, transformou o que era a burrice de alguns portugueses, na burrice de um país inteiro. Não há nada que tenha graça nesta história. Para lá de burrice, é uma tristeza.
Sábado, 10 de Outubro de 2009
Dia de reflexão
Duas semanas a andar de saltos rasos e uma tendinite depois, gozo agora do mais delicioso artificialismo da democracia portuguesa, o dia de reflexão. Gozamos todos, mas eu estou proibida por lei de fazer o que nos fiz nos últimos quinze dias. Para mim, tem outro sabor, permitam-me que me sinta especial. E ligeiramente órfã, também.Tenho pena que a reflexão apenas se aplique às 24 horas antes das eleições. A reflexão devia generalizar-se. E assim mesmo, por decreto, para ser escrupulosamente cumprida. Um dia antes de se casarem, os enamorados estariam proibidos de discorrer sobre as alegrias e tristezas da vida conjugal. Um dia antes de viajarem, os viajantes já teriam as malas feitas, e, prontos para zarpar, almoçariam com os pais ou assistiriam a comédias românticas. O sossego como uma obrigação. O silêncio como acto de higiene. Que bom que seria.
Como não há sempre uma lei a ditar-nos o que fazer, um Estado a meter-se entre os nossos actos - ainda bem - lá teremos que nos arranjar. Estar sós. E encontrar a paz ou as trevas que evitamos quase sempre. É difícil, por isso é que há o dia de reflexão. Alguém reflecte verdadeiramente no dia de reflexão? Provavelmente, não. Mas há descanso. E as tréguas, ainda que falsas, são necessárias. Agora vamos parar. Não necessariamente para pensar. Vamos apenas parar. Só um bocadinho.
Como não há sempre uma lei a ditar-nos o que fazer, um Estado a meter-se entre os nossos actos - ainda bem - lá teremos que nos arranjar. Estar sós. E encontrar a paz ou as trevas que evitamos quase sempre. É difícil, por isso é que há o dia de reflexão. Alguém reflecte verdadeiramente no dia de reflexão? Provavelmente, não. Mas há descanso. E as tréguas, ainda que falsas, são necessárias. Agora vamos parar. Não necessariamente para pensar. Vamos apenas parar. Só um bocadinho.
Terça-feira, 6 de Outubro de 2009
A voz de todos nós
Quando Amália Rodrigues morreu eu estava na Nazaré. No 11 de Setembro, também. Achei que podia evitar as desgraças não voltando mais lá. Percebi que não valia de nada quando há pouco mais de um ano uma convulsão de choro me atirou para cima do teclado do computador. Paul Newman morrera e eu nem tinha saído de casa.
Há dez anos, Amália saia pelas janelas abertas como um vento triste. As nazarenas tinham tirado os discos antigos das gavetas. Na rua, as canções misturavam-se umas com as outras e faziam todo o sentido.
Há dez anos, eu era outra, Amália era a mesma.
Apesar da mediocridade, o projecto Amália Hoje terá tido, pelo menos, o mérito de fazer voltar ouvir o que é de sempre. Se há coisa que caracteriza Amália é não ter hoje. Nem ontem, nem amanhã. É aí que começa a arrogância do denominado “projecto”, que, com a sua demagogia musical, não merece, aliás, mais do que uma referência breve.
Sobre Amália, cantou António Variações o que há para dizer.
“Todos nós temos Amália na voz / E temos na sua voz / A voz de todos nós”.
Há dez anos, Amália saia pelas janelas abertas como um vento triste. As nazarenas tinham tirado os discos antigos das gavetas. Na rua, as canções misturavam-se umas com as outras e faziam todo o sentido.
Há dez anos, eu era outra, Amália era a mesma.
Apesar da mediocridade, o projecto Amália Hoje terá tido, pelo menos, o mérito de fazer voltar ouvir o que é de sempre. Se há coisa que caracteriza Amália é não ter hoje. Nem ontem, nem amanhã. É aí que começa a arrogância do denominado “projecto”, que, com a sua demagogia musical, não merece, aliás, mais do que uma referência breve.
Sobre Amália, cantou António Variações o que há para dizer.
“Todos nós temos Amália na voz / E temos na sua voz / A voz de todos nós”.
Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
A princesa pega em armas
O primeiro episódio das bandeiras divertiu-me. Divertiu bastante mais quem as hasteou e isso é muito bom. Pessoas divertidas, com sentido de humor e iniciativa para o concretizar, precisam-se. Lamento que aos republicanos lhes falte algum. Os republicanos comportam-se como algumas pessoas na cama, são dotadas e competentes, mas têm preguiça. E todos nós sabemos o que a preguiça faz às relações. Quanto menos se faz, menos se quer fazer. Quanto menos se faz, pior se faz. Correm-se menos riscos. É talvez por sentirem que o regime não está em risco, que os republicanos se viram para o lado e dormem. Só que a República precisa de nós.
