Sexta-feira, 18 de Março de 2011

vamos a pé

“Como falar com o pai”. Assim, simples e direto em cima do balcão dos correios. Além do título, chamou-me a atenção o aspeto de livro infantil. Só que os livros mesmo importantes são os que não servem para nada. Aquele como queria ser útil, era completamente dispensável. A não ser pelo título, que devia ser a negação do conteúdo, mas não era, queria mesmo dar conselhos. Havia uns desenhos fofinhos e umas generalidades minúsculas que até servem a alguns homens, a alguns pais. Ao meu, claro, não. As pessoas mais importantes da minha vida deram-me silêncios, que é uma coisa de que estou sempre deficitária, é normal que não fosse muito competente a falar com elas. As recordações de alguns silêncios fazem de nuvens de bem-estar e às vezes voltam a estar por cima da minha cabeça. Tão bom. O meu avó a ouvir música clássica e eu a estudar política externa norte-americana. Horas e horas de tardes em dezembro, naquela altura em que as pessoas andam loucas. Tão bom.
“Como falar com o pai” podia ser o subtítulo de “Somewhere”, de Sofia Coppola, num desses títulos compostos mais ou menos foleiros que agora querem resgatar o que se perde na tradução. Só que “O amor é um lugar estranho” não é proeza que se repita assim. Falo da tradução.
Os pequenos tédios do amor filmam-se como? E as apoteoses do quotidiano? Como Sofia Coppola. Usando o tempo. O Cinema é sobretudo tempo, lamento, Manuel de Oliveira haters. E com uma banda sonora feita para dar as costas a um carro ridículo e seguir a pé, à procura daquilo que é chato e difícil e nunca acaba.

Terça-feira, 15 de Março de 2011

Fotografia de Tina Crespo, ou de como a internet é um sítio maravilhoso, é preciso é saber para onde olhar


A minha geração está entre os traseiros despidos que levaram uma ministra de Cavaco Silva a generalizar a falta de educação a uma geração inteira e uns miúdos que tiveram uma ideia e a colocaram no facebook usando o nome dado à outra geração. Amigos quinhentoseuristas, eternos contratados, com e sem recibos verdes, um primo engenheiro que acabou de emigrar. Amigos nos quadros de empresas, que vivem com conforto mas ainda não conseguem pensar em ter filhos, outros que já os têm, com e sem sacrifícios. Não tenho muita preocupação em saber onde está a minha geração. Gosto dela mesmo assim, sem saber que nome lhe dar. Como gosto da geração dos meus pais. No dia 12 de Março vi muitas pessoas de várias gerações a descer a Avenida da Liberdade que sabiam bem porque ali estavam. As palavras de ordem inventadas, o percurso que não se sabia onde começava ou terminava, a inorgânica maravilhosa de ver para quem já viu algumas manifs não conseguiram tapar que, na generalidade, aquelas pessoas sabiam o que estavam ali a fazer. E sabiam-no "sozinhas", não porque tinham sido guiadas por um partido ou sindicato. Mas também não estavam contra os partidos ou os sindicatos. Aliás, o protesto não foi convocado contra eles. O folclore, as causas dispersas, não chegaram para borrar o tom geral. Esclarecido e pacífico. E divertido.