"Pequenas mentiras entre amigos", de Guillaume Canet.
Domingo, 30 de Outubro de 2011
Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011
A lei da reciprocidade tinha que situar “Lip Service” em Glasgow, pois era. Como tinha de descer a um nível de normalidade, porque já há pouca tolerância para soluções narrativas de não-temos-dinheiro-vamos-vender-um-quadro. As pessoas normais não têm quadros valiosos em casa. Sim, há uma fotógrafa e, sim, há uma polícia que ocupa um lugar de chefia, e, sim, sim, sim, são todas bonitas, anichadas no seu estereótipo adorável. O lugar-comum é um direito adquirido que não vão roubar-nos. Nós merecemos. E para coisas surpreendentes há sempre a realidade, como revela a biografia de uma das atrizes. Laura Fraser was born on 24th July 1976 and brought up in Glasgow. Her father, Alister, used to run a small building company but is now an aspiring scriptwriter; her mother, Rose, used to be a nurse but is now a college lecturer. Não é bonito?
Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011
Domingo, 16 de Outubro de 2011
sonhos sonhos são
A professora interveio. “Digam só os sonhos, não pensem no quando”. O exercício para o presente do subjuntivo em espanhol ficava assim totalmente prejudicado, mas a aula correu melhor. Os alunos – quase todos trabalhadores com mais de 30 anos, cerca de metade ligados à administração pública – começaram a dizer coisas como “Gostava de viajar pela América do Sul" e "Ir à Sardenha".
Está a cair um véu de tristeza sobre as pessoas.
Dá-me para pensar em coisas totalmente absurdas. Se a aula fosse hoje diria: o meu sonho é ver um concerto de Chico Buarque em Estocolmo.
Está a cair um véu de tristeza sobre as pessoas.
Dá-me para pensar em coisas totalmente absurdas. Se a aula fosse hoje diria: o meu sonho é ver um concerto de Chico Buarque em Estocolmo.
Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011
Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011
absolute beginners
Quando pensava que Christopher Plummer já me tinha dado felicidade suficiente para uma vida.
Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011
Domingo, 2 de Outubro de 2011
"nem toda loucura é genial, como nem toda lucidez é velha"
A primeira vez que li ou ouvi falar da "passeata cívica contra a guitarra elétrica" (ou seja, uma manifestação contra o uso da guitarra elétrica na música brasileira), que é referida no texto de Chico Buarque no post abaixo, achei que estava perante uma metáfora ou uma hipérbole. Mas não, não era uma figura de estilo. A dita manifestação existiu, realizou-se em 1967, em São Paulo, destinada a salvar a pureza da música de raiz brasileira contra os ritmos estrangeiros. Chico e outros, como Caetano Veloso e Nara Leão, recusaram participar dela. "Tenho medo dessas coisas", disse Nara Leão. Participaram na manifestação Elis Regina, Edu Lobo, Gilberto Gil, Jair Rodrigues.
Se destaco isto é apenas porque o texto de Chico Buarque publicado em 1968 na "Última Hora", que reproduzi na íntegra em baixo, me fez pensar num horror de coisas e música não foi uma delas.
Se destaco isto é apenas porque o texto de Chico Buarque publicado em 1968 na "Última Hora", que reproduzi na íntegra em baixo, me fez pensar num horror de coisas e música não foi uma delas.
Sábado, 1 de Outubro de 2011
Marieta Severo, Sílvia Severo Buarque, Chico Buarque
"Estava mal chegando a São Paulo, quando um repórter me provocou: 'Mas como, Chico, mais um samba? Você não acha que isso já está superado?' Não tive tempo de me defender ou de atacar os outros, coisa que anda muito em voga. Já era hora de enfrentar o dragão, como diz o Tom. Enfrentar as luzes, os cartazes, e a platéia, onde distingui um caro colega regendo um coro pra frente, de franca oposição. Fiquei um pouco desconcertado pela atitude do meu amigo, um homem sabidamente isento de preconceitos. Foi-se o tempo em que ele me censurava amargamente, numa roda revolucionária, pelo meu desinteresse em participar de uma passeata cívica contra a guitarra elétrica. Nunca tive nada contra esse instrumento, como nada tenho contra o tamborim. O importante é ter Mutantes e Martinho da Vila no mesmo palco.
Mas, como eu ia dizendo, estava voltando da Europa e de sua música estereotipada, onde samba, toada etc. são ritmos virgens para seus melhores músicos, indecifráveis para seus cérebros eletrônicos. 'Só tenho uma opção, confessou-me um italiano - sangue novo ou a antimúsica. Veja, os Beatles, foram à Índia...' Donde se conclui como precipitada a opinião, entre nós, de que estaria morto o nosso ritmo, o lirismo e a malícia, a malemolência. É certo que se deve romper com as estruturas. Mas a música brasileira, ao contrário de outras artes, já traz dentro de si os elementos de renovação. Não se trata de defender a tradição, família ou propriedade de ninguém. Mas foi com o samba que João Gilberto rompeu as estruturas da nossa canção. E se o rompimento não foi universal, culpa é do brasileiro, que não tem vocação pra exportar coisa alguma. Quanto a festival, acho justo que estejam todos ansiosos por um primeiro prêmio. Mas não é bom usar de qualquer recurso, nem se deve correr com estrondo atrás do sucesso, senão ele se assusta e foge logo. E não precisa dar muito tempo para se perceber 'que nem toda loucura é genial, como nem toda lucidez é velha'".
Chico Buarque, "Última Hora", 09/12/68.
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