segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A lei da rua

Talvez não valha mais a pena ir ver os filmes do Oliver Stone só para depois poder ter uma opinião fundamentada. Afinal, como diz o odioso Gordon Ghekko de “Wall Street” 1 e 2, o bem mais precioso que existe não é o dinheiro mas o tempo. Esta conclusão deixa, aliás, uma amargura muito grande na boca. Passamos demasiado tempo a aturar coisas e pessoas que violentam a nossa paz e nosso sistema de valores. Não há solução para isto, acaba por se concluir depois de passada a raiva. A nossa paz só existe porque sobrevive ao tumulto. Prezamos os nossos valores porque lutamos por eles e isso só pode acontecer num meio necessariamente mais ou menos hostil. É fácil ser-se bom quando se está fechado em casa.
O filme é irrelevante e seria totalmente inútil não fosse o morder de lábios de Carey Mulligan naquela conversa difícil com o pai. Há ainda as rugas de Michael Douglas, que baralham um bocadinho toda a canastrice. É comovente para uma republicana, que acredita no valor e não no privilégio de nascimento, ver alguém estar à altura do clã em que nasceu. Ele é um Douglas, por mérito.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sol de Outono

As duas senhoras estavam sentadas em cadeiras enormes, daquelas que pesam horrores e ocupam muito espaço com os seus magnânimes braços em ferro. A criança, mais avançada em direcção ao mar, brincava com baldinho e pá, fechada num fato de banho completo azul escuro. Como se tudo tivesse que estar deslocado naquele postal de uma praia em Outubro.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

No gerúndio










É uma luz branca e granulada de Outono ao pé do mar. Muda quando Francisco e Tomaz deixam o Rio rumo a Buenos Aires. Volta a mudar, depois, quando o final precisa de outra cidade. Mas parece que há um luar diurno que atravessa tudo. Aluizio Abranches escreveu e realizou “Do começo ao fim” e inventou uma luz. Iluminou com ela uma história no gerúndio. Foi a justificação que encontrei para um legítimo lamento do que não vemos das vidas de Francisco e Tomaz. A questão é que, sem o vermos, sabemos muito do que existiu antes e continuou a existir depois e entre tudo o que não é mostrado. Não há nada de mais essencial do que aquilo que não pára de nos acontecer.