domingo, 23 de outubro de 2016



                              O novo Almodovar é grego. Grego antigo na Galiza. Gostei muito, muito.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

outubro

Nas primeiras chuvas respiro uma saudade brutal de Alenquer. Como se não existisse mais, engolida pelo rio, as margens abertas num grande abocanhar de vila baixa e vila alta que tivesse virado ao contrário vale e montes. Sem espetacularidade, só num gesto muito comprido, as margens do rio a levarem o cheiro das caminhadas para a escola com o fresco a fingir-se irrepetível todos os anos a começar outubro. As roupas ‘boas para levar para a escola’. Se a escola fosse mais perto, poderiam ser diferentes? E sabia, sabia-se, daí a semanas o frio já seria para dentro dos ossos. A meia estação era curta para os habitantes não se prostrarem melancólicos. É das saudades mais justificadas, tem o anátema das coisas que nunca andarão para a frente, parecem não ter nada para cumprir, ao contrário de sentir falta do Brasil e saber que está tudo bem. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016



Está quase e agora quase é mesmo quase. Tenho a tese de mestrado escrita, estou mergulhada em correcções e outros horrores, mas vou sair disto viva porque tenho comigo os melhores ensinamentos desde a mais tenra idade. E o Bob Dylan é Prémio Nobel da Literatura! Viva!

domingo, 18 de setembro de 2016


Millie Bobby Brown, Elevan, em "Stranger things".


             Até final de outubro vou ter de me concentrar a sério e praticar a ausência daqui, mas está tudo bem. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

ativismo do sentir



“No estamos acostumbrados a que triunfe el activismo del sentir. Pero ocurre. El único património de Sherazade es la palabra poética, la boca que da a luz un lenguaje que no pretende dominar. Y esse activismo del sentir consigue un primer efecto revolucionário: desequilibra al poder”. A expressão “ativismo do sentir” funciona muito bem em português talvez porque tenha sido inventada por um galego. Não sei se o escritor Manuel Rivas tem a patente, mas usou-a num artigo na revista do El País que li para “me entreter” – curiosa expressão – enquanto tomava café num parque de campismo na Galiza, em julho. A crónica de Rivas era um elogio às mulheres no atual panorama cultural espanhol. Faz, por isso, todo o sentido que tenha voltado a encontrar-me com a mesma ideia na introdução da última Lenny Letter, escrita por Lena Dunham, a mulher que voltou a por o feminismo na agenda nos Estados Unidos. A autora da série “Girls” teve uma infância privilegiada e a mãe permitia-lhe faltar à escola para que ela pudesse repor os níveis de sanidade mental, o que era feito a ler, comer bolos, comprar t-shirts absurdas com o dinheiro do seu porquinho-mealheiro e outras coisas reais ou fictícias. “My mother had given me permission to relax every fiber of my being and, in doing so, reclaim my fight”. Sim, fight, luta. Ir à escola todos os dias é uma luta. Viver todos os dias cansa, já dizia o mais inspirado título de todos os livros lamechas de Pedro Paixão. Lena dá o salto citando a feminista Audre Lorde: “Caring for myself is not self-indulgence, it is self-preservation, and that is an act of political warfare.” E é mesmo. E é bem verdade que para as mulheres é mais difícil permitirem-se descansar, ou porque materialmente não podem ou porque a fábrica de culpa gerada para as submeter requer os seus serviços. Lena dá novamente um salto, para ir encontrar-se com o Rivas e o seu “ativismo do sentir”: “Every single one of you is engaged in your own act of political warfare. Whether it’s drawing, baking, doing a fucking awesome job at something that’s traditionally male, OR being tough as nails at a job that’s traditionally female, you are reconceiving what activism looks like”. Talvez o laço não se aperte na Galiza. Foi Clarice Lispector que escreveu: “Pensar é um ato, sentir é um facto”.

terça-feira, 23 de agosto de 2016


"I would love to become a child on the beach once again. It may sound infantile, but that's the feeling I long for: to be a child without care, taking in the immensity of the ocean an still feeling safe". A explicação do ilustrador da capa de agosto da New Yorker Jacques Sempé não pode ser outra coisa se não uma desilusão. Percebo-o. Aquela perda é muito dolorosa, mas o que o ilustrador concebeu para a homenagear suplanta-a com profundidade. Olho para esta capa e vejo uma república de infância, uma organização bela, o mundo tomado pelas crianças, mas numa história bem contada.