Quinta-feira, 22 de Julho de 2010
Terça-feira, 20 de Julho de 2010
Não há coincidências
A minha opinião sobre o último Roman Polanski é de certo importantíssima para a minha família, amigos e os 17 seguidores deste blogue. Mas a pergunta que se impõe é: o que é Tony e Cherie Blair acharam do filme?
Sábado, 17 de Julho de 2010
Chico por e com Clarice (para acabar com a agrafia deste lugar)
Chico Buarque ou Xico Buark
"Esta grafia, Xico Buark, foi inventada por Millôr Fernandes, numa noite no Antonio’s. Gostei como quando eu brincava com as palavras em criança. Quanto ao Chico, apenas sorriu um sorriso duplo: um por achar engraçado, outro mecânico e tristonho de quem foi aniquilado pela fama. Se Xico Buark não combina com a figura pura e um pouco melancólica de Chico, combina com a qualidade que ele tem de deixar os outros o chamarem e ele vir, com a capacidade que tem de sorrir conservando muitas vezes os olhos verdes abertos e sem riso. Ele não é de modo algum um garoto, mas se existisse no reino animal um bicho pensativo e belo e sempre jovem que se chamasse Garoto, Francisco Buarque de Holanda seria da raça montanhesa dos garotos.
Marcamos encontro às quatro horas porque às cinco Chico tinha uma lição de música com Vilma Graça. Há um ano que está estudando teoria musical e agora começará com o piano. Estávamos os dois em minha casa e a conversa transcorreu sem desentendimentos, com uma paz de quem enfim volta da rua.
(…)
- Tenho a impressão de que você nasceu com a estrela na testa: tudo lhe correu fácil e natural como um riacho de roça. Estou certa se pensei que para você não é muito laborioso criar?
É e não é. Porque às vezes estou procurando criar alguma coisa e durmo pensando nisso, acordo pensando nisso – e nada. Em geral eu canso e desisto. No outro dia a coisa estoura e qualquer pessoa pensaria que era gratuita, nascida naquele momento. Mas essa explosão vem do trabalho anterior inconsciente e aparentemente negativo E como é o seu trabalho?
- Vem às vezes em nebulosa sem que eu possa concretizá-lo de algum modo. (…)
O sucesso faz parte dessas coisas exteriores que não contribuem nada para mim, A gente tem a vaidade da gente, a gente se alegra, mas isso não é importante. Importante é aquele sofrimento com que a gente procura buscar e achar. Hoje, por exemplo, acordei com um sentimento de vazio danado porque ontem terminei um trabalho.
- Eu também me sinto perdida depois que acabo um trabalho mais sério.
Tenho uma inveja: o meu trabalho de música está exposto a um consumo rápido e eu praticamente não tenho o direito de ficar pensando numa ideia muito tempo.
- Talvez você ainda mude. Como é que Villa-Lobos criava? Seria interessante para você saber.
Sei alguma coisa. Por exemplo, uma frase dele que Tom Jobim me contou: diz que Villa-Lobos estava um dia trabalhando na casa dele e havia uma balbúrdia danada em volta. Então o Tom perguntou: como é, maestro, isso não atrapalha? Ele respondeu: o ouvido de fora não tem nada a ver com o ouvido de dentro. (…)
- Todas as mães com filhas em idade de casar consentiriam que casassem com você. De onde vem esse ar de bom rapaz? Acho, pessoalmente, que vem da bondade misturada com bom humor, melancolia e honestidade. Você também tem o ar de quem é facilmente enganado: é verdade que você é crédulo ou está de olhos abertos para os charlatães?
Não é que eu seja crédulo, sou é muito preguiçoso.
(…)
- Qual é a coisa mais importante do mundo?
Trabalho e amor.
- Qual é a coisa mais importante para você, como indivíduo?
A liberdade para trabalhar e amar.
- O que é o amor?
Não sei definir, e você?
- Nem eu"
“Clarice Lispector, Entrevistas”, Editora Rocco
"Esta grafia, Xico Buark, foi inventada por Millôr Fernandes, numa noite no Antonio’s. Gostei como quando eu brincava com as palavras em criança. Quanto ao Chico, apenas sorriu um sorriso duplo: um por achar engraçado, outro mecânico e tristonho de quem foi aniquilado pela fama. Se Xico Buark não combina com a figura pura e um pouco melancólica de Chico, combina com a qualidade que ele tem de deixar os outros o chamarem e ele vir, com a capacidade que tem de sorrir conservando muitas vezes os olhos verdes abertos e sem riso. Ele não é de modo algum um garoto, mas se existisse no reino animal um bicho pensativo e belo e sempre jovem que se chamasse Garoto, Francisco Buarque de Holanda seria da raça montanhesa dos garotos.
Marcamos encontro às quatro horas porque às cinco Chico tinha uma lição de música com Vilma Graça. Há um ano que está estudando teoria musical e agora começará com o piano. Estávamos os dois em minha casa e a conversa transcorreu sem desentendimentos, com uma paz de quem enfim volta da rua.
(…)
- Tenho a impressão de que você nasceu com a estrela na testa: tudo lhe correu fácil e natural como um riacho de roça. Estou certa se pensei que para você não é muito laborioso criar?