Eu como não sou lá grande criativa, apelo aos republicanos que o são que ponham os pés ao caminho e façam pela República qualquer coisa que se veja e, de preferência, que tenha graça. Porque para pegar em armas estou cá eu. Sempre gostei das coisas chatas. Fui delegada de turma e representante dos alunos no conselho pedagógico, não era propriamente o tipo que se senta na última fila e manda piadas. Precisamos desse tipo esperto, que se balançava na cadeira enquanto pensava na piada seguinte. Pela República, prometo fazer tudo em que sou boa, que são as coisas chatas. E pegar em armas, tarefa na qual não sei se sou boa, mas como qualquer pessoa que é boa em coisas chatas, se me propusesse a isso, seria.
A República é o regime perante o qual somos todos iguais. Por isto, dou tudo o que tenho. Falta-me a criatividade, mas não o sentido de humor. Vá lá, republicanos, façam-me rir.
Viva a República!
Eu como não sou lá grande criativa, apelo aos republicanos que o são que ponham os pés ao caminho e façam pela República qualquer coisa que se veja e, de preferência, que tenha graça. Porque para pegar em armas estou cá eu. Sempre gostei das coisas chatas. Fui delegada de turma e representante dos alunos no conselho pedagógico, não era propriamente o tipo que se senta na última fila e manda piadas. Precisamos desse tipo esperto, que se balançava na cadeira enquanto pensava na piada seguinte. Pela República, prometo fazer tudo em que sou boa, que são as coisas chatas. E pegar em armas, tarefa na qual não sei se sou boa, mas como qualquer pessoa que é boa em coisas chatas, se me propusesse a isso, seria.
A República é o regime perante o qual somos todos iguais. Por isto, dou tudo o que tenho. Falta-me a criatividade, mas não o sentido de humor. Vá lá, republicanos, façam-me rir.
Viva a República!
Domingo, 4 de Outubro de 2009
Se eu fosse mais simples

“Se eu fosse mais simples, aproveitaria tudo mais. O pior é esse hábito mental em que caí de querer transformar tudo em ouro”. Clarice Lispector escreve de Berna para a irmã Tânia em Julho de 1946. A ideia atravessa as cartas que escreveu às irmãs nos anos que viveu fora do Brasil, acompanhando o marido diplomata. Felizmente, as cartas foram reunidas em livro.
Para ser bem simples, ainda bem que há cartas. Ainda bem que há livros. Complicando, as cartas não chegam para afogar saudade alguma. Os livros vão-se transformando pelo caminho. Às vezes são pedras, outras tijolos, outras ainda são lenços em que nos assoamos. Ou seja, nada é simples. Tudo é simples.
Há aquele filme, “As pessoas normais não têm nada de especial”. Seria melhor, “As pessoas coerentes não têm nada de especial”.
Querermos a simplicidade e não abdicarmos da vertigem é mais ou menos ser gente. E, na verdade, parece-me que a coerência é outra coisa. É o que sobra dos distúrbios mais elementares. Quando se quer que sobre alguma coisa.
“Sei que as coisas são complicadas. Mas são ao mesmo tempo simples. Elas se complicam à medida que se tem medo da simplicidade (…). Encare um pouco a verdade, que é muito bonita, e sinta-se livre, querida” (Clarice Lispector, Berna, 13 de Agosto de 1947). O importante é a verdade.
Para ser bem simples, ainda bem que há cartas. Ainda bem que há livros. Complicando, as cartas não chegam para afogar saudade alguma. Os livros vão-se transformando pelo caminho. Às vezes são pedras, outras tijolos, outras ainda são lenços em que nos assoamos. Ou seja, nada é simples. Tudo é simples.
Há aquele filme, “As pessoas normais não têm nada de especial”. Seria melhor, “As pessoas coerentes não têm nada de especial”.
Querermos a simplicidade e não abdicarmos da vertigem é mais ou menos ser gente. E, na verdade, parece-me que a coerência é outra coisa. É o que sobra dos distúrbios mais elementares. Quando se quer que sobre alguma coisa.
“Sei que as coisas são complicadas. Mas são ao mesmo tempo simples. Elas se complicam à medida que se tem medo da simplicidade (…). Encare um pouco a verdade, que é muito bonita, e sinta-se livre, querida” (Clarice Lispector, Berna, 13 de Agosto de 1947). O importante é a verdade.
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