sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

lezíria tropical



Foi a língua portuguesa quem plantou palmeiras na planície ribatejana. Ou é nos recortes altivos que me descubro portuguesa. Sou daqui, pelo menos. Da terra que está próxima, que esteve sempre. Mas só porque também tem a lonjura é que sou daqui,

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

em diferido


Denzel Washington e Viola Davis em "Fences", de Denzel Washington, a partir da peça de August Wilson


Tinha 12 anos e vi a entrega dos óscares pela primeira vez. Foi em diferido e na versão resumida que as televisões emitem (ainda emitem?) na noite seguinte. Como todas as coisas que sabia, pressentia ou queria que fossem especiais, gravei. A cópia VHS dos óscares de 1992 ainda deve existir, detrito a boiar no mar acumulativo da casa da minha mãe. Precisamente, não é lixo, é tesouro.
 Foi o ano do “Silêncio dos Inocentes”. A Jodie Foster apareceu divina num conjunto pérola, casaco e calças cigarro, cabelo em ondas ligeiras, a acenar de longe aos anos 1930, profundamente ‘lesbian chic’, sei-o hoje. Foi também o ano das flexões de Jack Palance ao receber o prémio por “A vida, o amor e as vacas”, humor de cowboy, a gargalhada mesmo no centro do american way of life. O Billy Cristal foi o anfitrião, a fazer rir dentro daquela correção das coisas mesmo boas do ‘showbiz’: estão lá como monumentos para adoração, não falhando na concessão de graças.
Nesse ano percebi que havia muitos bons filmes para ver. Foi o ano de “O príncipe das marés”, “O Rei pescador”, “JFK” (falha até hoje), “O cabo do medo”. Já chega? Não. Foi também o ano de “Thelma e Louise” (marca a ferro em brasa, sempre renovada), “Bugsy”, “Bela e o Monstro”. A Liza Minnelli e a Shirley MacLaine apresentaram o óscar de melhor canção. Demi Moore pisou o palco do alto da sua roquidão, abençoada seja a categoria de melhor guarda-roupa. O Paul Newman e Elizabeth Taylor abriram o envelope para o melhor filme, por amor de Deus.
A 64ª cerimónia de entrega dos óscares não foi um espetáculo, foi uma conspiração para comandar o meu comportamento entre dezembro e fevereiro para o resto dos meus dias. Podia lamentar como nada já não é como dantes, mas isso era negar o que aquela noite diferida fez de mim. E este ano, há tantos bons filmes a honrar aquela noite de feitiço certeiro.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017






Here's to the ones who dream

Foolish as they may seem

Here's to the hearts that ache

Here's to the mess we make


terça-feira, 31 de janeiro de 2017


Kyle Chandler e Casey Affleck, em "Manchester by the sea", de Kenneth Lonergan

Gostei tanto de ver os homens deste filme, tanto. Acho que já mereciam um filme assim, alienados reincidentes das narrativas dos filhos, do serem cuidadores, do estarem sós.

E depois calhou ler isto. Tendo um caso de alienação parental muito próximo que é precisamente contrário a esta tese - ou seja, foi o pai quem alienou a mãe -, forço-me a reconhecer que muitas vezes, vezes a mais, vejo as mulheres a ensaiarem estes gestos, mesmo antes de qualquer separação. Está tudo tão à nossa volta. Experimentem questionar. E contar cada vez que uma mulher nega ao filho o colo do pai, porque ela é que sabe.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

ousar

"E sei agora que quem é forte e firme de coração e de alma é o senhor dos outros! E que quem ousar muito terá sempre razão. O que for capaz de cuspir mais longe será o legislador e o que se atrever mais do que os outros terá mais razão do que os restantes. Foi sempre assim e sê-lo-á. É preciso ser-se cego para não o ver.

Ao dizer isto, Raskolnilov olhava para Sonia, mas já não se importava que ela o compreendesse ou não. A febre apoderara-se inteiramente dele; estava num estado de grande excitação. Há já tanto tempo que não tinha auditório! Sonia percebeu que esse catecismo de amargura se tornara a fé e a lei do seu companheiro.

