- Porquê? São os nossos.
- Justamente. O partido socialista é o partido dos fracassados e dos pataratas como nós. Primeiro quisemos fazer a revolução e acabámos por ficar com Estado do bem-estar. Eu voto socialista, evidentemente, os outros são piores. É mesmo possível que o PSOE volte a ganhar. Mas como vai ganhar com o voto dos inúteis, continuará a agir mal e durará pouco. – Bebeu um gole de cerveja e continuou: - O partido socialista baseia-se na falta de ideias. Nem a santa tradição nem a revolução permanente. Apenas gestão e distribuição. Pouco estimulante, excepto se for novidade, como em Espanha. Tudo nos parece bem, comparado com o que tivemos. Mas assim que nos habituarmos, veremos que por trás da prática diária não há nada. Pior, veremos o seu interior e não iremos gostar. Um governo sem ideologia tem de manter um nível muito alto de eficiência e de honradez, e isso não está ao alcance de ninguém. Assim que puserem a casa em ordem e as pessoas virem que pouco ou nada muda, aparecerão as velhas retóricas e afastar-nos-ão. Embarcar com eles é atirar-se de cabeça para o fracasso. Isto no que se refere aos socialistas em geral. Aqui o panorama é ainda pior. A Catalunha é ingovernável. Durante séculos funcionámos como nos apeteceu, sem corpo político, e não estamos preparados para participar numa estrutura de poder. Estamos habituados a viver na periferia de um Estado incompetente e a sobreviver à base de pactos secretos, acordos tácitos e de tramóias dissimuladas, sob o véu de um nacionalismo sentimental, autocompassivo e autocomplacente.
Eduardo Mendonza, “Maurício ou as eleições sentimentais”, edições Asa.
Quem fala assim chama-se Clotilde, a minha mais interessante homónima na ficção. Foi preciso reconciliar-me com o nome para Mendonza ma entregar. Em miúda segui o rasto a toda e qualquer Clotilde que não tivesse mais de 80 anos. A lista é pequena, embora já na adolescência tenha havido glória, com Chloé de “A Espuma dos Dias”, de Boris Vian.
A criança cabeçuda e escanzelada com aparelho nos dentes que fui agradeceu muito que Maité Proença tivesse sido Clotilde. Era a professora primária da novela “Sassá Mutema”, a adaptação portuguesa do título “Salvador da Pátria”. A propósito, todas as novelas brasileiras com a palavra “pátria” no título tiveram em Portugal nomes distintos e, às vezes, também temas de genérico diversos. Foi o caso de “Pátria Minha”, uma ótima narrativa sobre a honestidade na era pós-Collor de Mello. Não havia Clotildes, Alice e Rodrigo (Claúdia Abreu e Fábio Assunção) eram o par romântico.
Na novela Ti-ti-ti (atualmente em remake) havia uma Clotilde, mas era uma personagem secundária. Também conto com a vaca Clotilde da Rua Sésamo, essa adorável one hit wonder.
domingo, 31 de julho de 2011
quarta-feira, 27 de julho de 2011
trilogia de Barcelona, livro dois
Costumava sentar-me no telhado, estupefacto com a loucura de tudo aquilo. Das janelinhas do observatório via-se num raio de diversos quilómetros: conjunto após conjunto de edifícios altos e esguios, cúpulas de vidro e fantásticos telhados ondulados, com reluzentes telhas verdes e cor de cobre; para leste, o azul pálido e cintilante do mar – o primeiro vislumbre que eu tinha do mar desde que chegara a Espanha. E toda a enorme cidade de um milhão de habitantes bloqueada numa espécie de inércia violenta, num pesadelo de barulho sem movimento. As ruas estavam desertas e nada acontecia além dos jorros de bala cuspidos das barricadas e das janelas protegidas por sacos de areia. Nem um veículo em movimento nas ruas; aqui e ali, ao longo das Ramblas, os elétricos permaneciam imóveis onde os guarda-freios os tinham abandonado no começo da luta. E, constantemente, o barulho diabólico ecoando de milhares de edifícios de pedra, como uma chuvada tropical. Crack-crack!, ratatá!... Umas vezes diminuía, reduzido a meia dúzia de tiros, e outras acelerava, numa fuzilaria ensurdecedora; mas nunca parava enquanto durava a luz do dia e no alvorecer seguinte recomeçava, pontualmente.
George Orwell, “Homenagem à Catalunha”, Antígona.