É e não é. Porque às vezes estou procurando criar alguma coisa e durmo pensando nisso, acordo pensando nisso – e nada. Em geral eu canso e desisto. No outro dia a coisa estoura e qualquer pessoa pensaria que era gratuita, nascida naquele momento. Mas essa explosão vem do trabalho anterior inconsciente e aparentemente negativo E como é o seu trabalho?
- Vem às vezes em nebulosa sem que eu possa concretizá-lo de algum modo. (…)
O sucesso faz parte dessas coisas exteriores que não contribuem nada para mim, A gente tem a vaidade da gente, a gente se alegra, mas isso não é importante. Importante é aquele sofrimento com que a gente procura buscar e achar. Hoje, por exemplo, acordei com um sentimento de vazio danado porque ontem terminei um trabalho.
- Eu também me sinto perdida depois que acabo um trabalho mais sério.
Tenho uma inveja: o meu trabalho de música está exposto a um consumo rápido e eu praticamente não tenho o direito de ficar pensando numa ideia muito tempo.
- Talvez você ainda mude. Como é que Villa-Lobos criava? Seria interessante para você saber.
Sei alguma coisa. Por exemplo, uma frase dele que Tom Jobim me contou: diz que Villa-Lobos estava um dia trabalhando na casa dele e havia uma balbúrdia danada em volta. Então o Tom perguntou: como é, maestro, isso não atrapalha? Ele respondeu: o ouvido de fora não tem nada a ver com o ouvido de dentro. (…)
- Todas as mães com filhas em idade de casar consentiriam que casassem com você. De onde vem esse ar de bom rapaz? Acho, pessoalmente, que vem da bondade misturada com bom humor, melancolia e honestidade. Você também tem o ar de quem é facilmente enganado: é verdade que você é crédulo ou está de olhos abertos para os charlatães?
Não é que eu seja crédulo, sou é muito preguiçoso.
(…)
- Qual é a coisa mais importante do mundo?
Trabalho e amor.
- Qual é a coisa mais importante para você, como indivíduo?
A liberdade para trabalhar e amar.
- O que é o amor?
Não sei definir, e você?
- Nem eu"
“Clarice Lispector, Entrevistas”, Editora Rocco
Segunda-feira, 5 de Julho de 2010
Abrir a blusa, mostrar a cara, fechar o abraço
Em dois concertos, Brasil I, Brasil II. No público contido da Roberta Sá, sobretudo portugueses, em abstinência de um bom samba, como se viu no final. Estávamos loucos para sambar mal um bom samba. O Zambujo foi muito bonito, mas agradou sobretudo aos brasileiros presentes. Gostaram aqueles que ouvi no final do concerto, com as suas pronúncias cariocas e paulistanas, as suas roupas correctas, os seus “papos-cabeça”, as suas histórias de memórias de outros concertos, que ouvi enquanto esperava. Uma mulher lembrava a Cássia Eller a abrir a blusa enquanto cantava “Brasil, mostra a tua cara”. Uma recordação de meter inveja. Dois dias depois, uma Ana Carolina tapadíssima entrava em palco para ser amada, como sabia que seria. Pessoas que não têm vergonha de gritar “Ana, eu te amo” e “Ana Carolina, cadê você, eu vim aqui só pra te ver” merecem o meu respeito. Coisa brega, música de novela, pois é, talvez, mas não faz mal. Assumo tudo e faço a síntese. Apesar de uma fraternidade geral provocada pela humilhação da Argentina, dei comigo a pensar que num país onde um quase desconhecido é cumprimentado com um abraço há tanta gente que não se toca. Às vezes, parece mesmo que a luta de classes é o motor da história.
Quinta-feira, 1 de Julho de 2010
Um e os outros
O comboio estava cheio. De pé, uma nuvem de cabelos pseudo-compridos, todos a pender para o mesmo lado. O olho esquerdo daqueles rapazes estava quase fechado naquele esforço de disciplinar o cabelo. Ainda ficam com problemas de visão. Ou desequilibram o comboio, pensei. Uma geração de rapazes tortos e vesgos pela força do cabelo para um só lado. Riam-se muito, naquele contentamento de estarem todos juntos e serem todos parecidos. A algazarra era sofrível, mas ainda a querer dizer que provavelmente odiavam os pais. Aquele ódio metódico dos adolescentes aos progenitores. Ridículo, tantas vezes. Em Algés, o comboio despovoou-se ligeiramente. O suficiente para ver o rapaz sem cabelo. O rosto baço, a forma da cabeça perfeitamente definida. Olhos totalmente descobertos. Uma presença quase nua. Ao lado, a mãe. Ele ouvia música e ia-lhe passando os auscultadores à medida que, imagino, mudava de tema. Ela opinava, sempre a sorrir. Ele sorria também. Ao som do que deve ter sido uma música mais agitada ou apenas engraçada, a mãe deitou a cabeça para trás numa gargalhada.
O rapaz sem cabelo e a mãe divertiam-se como se não houvesse mais ninguém. Cais do Sodré, estação terminal. Ao sair, deram as mãos por um momento. Esqueci-me dos rapazes dos cabelos uni-penteados. Já não estavam. Devem ter saído em Santos.
O rapaz sem cabelo e a mãe divertiam-se como se não houvesse mais ninguém. Cais do Sodré, estação terminal. Ao sair, deram as mãos por um momento. Esqueci-me dos rapazes dos cabelos uni-penteados. Já não estavam. Devem ter saído em Santos.
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