- Compenentrei-me, Sonia – continuou, sempre excitado -, que o poder pertence somente a quem ousa agarrá-lo. Existe apenas uma condição: ousar! E então acudiu-me uma ideia que não ocorrera ainda a ninguém. Tornou-se-me claro como água que nenhum homem, até esse momento, saltando por cima de todos os absurdos, conseguira uma oportunidade… para a desprezar em seguida. Eu quis ousar, e matei. Só quis ousar, nada mais".



Dostoievski, "Crime e Castigo", Editorial Estudios de Cor, Lisboa, 1968, tradução de Maria Franco

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A marcha das mulheres na primeira página do jornal canadiano Toronto Star, no domingo.



Para colocar palavras no discurso público é preciso saber usá-las. Por isso, essa capacidade materializa a mestria daqueles que dependem delas para viver. Os humoristas e os argumentistas conseguem escrever os nossos diálogos, colocar palavras na nossa boca durante meses, anos. A vaidade que não devem sentir quando se ouvem no supermercado ou no café. Os políticos criam discurso e sentido. Às vezes basta servirem-se de palavras que outros elegeram. A generalização de ‘geringonça’ a partir da utilização por Paulo Portas de uma expressão de Vasco Pulido Valente é o exemplo recente.

Nestas palavras e expressões há estabilidade significativa, eficácia. Caso diferente de situações que me causam algum ‘stress’ linguístico, como a expressão pós-verdade. Gosto da palavra, acho-a, lá está, eficaz. É contudo uma eficácia traduzida do inglês e, em grande medida, oriunda de uma realidade que não tem sido a portuguesa. É um estrangeirismo sem o ser. Talvez isso explique em parte porque tem tido utilizações tão livres e contestações tão diversas. Diz-se que é um modismo – sim, a expressão é do Brasil, lidem com isso – para designar a velha mentira. Não me parece.

Um grande número de pessoas que votaram em Donald Trump fê-lo ignorando partes substanciais do seu discurso. Isso aconteceu em eleitores desfavorecidos, como mostra este trabalho da Vox sobre o Obamacare, e em votantes das classes altas, o que inclui mulheres, lésbicas, minorias, que esta reportagem do The Guardian dá a ver. Essas pessoas escolheram ignorar partes da verdade, achando, como dizem algumas nestes trabalhos jornalísticos, que Trump não vai fazer exatamente o que disse que faria ou até que vai fazer coisas que não disse que faria. Esta é uma das faces da desvalorização dos factos, que é simultaneamente uma desvalorização da palavra. Outra face são, mais notoriamente, as notícias falsas e sua propagação fácil nas redes sociais povoadas de elogio à ignorância (a culpa não é delas, pobres redes). Partilham-se supostas notícias que moldam aquilo que se pensa: a cada um os seus factos. Factos alternativos, precisamente.

Engoli em seco quando vi Hillary Clinton começar um debate com Trump dizendo que os ‘fact-checkers’ do seu sítio na internet estavam a medir todas as mentiras do seu adversário. Era ela quem estava a perder-se nas mentiras dele, que se agarravam ao seu discurso como pastilha elástica, impedindo-a de ter uma voz, de marcar a agenda. Engoli em seco porque vislumbrei a derrota e hoje engulo em seco outra vez porque sei que aquilo que pensei foi “as pessoas querem lá saber da mentira”.

A pós-verdade é o fim da mentira. É o fim da mentira enquanto resultado de um escrutínio e perseguição da verdade, enquanto ato condenado moralmente por uma comunidade.

Não vivemos o fim dos tempos, esta convivência distendida com os factos já terá tido outros momentos altos, tenhamos sempre perspetiva e viremo-nos para a história e para a literatura em busca dela. Vai demorar. A batalha vai ser longa. Portanto, não esperemos que seja ganha por um publicitário ou publicitária. Viremo-nos para aquilo que leva tempo, lutar sempre levou tempo, ler sempre levou tempo. Ou seja, viremo-nos para as palavras e para a sua exigência. Se nisto houver um coração, vamos lá chegar. À pós-pós-verdade.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

ponto de situação


Uma coisa que me tem tirado o tempo, o sono, o blogue e passeios na minha bicla nova: o ciclo de cinema do congresso de jornalistas, e o próprio do congresso, claro.

Bicla, pois é. Tive o Natal de uma criança, impunha-se um enorme presente, daqueles que não se esperam e que não se embrulham.