George Orwell, “Homenagem à Catalunha”, Antígona.
segunda-feira, 25 de julho de 2011
o terrorista louro
Desvalorizar as motivações xenófobas e racistas do autor confesso dos atentados terroristas na Noruega é tão mais grave quanto se assistiu a um rápido atirar de culpas para um grupo étnico e religioso muito concreto. Quis-se que o atentado fosse obra de fundamentalistas islâmicos, como no 11 de Março em Madrid se quis que atentados perpetrados por fundamentalistas islâmicos tivessem sido responsabilidade da ETA. Num primeiro momento, quase no imediato, a tese segundo a qual se tratava de um ataque da Al-Qaeda ou de uma rede de terrorismo islâmico por ela inspirada baseou-se em informações extremamente frágeis. O New York Times fez disso título. Depois de lida a notícia, a fonte, verificava-se, era um académico especialista em terrorismo. Naquelas horas, uma opinião tinha quase a força de um facto. Quase. Agora, que há factos disponíveis, nomeadamente a confissão do homem e das suas motivações, há um escamotear da xenofobia e do racismo que ele diz que o moveram. Diz-se que era louco e que a loucura não tem ideologia. Ora, o que a História tem ensinado é precisamente que atos classificados de loucura tiveram motivações ideológicas. É só querer aprender.
sábado, 23 de julho de 2011
trilogia de Barcelona, livro um
Luego llamaron a misa y yo corrí a vestirme de monaguillo. Cuando todavía quedaban unos minutos, subí corriendo las escaleras del campanario y me asomé a ver Barcelona. Las calles, los coches, los tejados y hasta los barcos del puerto estaban sepultados bajo la nieve. Y de repente no sé que sentí, pero me pareció que aquello era hermoso y que todo era posible y que la vida me tenía reservadas grandes cosas… Me sentí feliz, sencillamente. No podía dejar de mirar, y ni notaba el frío ni prestaba atención a nada más. La misa se estaba retrasando por mi culpa, pero yo ni siquiera me daba cuenta. El hermano Tomás subió resollando en mi busca. Me agarró muy enfadado de un brazo y con la otra mano hizo el gesto de abofetearme. Pero entonces también el miró la ciudad y se quedó parado, y fue como si la nieve nos hubiera transportado a los dos a un mundo mejor. Ése fue para mí un momento de felicidad absoluta: yo allí, vestido de monaguillo, y el hermano Tomás a mi lado, echando por la boca nubes de vapor, los dos mirando en silencio aquella Barcelona tan blanca e tan hermosa…
Ignacio Martínez de Pisón, “El dia de mañana”, Seix Barral.
terça-feira, 19 de julho de 2011
a versão
Há um sem número de razões para gostar de uma história. Acreditar nela é uma delas. Acreditar nela sem que deixe de ser uma versão, sem nunca perder a dignidade de existir enquanto versão, uma forma picotada que se vai descolando da folha, mas que não a desmente.
terça-feira, 12 de julho de 2011
la revancha del noir
Nunca há saída para quem dorme de dia para viver à noite. Acreditar no contrário é amar a narrativa sem pedir nada em troca.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Lagostas, PIIGS e o grande caldeirão
O contexto da parábola legitima-a. Um grupo de mulheres homossexuais janta num restaurante caro de Los Angeles. Conhecem-se há vários anos. São mulheres independentes na verdadeira aceção da palavra. Têm independência financeira e vivem de acordo com as suas opções. São consequentes e não proclamatórias, umas mais politizadas que outras. São feministas, mesmo que a palavra assuste. As coisas são o que são e têm nomes. O jantar está inserido no processo de apresentação de uma mulher recém-chegada ao grupo às restantes. A mulher acabada de chegar de uma cidade pequena sente-se desconfortável perante uma hostilidade sussurrada, dirigida à forma como se veste e age. Apagada durante a maior parte do jantar, em que nem consegue entender como se comem os pratos pedidos, emerge para contar uma curiosidade relacionada com lagostas. Quando se cozinham lagostas fêmeas vivas num tacho não é preciso colocar uma tampa. Pelo contrário, quando se trata de lagostas macho, é necessário impedi-las de organizarem a fuga fazendo uma escada com os seus corpos. No caso das fêmeas é impossível, elas empurram-se umas às outras e morrem. Há um silêncio momentâneo e retomam-se as conversas cruzadas do jantar. O episódio de L Word termina.
