terça-feira, 31 de agosto de 2010

Girl Interrupted

Impossível não colocar a licença sabática de lado, afinal de contas, a partir de agora é sempre a decair. Hoje fui a editora do "E Deus Criou a Mulher". Dez senhoras, por mim escolhidas, por mim tapadas. Já posso dizer que despi a Fernanda Lima, mas as outras preferia-as compostinhas. Só reparei nisso depois. Divirtam-se, eu diverti-me muito. Obrigada, Miguel.

sábado, 28 de agosto de 2010

Na praia

Voltar a gostar de praia foi das melhores coisas que me aconteceram nos últimos anos. É lá que tenciono passar parte substancial das próximas semanas. Até breve.



terça-feira, 24 de agosto de 2010

Insónia, meu amor

O problema das insónias é gostar-se tanto delas. Muito como os cigarros, que tantas vezes as ajudam, no amor doentio de ter os olhos abertos. Até se pode fazer de tudo o que se diz que é para fazer. Desporto de dia e, antes da hora crítica, o banho quente e o leite morno. Desliga-se a televisão e coloca-se o livro no colo. Só que não chega. O livro sublinha-se, tiram-se apontamentos, num desdobramento que faz as horas correrem. Tapa-se o relógio, espera-se que a ignorância ajude. Mas não há mentiras misericordiosas. O cansaço ocupa um espaço tal que, à terceira noite, parece que o corpo decidiu sozinho. Hoje vou dormir cedo. Só que o corpo quer pagar para ver, conformado, o silêncio da madrugada. É a paz possível e também tem um tempo para terminar. Quando o primeiro autocarro chiar na curva antes da paragem, falta pouco.


Estamos no mesmo sítio. No sono e na vigília.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Olhem para mim!

“É pena, sem dúvida, que uma parte tão grande do trabalho criativo esteja tão intensamente relacionada com a personalidade daquele que o produz. É triste, embaraçoso e pouco interessante que as emoções que sacodem o artista a ponto de lhe exigirem expressão, cumulando-a de uma certa dose de luz e força, estejam quase sempre enraizadas, por muito modificadas que apareçam à superfície, nas preocupações pessoais, por vezes singulares do próprio artista (…)
Vi uma vez um grupo de rapariguinhas num passeio do Mississípi, todas embonecadas com roupas herdadas das mães e das irmãs, velhos e andrajosos vestidos de baile e chapéus de plumas e sapatos de salto alto, simulando uma conversa de senhoras num salão, num perfeito mimetismo da elegante efusividade e afectação sulistas. Mas uma delas sentia-se insatisfeita com a atenção prestada à sua arrebatada representação pelas restantes, demasiado concentradas nas suas próprias representações; por isso, ela estendeu os seus braços magros, atirou para trás o seu pescoço magro e gritou para os céus alheados e para as suas companheiras igualmente absortas, “Olhem para mim, olhem para mim, olhem para mim!”. Então, os saltos altos da mãe fizeram-na desequilibrar-se e caiu no passeio, num grande e emaranhado pranto de sujo cetim branco e tule cor-de-rosa rasgado. Mesmo assim ninguém olhou para ela. Pergunto-me se essa rapariga não será, hoje, uma escritora sulista.
(…) Talvez esta seja uma parábola de todos os artistas. E nem sempre tropeçamos e caímos num emaranhado de roupas que não nos servem. Porém, é bom estarmos conscientes desse perigo e não nos satisfazermos com a procura de atenção, sabermos que, do nosso lirismo pessoal, do nosso histrionismo de passeio, algo tem que ser criado que atraia não só observadores mas também participantes no espectáculo”

Tenesse Williams, introdução a “Um eléctrico chamado desejo e outras peças”, Relógio D’Água.

Há quem inveje os artistas por terem esta alegada permissão à birra pública. Até parece que há quem queira ser artista só para poder ter direito à birra pública. Mas isto começa com um engano, parece-me. É que nem aos artistas o devemos permitir. Não o devemos incentivar, pelo menos, sob pena de nos devolverem uma arte menor. Não há alternativa ao trabalho. E, vá, uma birrinha de seis em seis meses, mas sem amuar.

Vivien Leigh, em "Um eléctrico chamado desejo", de Elia Kazan.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

PT Home #2 (o desabafo)

Escrevi este post cedo de mais. Nos últimos dias tenho sido assaltada por materializações óbvias do mundo que vive dentro da palavra “home”. A mais estridente, aquela que estava à minha frente como um armário numa paragem de autocarro e eu não vi: “O Feiticeiro de Oz”. “There’s no place like home”, reconhece a pobre Dorothy. As outras saltam debaixo das pedras, como bichinhos irritantes. Desde logo, “Home”, os Depeche Mode. E Madonna, na única vez que decidiu ser uma bela italiana de cabelo escuro – não confundir com a fase dos homens italianos, que durou mais tempo - soube tão bem sussurrar “I hear you call my name and it feels like home”. Exacto, “Like a prayer”. Há mais, mas chega, porque o que não me perdoo mesmo é ter esquecido o “ET”. “ET, phone home”…

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Não quero saber da agregação de factos

“Conheço agora alguma da minha capacidade… Sei o que quero fazer com a minha vida, tudo isto sendo tão simples, mas tão difícil para mim sabê-lo no passado. Quero dormir com muitas pessoas – quero viver e odeio morrer – não vou ensinar, nem tirar um mestrado depois de fazer a licenciatura… Não tenciono deixar que o meu intelecto tome conta de mim, e a última coisa que quero fazer é admirar o conhecimento ou pessoas que detêm o conhecimento! Não quero saber da agregação de factos de ninguém, excepto quando for um reflexo [da] sensibilidade básica que necessito… Tenciono fazer tudo…”


Susan Sontag, “Renascer – Diários e Apontamentos 1947 -1963”, Quetzal.



