segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A narrativa da violência #3

Não é amor. É medo. Graça Barbosa Ribeiro escreve-o, no Público.


A classe jornalística precisa urgentemente reflectir sobre a forma como conta as "histórias" da violência contra as mulheres. Não será fácil encontrar parâmetros, como no caso das notícias sobre incêndios, barricados ou suicídios. Nestes casos, o carácter mimético dos crimes está provado, tal como está provado o contributo de determinada abordagem jornalística a este mimetismo. Na violência contra as mulheres, “histórias” de “amor”, “paixão”, “loucura” de sentimentos excessivos, alimentam uma mentalidade que é dificilmente mensurável. A complexidade não pode ser uma desculpa para que se continue a engrossar este caldo de marialvismo de fotonovela. Em nome, repito, das mulheres que ainda não morreram.

A narrativa da violência #2

E se fossem para a puta que os pariu mais o amor?

Depois de ter pedido que não que me desse mais histórias de "amor", constatei, que já antes, o mesmo Paulo Moura tinha-se servido das mesmas fórmulas narrativas para contar a história de uma "menina que amou de mais". Fê-lo no dia da violência contra as mulheres. É mais ou menos o equivalente a assinalar o dia da árvore com uma festim de imagens de incêndios, para a delícia dos pirómanos.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

A narrativa da violência

(26 mulheres mortas em Portugal por maridos, ex-maridos, namorados, ex-namorados, companheiros, ex-companheiros. Só este ano. E os números não são fiáveis. Terão sido mais).

Os nomes dados às coisas influenciam a forma como elas aparecem aos nossos olhos. Se formos jornalistas, carregamos a responsabilidade de fazer “aparecer” uma coisa aos olhos de muitas pessoas. Estamos, em última instância, a “dirigir” o olhar do leitor, ouvinte, telespectador. “Violência doméstica” não é o mesmo que “violência de género”, que também não é bem o mesmo que “violência machista”. Mas a responsabilidade aumenta quando saímos do domínio dos nomes e passamos à forma como se contam as histórias. E a História da violência contra as mulheres está minada por histórias. Fórmulas narrativas de cordel que justificam aquela violência. Justificam pelo ciúme, pelo “amor”, pela “paixão” - tantas vezes, aliás, são ainda chamados de “crimes passionais”. Um texto assinado por Paulo Moura no suplemento P2 do jornal Público de hoje sobre a morte de uma jovem em Viseu, alegadamente às mãos do ex-namorado, conta aquela que terá sido uma “história marcada por um amor excessivo”. O título dessa “história”: “A morte em vez da reconciliação”. Enquanto em nome de uma “história” se confundir amor com humilhação, violência e morte, não quero mais ler estas “histórias”. Dêem-me só os factos. Uma mulher foi morta por um homem com quem teve ou tinha uma relação. O resto são “histórias” ao serviço de agressores, histórias que também maltratam vítimas em busca de lucidez. Em nome das mulheres que ainda não morreram e lutam para sair do ciclo da violência, não me dêem mais historias de “amor”.

A importância de ver Penélope



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Penélope Cruz (Pe, para os espanhóis), na edição de Novembro da Vanity Fair, fotografada por Mert Alas e Marcus Piggott.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Conversa de homens

Na primeira declaração pública depois de ter sido nomeado pelo Papa, Bento XVI, Bispo de San Sebastian, José Ignacio Munilla quis demarcar-se imediatamente de qualquer posição política. Ao fazê-lo, disse uma coisa importante, na qual acredito muito e cada vez mais. Afirmou que a vida o tinha ensinado a valorizar sobretudo as relações pessoais, no âmbito das quais é mais fácil encontrar caminhos de entendimento. A minha vidinha também me ensinou isto. A verdade nunca está sempre no mesmo lado. Ouvir o outro, é meio caminho para o entender. Lembrou-me uma frase que António Lobo Antunes disse numa entrevista: “Dois homens, quando são homens, estão condenados a entender-se, não é?”. Acredito profundamente nisto. Embora o aplique a qualquer pessoa “com eles no sítio”, homem ou mulher. Infelizmente, desconfio que há um despojamento do acessório e da parvoíce que os homens atingem com mais facilidade. Embora apenas quando estão só entre homens.
Se Lobo Antunes pode afirmar esta máxima poderosa e ligeiramente misógina, será que o Bispo de San Sebastian, ou qualquer responsável religioso, pode basear a sua acção nas relações homem-a-homem? Parece-me que não. Teria que viver numa pequena comunidade, como as dos cristãos primitivos, e, mesmo assim, seria difícil. Não há como não tomar partido e o Bispo de San Sebastian deve sabê-lo bem. Isto não contamina em nada o princípio que Lobo Antunes tão bem enunciou. Sim, dois homens, quando são homens, estão condenados a entender-se. É preciso é que saibam ser homens.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Fisioterapia

Cheira a pomadas analgésicas. A M80, com o seu caldo de Heróis do Mar, Roxette e a banda sonora do “Dirty Dancing”, emite ondas hipnóticas. Os pacientes adivinham-se entre os cubículos efémeros. Quando é corrida uma cortina, muda tudo. São infinitas as possibilidades de encenação. Abro o livro em cima da maca. As terapeutas, profundamente educadas, sorriem e falam pouco. Parece um daqueles sonhos estranhos, que provocam um acordar sereno.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Coisas que não precisam de um braço direito #3


