domingo, 28 de novembro de 2010


"I'll say it was all worthwhile to know, just for a day, just for an hour, just for a minute, what it means not to be a servant".

Aravind Adiga, "The White Tiger", Atlantic Books.

Uma reflexão actualíssima sobre "a exploração do Homem pelo Homem" nas economias emergentes, em forma de brilhante Literatura.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Espalhem a notícia

Fiquei espantada com a quantidade de meninas que, constatei por estes dias, têm a Ana dos Cabelos Ruivos como alter-ego infantil. Sim, estava convencida que o sinal da RTP a partir do retransmissor de Montejunto era atraído por uma força centrífuga ao vale de Alenquer, batia na torre da Igreja de São Francisco, descia num ricochete mansinho para a Capela do Espírito Santo, onde, já no raio de acção do pára-raios da fábrica da Chemina acabava de ser produzido o efeito que circunscrevia a emissão daqueles desenhos animados à minha televisão e à das minhas amigas. A Ana dos Cabelos Ruivos nem chegava ao Carregado.
Afinal não era só no centro da minha infância que ela morava e isso é maravilhoso. Já fala tão bem Sérgio Godinho acerca dos “segredos dos locais que no fundo são iguais em todos nós”.
“Then she found me”, a estreia de Helen Hunt como realizadora, é sobre estes lugares que nos unem a todos e do medo de os percorrermos. Aquele tique adolescente de se querer ser original. Não melhor, apenas não repetitivo.
Falou-se pouco deste filme porque, parece-me, pertence à categoria de coisas boas que são conhecidas mas não são muito discutidas. Que bom que isso é, de vez em quando.
Helen Hunt fez um bom primeiro filme, com a simplicidade desconcertante de quem escolhe ser simples. Espalhem a notícia.






domingo, 14 de novembro de 2010

“E ela tem consciência de algo mais, e disso não pude aperceber-me apenas com um encontro na aula. Considera a cultura importante de uma maneira reverente e antiquada. Não que se trate de uma coisa da qual deseje viver. Não deseja e não poderia – foi criada de um modo demasiado tradicional para isso -, mas é importante e maravilhoso como nenhuma outra coisa de que ela tenha conhecimento. É uma daquelas pessoas que consideram os Impressionistas arrebatadores, mas tem de olhar longa e profundamente – e sempre com um sentimento de irritante confusão – para um Picasso cubista, a tentar com todas as suas forças captar a ideia subjacente.”


Philip Roth, “O animal moribundo”, Dom Quixote.


O “animal moribundo” detém-se aqui numa observação quase terna, do início da paixão pela aluna aristocrata cubana. Penélope Cruz em estado de graça, no filme. Isabel Coixet castigou o “animal moribundo” no Cinema, enquanto Philip Roth limitara-se a administrar-lhe doses brutais de dor. O personagem semi-amoral passa pelo mesmo túnel de sofrimento mas na Literatura não há um enquadramento para o punir, a vida limita-se a acontecer e tende, afinal, a dar-lhe razão. Para conhecer o “animal moribundo” é mesmo preciso ler o livro, enquanto que para conhecer Consuelo o melhor é ler o livro e ver o filme. Várias vezes.

terça-feira, 9 de novembro de 2010


“Hay um minuto de silencio, durante el cual ambos pensamos en cosas semejantes, pero de distinta forma: él compara militares de ayer y hoy, maldice la reforma socialista, repasa algunos casos como el suyo de oficiales ‘vetados’ para el ultimo ascenso, se rebela contra esos sueldos excesivos con que se ha comprado el honor de las nuevas promociones, llora su incapacidad actual; yo pienso también en la muerte y en la enfermedad o el dolor como la más hermosa de las lecciones, inaplicable ya a mi padre y a quienes como él fueron instruidos en la salud y la victoria.”


Ignacio Martínez de Pisón, “El fin de los buenos tiempos”, Anagrama.

“La ley de la gravedad” é o único bom conto entre os três que formam “El fin de los buenos tiempos”. Pôs-me a pensar que nesta mania de ir ao fim de um escritor, de esgotar tudo, o final conduz ao início da obra. Nem sempre. Mas é consolador quando se percebe que o caminho foi de trabalhar para melhor.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

I love Stockholm

Acarinhei o nome bem antes de pensar conhecer a cidade. Era um carinho pendurado em muitas segundas intenções porque Estocolmo é uma palavra desmesuradamente sensual. Estocolmo. O início suave estica e enche-se na sílaba do meio para depois voltar a acalmar num arredondado final. Estocolmo. Isto quando se diz a cidade, porque para escrevê-la nada como a sexy grafia de Stockholm. Parece um bocadinho fútil? Talvez porque Estocolmo seja assim como uma mulher que não precisa de justificar inteligência, leituras e cultura, porque as tem, e está mais preocupada em que os seus poros absorvam aquele sol de Outubro antes que ele fuja. É bonita e não precisa de mais nada que um casaco de bom corte. Foi por causa de Estocolmo que rosnei uma única vez ao “Comer, Orar e Amar”, o best seller de Elizabeth Gilbert que terapeuticamente me caiu no colo este Verão. A amiga sueca de Liz define a cidade como “conformada” quando tem que escolher uma palavra para ela. Aquilo irritou-me, mas depois irritei-me mais comigo por ser tão pespineta e achar que sei mais que uma sueca sobre a sua capital. E agora, sei? Ah, agora sim, sei aquela imensidade de coisas que se sabem quando se passam uns dias num sítio a amá-lo sem pudor. Tanto que apetece, conformada, comprar a t-shirt “I love Stockholm”.