Susan Sontag, por Annie Leibovitz

sábado, 7 de agosto de 2010

PT Home

Na minha primeira aula de jornalismo aprendi que as palavras devem encolher, porque podem sempre encolher. Foi na primeira aula mesmo - apesar de já no terceiro ano - dada pelo professor Nelson Traquina, em que abandonávamos a semiótica e a semiologia (de certeza que há uma diferença, mas esqueci, felizmente), depois de toda a teoria do texto, da imagem e da representação. Era uma aula em que escrevíamos uma notícia. À séria, sem floreados, ao melhor estilo de agência. Pedia-se um texto seco, factual, defendido, escorreito. Parecia uma coisa horrível. E era, porque quase todos o desprezávamos e nenhum estava em condições de o fazer. Só havia notas positivas para notícias publicáveis. Houve uma, de uma aluna que estava a fazer a cadeira como opção, uma intrusa de fora das Ciências da Comunicação. Humilhação geral. O que nos escapava era que chegaríamos ao final do semestre a saber escrever uma notícia, essa coisa que todas as teorias tinham ajudado o nosso snobismo juvenil a odiar.
Acabei por aprender a amar a linguagem simples e não apenas quando está ao serviço do jornalismo. Eu já amava, só que não sabia e o carinho que se tem pelos gostos adquiridos entranhou-se. Mas a língua inglesa já me tinha dado isso, andava era distraída. Em inglês, até aquilo que é maior é mais pequeno. A palavra “home”, por exemplo. O equivalente em português pode ser “casa” ou mais aproximadamente “lar”. Gosto mais de “casa”, mas com o sentido de “lar”, só que “lar” também tem significados feios. Ou seja, tenho que estar a explicar isto, enquanto que em inglês não me desdobro em nenhuma exposição de motivos cansativa. Não ouvimos já num filme um qualquer protagonista em desespero ou complicação dizer que aquilo que quer é simplesmente “to go home”? E entende-se perfeitamente. Pode estar num filme de série Z ou numa obra-prima, num filme foleiro de ficção científica ou no mais "indie" de Sundance. A casa como um mundo ao qual se quer regressar. Uma entidade, que é quase, mas é mais, aquilo que os arquitectos chamam de “escultura habitável” para designar o seu interior. É um resquício da poesia que julgam ter preferido ao não serem engenheiros, mas que evitaram também ao não serem escultores. Estão ali naquele meiozinho maravilhoso.
Sem qualquer meia medida, “home” diz tudo. Em 2001, Manoel de Oliveira realizou um delicioso (e curto) filme chamado “Vou para casa”. É espantoso como se perdeu tudo na tradução para o francês, absolutamente literal. “Je rentre à la maison” é uma coisa que, em poucas palavras, diz quase nada. Em português, parece um bocadinho zangado e precisa do contexto. Em inglês, vive sozinho, num sentido claro que não abdica de ser complexo. É só simples. E doce. Como ir para casa.

domingo, 1 de agosto de 2010

A liberdade veste traje de luzes

Ao meu Pai.


O hotel Antibes, em Barcelona, é um lugar simples e civilizado, barato e central. Fica a poucos minutos da Sagrada Família. Foi depois de lá ter pernoitado que soube que era usado por toureiros em início de carreira. Imaginei aquelas malas carregadas de trajes de luzes e de medo. Um luxo. Não há mediania num traje de luzes, não é? Mesmo pouco rico, um traje de luzes será sempre um luxo. O medo, outro luxo. Quantos daqueles homens foram toureiros sem história. Viveram o luxo de nunca terem saído pela porta grande. Gosto de pensar que colocaram os pés na arena para emoldurar tardes de que só eles recordam a felicidade, sob o sol da Catalunha. Houve algum outro olhar colocado na barra que reteve aquela alegria da promessa. Não estiveram sós.
O hotel Antibes não voltará a receber toureiros em início de carreira. Agora só miúdas com as amigas, como eu, vão adormecer em gargalhadas naqueles quartos. As touradas foram proibidas na Catalunha. Não consigo dissociar essa decisão da discussão do estatuto da Catalunha. Não consigo deixar de pensar que há muito de anti-Madrid nessa decisão. E de como ser anti qualquer coisa antes de se ser alguma coisa é tão perverso. E profundamente provinciano, que é coisa que Barcelona definitivamente não é.
Respeito todos os argumentos anti-touradas, embora não os aceite. Só tenho pena que não respeitem os meus em defesa da festa brava. Desde logo, a preservação do touro de lide, condenado à extinção sem touradas. Condenado a não ser mais do que um animal que institutos, organismos públicos e ONG lutam por preservar. O touro de lide merece a liberdade que tem, merece a fortuna que custa a um ganadeiro criá-lo. É que ele só se cria no luxo de um campo a perder de vista. Um luxo que só é financeiramente justificado pelo fim a que se destina. Sob pena de, noutras condições, tornar-se manso e deixar de ser um touro bravo. E ele não é outra coisa. É um touro bravo, saibamos respeitá-lo.
Para quem já conhece esta argumentação e também a sabe rebater, gostava de lembrar aquilo que é caro a todos, a liberdade. Proibir uma manifestação cultural é perigoso. Proibir uma manifestação cultural privando uma parte da população da sua liberdade é perigosíssimo. Coloca uns contra os outros e implica uma lógica de vingança. Querer fazer por decreto o que só a História com a sua marcha pode determinar é um acto de prepotência. Um dia, acordamos e uma lei proibiu-nos de fumar na cama. O Estado, para o nosso bem – é sempre para o nosso bem - entrou na nossa casa, pôs e dispôs dos nossos hábitos e vícios e nós estávamos a olhar para o lado. Olé.