quinta-feira, 27 de abril de 2017




“Os filhos Belsey dirigiram-se a um café próximo. Sentaram-se em bancos alinhados contra a montra de vidro, olhando para a charneca devastada de Boston Common. Puseram em dia as novidades mútuas de um modo descontraído, deixando longos espaços aconchegados de silêncio durante os quais se ocupavam dos bolinhos e cafés. Jerome – depois de ter tido de ser espiritual e brilhante numa cidade estranha entre estranhos – estava a apreciar aquela dádiva. As pessoas falam da tranquilidade feliz que pode existir entre dois amantes, mas isto era demasiado grande; sentado entre a irmã e o irmão, sem dizer nada, a comer. Antes de o mundo existir, antes de ser povoado, e antes de haver guerras e empregos e colegas e filmes roupas e opiniões e viagens ao estrangeiro – antes de todas essas coisas, tinha havido apenas uma pessoa, Zora, e apenas um lugar: uma tenda na sala feita de cadeiras e de lençóis. Ao fim de alguns anos, Levi chegou; abriu-se espaço para ele; era como se ele sempre tivesse existido. Ao olhar agora para os dois, Jerome viu-se nas articulações dos dedos deles e nas suas perfeitas orelhas em concha, nas longas pernas e nos indomáveis caracóis. Ouvia-se a si mesmo no ceceio parcial causado por línguas gordas em vibração contra dentes visivelmente pouco salientes. Não estava a procura se e como ou porque os amava. Eles eram apenas amor: eram a primeira prova que alguma vez tinha tido de amor, e seriam a última confirmação de amor quando tudo mais se desfizesse".

Zadie Smith, “Uma questão de beleza”, Dom Quixote

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