“As vizinhas eram mesmo gordas e patuscas. Tinham bustos opulentíssimos, braços espectaculares e colares de brotoejas. Passavam o dia nas janelas, fiscalizando os moradores da rua e suspirando exclamações como ‘Deus é grande!’ e ‘Nada como um dia depois do outro!’. Seus maridos eram magros, asmáticos, espectrais e, à noitinha, postavam-se nas soleiras com seus pijamas de alamares e chinelos, esperando o garoto cujo pregão já se ouvia desde a Maxwell: ‘Eu sou um pobre jornaleiro/ Que não tenho paradeiro/ Vivo sempre a sofrer’. E puxava um fôlego extra para gritar: ‘Olha ‘A Noite’!’ Era também uma vizinhança de solteironas ressentidas, de adúlteras voluptuosas e, não se sabe por que, de muitas viúvas – machadianas, só que com gazes enroladas nas canelas, por causa das varizes.
Era também uma vizinhança que tossia em grupo. Não que fosse uma comunidade de tísicos. O brasileiro é que tossia muito naquele tempo. Qualquer agrupamento numa sala era um pânico. Começava por um solitário pigarro. Alguém aderia. Logo se juntavam as tosses secas, os chiados de asma, os assovios das bronquites e, num instante, a sala inteira era um festival de expectorações”.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Profundamente vaidosa

... vejo que uma sugestão minha foi digna da contemplação colectiva, no blogue que diariamente nos presta um imprescindível serviço público. Depois de ter ultrapassado a barreira psicológica dos quatro seguidores, é um momento que cobre de glória este blogue. Para comemorar, o cabeçalho engoliu uma imagem da fotógrafa Helen Levitt, num dos muitos distúrbios elementares visuais que o seu olhar produziu.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009


Fotografia de Garcia Cordero, na rodagem de "Flamenco, Flamenco", de Carlos Saura.

Em Espanha, onde a violência contra as mulheres é levada muito a sério, o Congresso pede ao Governo que endureça ainda mais a lei. As condenações por violência de género devem ser acompanhadas da perda automática da custódia dos filhos por parte do agressor e da suspensão do regime de visitas. O consumo de álcool e de drogas devem constituir uma agravante e não uma atenuante dos maus-tratos. As recomendações serão aprovadas na próxima semana na Comissão de Igualdade. Para ler no El País.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Pornografia anti-democrática

Não é de desconfiar que a forma mais visível de democracia directa, o referendo, seja sempre um recurso daqueles que querem evitar alguma coisa? Num país com um percurso incipiente de orçamentos participativos e referendos locais, não houve nenhum referendo nacional que tivesse sido pedido por um movimento fundado na dita sociedade civil. O país não se sobressaltou pela regionalização nem pela interrupção voluntária da gravidez. O país foi chamado a votar decisões que os partidos do arco do poder quiseram, em tempos, contornar. Como ninguém pediu os referendos, poucos foram votar, lembram-se? Tudo se adiou, é verdade, mas nada se adia para sempre. Agora, que um partido que venceu as eleições legislativas com um programa eleitoral em que o que se quer evitar consta com todas as letrinhas, há novamente quem peça o referendo. Porque quer efectivamente sufragar o direito dos homossexuais a casar? Não, porque quer impedir esse direito. Quem pede o referendo ignora que essa alteração legislativa foi sufragada nas eleições, não só através da vitória do PS, como da eleição dos deputados do BE e do PCP, que a apoiam e formam a maioria parlamentar que a irá aprovar. A democracia participativa nunca ganhará enquanto for a arma dos derrotados, pelo motivo singelo de que isso é pornograficamente anti-democrático.

Sobre isto, apenas uma referência: Nunca a leviandade, a indigência intelectual e a pura falta de educação foram tão óbvias. Por isso é que não vale a pena dizer mais nada, a não ser isto, que é muito importante. E esperar calmamente que o senhor receba o seu nobel.
isto, merece uma condenação mais séria. É uma pseudo-notícia/vómito ético em que a homossexualidade é comparada ao consumo de drogas.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

1 muro, 20 anos, 1 filme







"As vidas dos outros", ("Das Leben der Anderen"), de  Florian Henckel von Donnersmarck.

O desamparo e a redenção, ou a vida vista de cima.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Outono em Lisboa

Lisboa no Outono é bonita como uma mulher de 37 anos. Muito bela. Está a um passo de um traço mais vincado nas rugas em torno da boca lhe denunciar o sorriso. Essa mulher nunca foi tão bonita. É por isso que está quase a deixar de ser tão bonita. Como a amamos, vamos admirá-la no auge destes primeiros dias de Novembro. Como a amamos mesmo, vamos mimá-la no Inverno, quando ela se torna uma mulher complicada e chata e temos vontade de a trocar por uma jovenzinha insuportável, mas que não seja tão hostil. Como a amamos profundamente, vamos esperar que a Primavera, com os seus jacarandás em flor e as crónicas do António Barreto sobre os jacarandás em flor, nos faça esquecer o Verão que a segue, para, de novo, a encontrarmos no Outono.