Quinta-feira, 25 de Março de 2010

Sí, me mata

Às vezes, muito poucas, os jornais escrevem cartas de amor. As mais bonitas são dirigidas a cidades. O El País escreveu uma para os 100 anos da Gran Via. O multimédia conseguiu emocionar-me. Não sei se é bom, mas gosto demasiado de Madrid para me preocupar com isso. Ali está ela, concentrada numa única avenida, a cidade que dispensa género porque concentra em si todo os sexos do mundo, masculina na Gran Via e uma gaja romântica e tonta no Retiro.

Sexta-feira, 19 de Março de 2010

O baixo

Há uma coisa que indiscutivelmente os homens me ensinaram e só eles. A generalização, esse exercício horroroso e absolutamente necessário para se conseguir pensar, aplica-se neste caso particular como, creio, em nenhum outro. Foram os homens que me ensinaram a ouvir o baixo numa música. Fechar os olhos, isolar o baixista da banda, depois o baixo da música, e bebê-la sabendo que sem aquela pancada abafada não seria nada. Ou seria pouco. O baixo é uma espécie de coração que nos diz onde pulsa a música dentro da música.
A minha gratidão não tem limites.

Quinta-feira, 18 de Março de 2010

Terça-feira, 16 de Março de 2010

As coisas que aparecem no meio dos livros

Um bilhete de comboio Madrid-Segovia. É recente, tem um ano, mas gostei muito de o encontrar. O que resta de uma ponte área Lisboa-Porto, que nunca fiz. Nunca apanhei um avião para o Porto. Quem o apanhou? Não sei e talvez seja melhor assim. Às vezes no meio dos livros encontro fotografias esquisitas. As coisas que aparecem no meio dos livros são vestígios do que fomos, que é quase sempre onde estivemos e quem nos acompanhou. As coisas que aparecem no meio dos livros deixam-me parada em frente à estante a rir sozinha, ou sentada no chão do escritório, a pensar. E a rir sozinha. É incrível a quantidade de coisas que se esquecem no meio deles porque é grande a quantidade de coisas que nos vamos esquecendo do que nos acontece. Às vezes não interessa nada - há muitos bilhetes de metro - mas são poucas as vezes em que interessa pouco.

Segunda-feira, 8 de Março de 2010

Vermelho desmaiado

A passadeira vermelha esteve ligeiramente debotada. O que explicará que Jennifer Lopez tenha sido uma das mais elegantes senhoras a pisar a alcatifa. No topo da cadeia alimentar esteve, claro, Sarah Jessica Parker, de Chanel. Um vestido complexo, que não é para qualquer uma, a que associou um cabelo apanhado muito estruturado, o que também não é para todas. Meryl Streep esteve linda de branco e Queen Latifah revelou uma enorme inteligência têxtil. Robert Downey Jr usou o humor, essa forma superior de elegância. A Charlize Theron só podia estar a brincar (mas palpita-me que achou mesmo que aquelas duas rosas mamárias iam resultar) e Kate Winslet foi, como sempre, tão bela quanto aborrecida.

Quinta-feira, 4 de Março de 2010

Palavras Cruzadas*

Pois é, não tenho escrito nada, nadinha. Não é que não tenha nada para dizer, infelizmente devia guardar mais silêncios. O silêncio é, de facto, uma manifestação de sabedoria. Embora seja sobretudo usado pelos sonsos, como uma tática. Serão estes falsos silêncios? Talvez. Também não é por falta de palavras. Aliás, os dias e as noites estão cheios de palavras novas. Em castelhano, algumas, mas sobretudo em português. Algumas são conhecidas, mas com outro sentido. São tantas e tão bonitas que não paro de as admirar. Isso ocupa-me e faz-me feliz. Parece-me que pelo menos a alegria – a felicidade já não arrisco – é diretamente proporcional ao número de palavras que entram na vida.

* Este título é mesmo piroso porque é assim uma espécie de homenagem aquela telenovela portuguesa. “Palavras cruzadas, destinos cruzados, lá lá lá”, lembram-se? Tenho saudades desse mundo simples, em que a Florbela Queiroz interpretava o estereótipo da amante loura e esganiçada e a Rosa Lobato Faria era a esposa enganada e inocente. Que bonito que era. Melhor só a “Passerelle”.