quinta-feira, 27 de abril de 2017




“Os filhos Belsey dirigiram-se a um café próximo. Sentaram-se em bancos alinhados contra a montra de vidro, olhando para a charneca devastada de Boston Common. Puseram em dia as novidades mútuas de um modo descontraído, deixando longos espaços aconchegados de silêncio durante os quais se ocupavam dos bolinhos e cafés. Jerome – depois de ter tido de ser espiritual e brilhante numa cidade estranha entre estranhos – estava a apreciar aquela dádiva. As pessoas falam da tranquilidade feliz que pode existir entre dois amantes, mas isto era demasiado grande; sentado entre a irmã e o irmão, sem dizer nada, a comer. Antes de o mundo existir, antes de ser povoado, e antes de haver guerras e empregos e colegas e filmes roupas e opiniões e viagens ao estrangeiro – antes de todas essas coisas, tinha havido apenas uma pessoa, Zora, e apenas um lugar: uma tenda na sala feita de cadeiras e de lençóis. Ao fim de alguns anos, Levi chegou; abriu-se espaço para ele; era como se ele sempre tivesse existido. Ao olhar agora para os dois, Jerome viu-se nas articulações dos dedos deles e nas suas perfeitas orelhas em concha, nas longas pernas e nos indomáveis caracóis. Ouvia-se a si mesmo no ceceio parcial causado por línguas gordas em vibração contra dentes visivelmente pouco salientes. Não estava a procura se e como ou porque os amava. Eles eram apenas amor: eram a primeira prova que alguma vez tinha tido de amor, e seriam a última confirmação de amor quando tudo mais se desfizesse".

Zadie Smith, “Uma questão de beleza”, Dom Quixote

segunda-feira, 3 de abril de 2017




“O olhar vai de rosto em rosto, de anúncio em anúncio. O HOTEL SEATTLE; A CAPITAL DAS MÁQUINAS DE ESCREVER DA AMÉRICA; A ORQUESTRA WANG DOODLE SÓ ESTA NOITE; O CAVE CAFÉ AND GRILL: 24 HORAS POR DIA. Dos dois lados da entrada principal podem ver-se cartazes de três metros de altura, com as palavras PROIBIDO ESCARRAR escritas em diagonal sobre o corpo de Hygeia, a deusa da saúde, que segura numa das mãos o desenho de uma casa limpa e arrumada e na outra, pombas a fazer os ninhos numa árvore; a bainha do vestido verde cai sobre as palavras LIXO, DOENÇA, CRIME e uma meia dúzia de escarradores. Chovem passageiros em volta de Lilian e dirigem-se para táxis e fiacres, ou para os familiares que os esperam, ou para os moços os hotéis melhores ou melhores que agitam campainhas para os chamar”.
Amy Bloom, Até ao Fim do Mundo, Oceanos


Tenho este romance da Amy Bloom há talvez oito anos em casa. Ouvi o nome dela a sair de uma boca perfeita num programa de televisão. Ficou na estante para o adorar por estes dias, em que parece que só acolho livros escritos por mulheres e nenhum de uma autora de língua portuguesa, que era um propósito que tinha formulado. Sempre a chegar a um cais cheio de elementos a reclamar a minha atenção, como a Lilian deste romance, e a desejar um prado com menos escolhas. 

terça-feira, 28 de março de 2017

crónica primeira



Ontem, a Alexandra Lucas Coelho despediu-se do Público. Esse texto conta a história do jornal português mais belo que conheci. O João Miguel Tavares acrescenta hoje uma história também muito bonita.