Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

Deixa-me dar-te o Verão *

“Há um ano que combato pelo que julgo certo. Se vencermos aqui, vencemos por toda a parte. O mundo é belo e merece que se lute por ele, e dói-me deixá-lo.
(…)

Não há uma coisa que seja verdadeira. Tudo é verdadeiro. Da mesma forma que os aviões são belos, sejam os nossos ou os deles. E são o Inferno.
(…)

Sentia-se perfeitamente consciente e absorveu com os olhos tudo quanto tinha diante de si. Ergue-os para o céu. Boiavam no alto grossas nuvens brancas. Com a mão apalpou as agulhas de pinheiro que atapetavam o chão e depois a casca do pinheiro atrás da qual se deitara. Depois arrumou-se o melhor que pôde, os cotovelos fincados na caruma, e encostou o cano da metralhadora ao tronco da árvore".

“Por quem os sinos dobram”, Ernest Hemingway, Livros do Brasil.


Segóvia, Espanha, Fevereiro de 2009

Encontrámo-nos desfasados no tempo. Mas refeitos por ele. Agora que li o teu livro, Pai, é muito difícil não escrever uma coisa destas. Que disponha de mim e eu fique tão à mostra, e que isso não seja uma coisa má. Talvez para quem leia, mas realmente não quero saber. Tu não tiravas os olhos do livro e agora entendo tão bem. Agora sei-o por dentro. Nas paredes internas desta história sente-se a humidade leve daquelas noites na praia. Tu a ler “Por quem os sinos dobram”, eu a ler outra coisa qualquer. Nós a ler ao desafio. As pessoas fazem coisas estranhas em família. E a nossa é aquele Verão, como a ponte do livro era toda a República. Ganhar a Guerra naquele combate, naquela ponte. Ganhei-te, assim, com não sei quantos Verões de distância.
Agora podia dizer-te como Segóvia é bonita. Pensar em ganhar Segóvia devia ter sido qualquer coisa, sim. Se há espaço numa guerra para cidades às quais se quer bem. Por acaso até há, basta ver a saudade com que Robert Jordan, aquele Hemingway tão mal disfarçado, fala de Madrid.
Ponho-me a pensar naquilo que no livro te pode ter desconfortado e se o terias dito só a mim. Gostava de o ter discutido contigo. Mas o que é que eu estou para aqui a dizer? Discuti-o contigo agora.
A República era aquela ponte. E foi preciso um americano para o contar tão bem. Tinha que ser. “Isso? Isso eu já vi há trinta anos na América”. Eu e a Mãe a rir, a adivinhar a resposta sempre igual a tudo o que fosse uma novidade. Na América. Esse amor e ódio. Mas era amor por viajar, conhecer e falar de uma coisa que se pode abertamente criticar.
Na altura, já sabia que não devia perguntar por quem os sinos dobram. Dobram por ti. Dizê-lo a sorrir, foi para isso que esperei não sei quantos Verões.


*"Deixa-me dar-te o Verão ", poema de José Tolentino Mendonça em "De Igual para Igual", Assírio e Alvim.

Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

Estranha civilização

Passando a achar que se tem direito ao Verão, custa vê-lo partir. Ainda que o desfile rumo ao Outono seja a única despedida bonita que existe. As horas a diminuírem, mas ainda a tempo de resgatar um fim de tarde de casaco. E há o regresso dos lenços e do chá com leite. Gostar do aconchego.


Chico Buarque compôs, de certo, “Futuros Amantes” entre o Verão e o Outono. Aquela sabedoria só se pode ter entre estações. E entre aquelas duas estações. Antes do Verão anda-se feliz sem sossego porque a Primavera nunca deu juízo a ninguém. O Inverno não se deseja realmente já que o Outono traz o bom do frio sem as partes chatas. Portanto, este é o tempo.





 
Lindsay Lohan para a "Vanity Fair" norte-americana.