terça-feira, 25 de maio de 2010

Si non te gusta ...

Queria ler em espanhol de seguida, pelo menos até ao exame, porque não tenho tempo para estudar e assim sempre vai entrando qualquer coisa. Depois de “Dientes de Leche”, que me reconciliou com as sagas familiares, deu-me para o improviso e fui parar a um livro, que até ganhou o prémio Nadal, mas que descobri rapidamente que não podia ser outra coisa senão péssimo. Chama-se “Beatriz y los cuerpos celestes”, de Lucia Etxebarria, e é daqueles relatos que de cinco em cinco páginas tem um aforismo com piada, que é, contudo, insuficiente para suportarmos o autobiografismo diletante que é tudo o que aquilo é. Não é mau por ser nitidamente autobiográfico, nada a ver com isso, é mau porque a biografia da senhora ou o que dela recortou para aquele romance é uma chatice adolescente. A cada linha eu pensava, "ai coitada, ainda está nesta fase", "ai coitada que quando isto lhe passar ela vai ser tão mais feliz". Comentei com a minha professora de espanhol, uma galega exigente que adora dar raspanetes e fica felicíssima quando lemos e escrevemos bem, que foi liminar: “Si non te gusta, busca otro”. E prosseguiu que ela também tinha essa mania de ler os livros até ao fim, mesmo quando não lhe agradavam, não só para ver se melhoravam, mas porque se sentia obrigada. Uma coisa é pôr de lado aquilo que é exigente, aquilo que não é para agora, mas que um dia vai ser lido. Outra coisa são estes livros que não podem realmente melhorar. Não há melhoras possíveis para um livro que à página 50 já não respeitamos.

quinta-feira, 20 de maio de 2010



Llevaba los pantalones arremangados y el agua me mojaba los tobillos. Me gustaba estar así, de pie, inmóvil, en silencio. Me gustaba tener los ojos cerrados y sentir como la brisa del mar me revolvía el pelo. También me gustaba escuchar el rumor de las olas e imaginar que me estaban diciendo algo. Me ocurría como com el tictac del despertador en las noches de insomnio, que siempre me decía lo mismo “No puede ser, puede ser, no puede ser”. Las olas, em cambio, decían: “Ahooora, ahooora”. O decían: “Bueeeno, bueeeno”. O también: “Vaaamos, vaaamos”.

Ignacio Martínez de Pisón, “Carreteras Secundarias”, Anagrama.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Vergonha

As piadas envolvendo gays são como todas as piadas, se tiverem graça, são boas. A tentação de se fazer uma piada sempre que o assunto envolve um homossexual é uma coisinha primária e um bocado totó, que, normalmente, não tem graça nenhuma. E depois há a boçalidade, que também é abundante. Mas aquilo que as capas do Jornal de Notícias e do Metro mostram hoje é abjecto. Insulta o Presidente da República e o ministro das Finanças, cujas imagens foram usadas por jornalistas que não conseguem deixar de fazer uma piada quando deviam fazer jornalismo. Sobretudo, insulta-nos a todos, que não merecemos aquelas primeiras páginas. Ou merecemos? Atrevo-me a dizer que aquelas primeiras páginas são homofóbicas. Um jornal faz uma piada daquelas porquê? Porque pode. Pode?

domingo, 16 de maio de 2010

Pérolas sobre azul

Vestidos bonitos há muitos, mas um manifesto de elegância como o Azarro que Carey Mulligan usou em Cannes, na premiere de "Wall Street 2", é tão raro que comove. Para apreciar devidamente aqui, aqui e aqui.

sábado, 15 de maio de 2010

Escutar II

A visita do Papa, Bento XVI, a Portugal, no contexto dos abusos sexuais a menores praticados por membros da Igreja, tornou visíveis sinais de mudança. Ainda antes da visita e a propósito da carta que o teólogo suíço Hans Kung dirigiu aos bispos, ouviu-se o bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, criticar o “centralismo” da Santa Sé, que comparou a uma “monarquia absolutista”. O bispo das Forças Armadas, que recusou sempre que o escândalo de pedofilia fosse um ataque externo à instituição, antes imputando-o, como o próprio Bento XVI, aos pecados da própria Igreja, falou da necessidade de serem ouvidos os bispos. Um concílio e o cumprimento do concílio Vaticano II, pediu-se. Vozes como as dos teólogos Carreiras das Neves e Anselmo Borges apontaram a ordenação das mulheres e o celibato dos sacerdotes, como temas a discutir. Já durante a visita de Bento XVI, a discussão prosseguiu, sem medo de contrariar a adesão popular ao Papa. O rebanho encontrou-se mais de perto com o seu pastor e, já se sabe, ver de perto é ver melhor, quando se tem abertura para isso. Mas a troca de afeto não calou a discussão. Grupos como o movimento “Nós somos Igreja” e os católicos homossexuais, representados pelo grupo “Novos Rumos”, fizeram-se ouvir. Mais uma vez, quem quis, quem teve abertura, ouviu. Uns mais que outros, escutámos todos, e isso é muito bom. Só não se discute quando já não se ama.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Escutar

Sobre a visita de Bento XVI, a ler: textos de Pedro Tadeu e António Marujo, aos quais cheguei pela referência do Miguel Marujo, e  aos quais acrescento o texto de Eduardo Lourenço, aqui. Para pensar e descansar a cabeça de muita inanidade intolerante ou histeria coletiva.
E o que é que eu penso? Que o Papa disse coisas muitíssimo importantes, sobretudo acerca dos abusos sexuais e da separação entre a Igreja e o Estado. Lamento, por motivos óbvios, que tenha citado o cardeal Cerejeira logo à chegada. Ainda que aquela citação seja bastante elouquente, teria sido sensato evitar usar as palavras de um homem que foi conivente com uma ditadura. Este Papa tem problemas de comunicação, empatia e marketing, sabêmo-lo, mas quando ele fala, também é preciso saber ouvir o que diz.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Bem-vindo, Santiago

Seria mais fácil manter a calma, relativizar tudo e ficar apenas com o essencial, se todos os dias usasse a hora de almoço para conhecer um bebé com dois dias.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Os trinta anos nunca existiram

Os trinta anos começaram quando tinha vinte e nove. Foi quando comecei a selecionar. O mundo abriu-se muito quando comecei a selecionar. Aparentemente, deveria ter-se afunilado, pensei, mas não, expandiu-se. O Big Bang pareceu, ao início, uma segunda (mais interessante) adolescência, mas depois tornou-se tão divertido, que não poderia nunca ser confundido com nada. Os trinta anos são como a Ibéria. Não existem. Ou melhor, existem em qualquer idade, em qualquer território comum, em que haja uma ponte para atravessar. É só dar um passo. A vertigem pára quando se começa a andar.