A ideia que as relações de amizade entre homens só conhecem a solidariedade de laços forjados em jogos de futebol ou de rugby, enquanto as mulheres se apunhalam pelas costas com tesouras de costura é falsa. Tenho a felicidade de o saber. Mas a pobreza da generalização não me inibe de reconhecer que muitos ambientes maioritariamente femininos estão carregados de uma enorme violência, com dinâmicas de grupo dolorosas, fundadas em pequenas superficialidades assassinas. As mulheres são, tantas vezes, as maiores inimigas de si próprias, quer numa incorporação acrítica de papéis pré-estabelecidos, quer na forma como minam o caminho umas às outras. Se parece simplista é porque, infelizmente, demasiadas vezes, o é. Mas a história das lagostas tem-me vindo à cabeça não pela discutível ilustração deste também estereótipo acerca das relações entre mulheres, mas por causa da economia e da crise das dívidas soberanas. Tudo nos leva para lá estes dias, até um episódio de L Word.
Impressiona ouvir portugueses a dizer que os gregos tinham benefícios excessivos e eram uns preguiçosos. Ingenuamente ignorarão que algures na Alemanha ou na Holanda descrevem os portugueses da mesma forma? E os espanhóis, e os italianos? Que mentem sobre o número de dias de férias que gozamos e a quantidade dos nossos feriados? Saberão que criaram para nós, periféricos, uma designação porcina? Chamam-nos PIIGS. Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha. Oik, oik.
Impressiona ver trabalhadores de empresas privadas, mal pagos, esforçados, explorados mesmo, diminuírem outros trabalhadores, mal pagos e esforçados do setor público, porque os segundos conservam escassos direitos que foram já roubados aos primeiros.
É um triste espetáculo este de pobres que se esbofeteiam com inveja e irracionalidade. O lume brando foi fervendo este caldo. Não acredito na simplicidade branco e negro das histórias, de quaisquer histórias, mas o discurso de trabalhadores a esgrimirem argumentos de banqueiros é dos piores simplismos que existe. Pensemos um pouco ou seremos, não porcos, mas lagostas cozidas vivas.
A ideia que as relações de amizade entre homens só conhecem a solidariedade de laços forjados em jogos de futebol ou de rugby, enquanto as mulheres se apunhalam pelas costas com tesouras de costura é falsa. Tenho a felicidade de o saber. Mas a pobreza da generalização não me inibe de reconhecer que muitos ambientes maioritariamente femininos estão carregados de uma enorme violência, com dinâmicas de grupo dolorosas, fundadas em pequenas superficialidades assassinas. As mulheres são, tantas vezes, as maiores inimigas de si próprias, quer numa incorporação acrítica de papéis pré-estabelecidos, quer na forma como minam o caminho umas às outras. Se parece simplista é porque, infelizmente, demasiadas vezes, o é. Mas a história das lagostas tem-me vindo à cabeça não pela discutível ilustração deste também estereótipo acerca das relações entre mulheres, mas por causa da economia e da crise das dívidas soberanas. Tudo nos leva para lá estes dias, até um episódio de L Word.
Impressiona ouvir portugueses a dizer que os gregos tinham benefícios excessivos e eram uns preguiçosos. Ingenuamente ignorarão que algures na Alemanha ou na Holanda descrevem os portugueses da mesma forma? E os espanhóis, e os italianos? Que mentem sobre o número de dias de férias que gozamos e a quantidade dos nossos feriados? Saberão que criaram para nós, periféricos, uma designação porcina? Chamam-nos PIIGS. Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha. Oik, oik.
Impressiona ver trabalhadores de empresas privadas, mal pagos, esforçados, explorados mesmo, diminuírem outros trabalhadores, mal pagos e esforçados do setor público, porque os segundos conservam escassos direitos que foram já roubados aos primeiros.
É um triste espetáculo este de pobres que se esbofeteiam com inveja e irracionalidade. O lume brando foi fervendo este caldo. Não acredito na simplicidade branco e negro das histórias, de quaisquer histórias, mas o discurso de trabalhadores a esgrimirem argumentos de banqueiros é dos piores simplismos que existe. Pensemos um pouco ou seremos, não porcos, mas lagostas cozidas vivas.
sábado, 2 de julho de 2011
scandinavian love
Os planos de irmos à Índia são ótimos, a sério, eu quero ir, juro. O mesmo vale para a América do Sul e África. Serão nossas. Ficaremos doentes e adoraremos cada minuto. Não podemos é fugir ao destino escandinavo, no more.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
