“No estamos acostumbrados a que
triunfe el activismo del sentir. Pero ocurre. El único património de Sherazade
es la palabra poética, la boca que da a luz un lenguaje que no pretende
dominar. Y esse activismo del sentir consigue un primer efecto revolucionário: desequilibra
al poder”. A expressão “ativismo do sentir” funciona muito bem em português
talvez porque tenha sido inventada por um galego. Não sei se o escritor Manuel
Rivas tem a patente, mas usou-a num artigo na revista do El País que li para “me
entreter” – curiosa expressão – enquanto tomava café num parque de campismo na
Galiza, em julho. A crónica de Rivas era um elogio às mulheres no atual
panorama cultural espanhol. Faz, por isso, todo o sentido que tenha voltado a
encontrar-me com a mesma ideia na introdução da última Lenny Letter, escrita
por Lena Dunham, a mulher que voltou a por o feminismo na agenda nos Estados
Unidos. A autora da série “Girls” teve uma infância privilegiada e a mãe
permitia-lhe faltar à escola para que ela pudesse repor os níveis de sanidade
mental, o que era feito a ler, comer bolos, comprar t-shirts absurdas com o
dinheiro do seu porquinho-mealheiro e outras coisas reais ou fictícias. “My mother had given me permission
to relax every fiber of my being and, in doing so, reclaim my fight”. Sim,
fight, luta. Ir à escola todos os dias é uma luta. Viver todos os dias cansa, já
dizia o mais inspirado título de todos os livros lamechas de Pedro Paixão. Lena dá o salto citando a feminista Audre
Lorde: “Caring for myself is not self-indulgence, it is self-preservation, and
that is an act of political warfare.” E é mesmo. E é bem verdade que
para as mulheres é mais difícil permitirem-se descansar, ou porque
materialmente não podem ou porque a fábrica de culpa gerada para as submeter
requer os seus serviços. Lena dá novamente um salto, para ir encontrar-se com o
Rivas e o seu “ativismo do sentir”: “Every single one of you is engaged in your
own act of political warfare. Whether
it’s drawing, baking, doing a fucking awesome job at something that’s
traditionally male, OR being tough as nails at a job that’s traditionally
female, you are reconceiving what activism looks like”. Talvez o laço não
se aperte na Galiza. Foi Clarice Lispector que escreveu: “Pensar é um ato, sentir
é um facto”.
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
terça-feira, 23 de agosto de 2016
"I would love to become a child on the beach once again. It may sound infantile, but that's the feeling I long for: to be a child without care, taking in the immensity of the ocean an still feeling safe". A explicação do ilustrador da capa de agosto da New Yorker Jacques Sempé não pode ser outra coisa se não uma desilusão. Percebo-o. Aquela perda é muito dolorosa, mas o que o ilustrador concebeu para a homenagear suplanta-a com profundidade. Olho para esta capa e vejo uma república de infância, uma organização bela, o mundo tomado pelas crianças, mas numa história bem contada.
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
O Brasil não é para principiantes
Que o Brasil não é para principiantes já sabíamos. Juntar esse facto poético a um momento difícil da vida do país politica e economicamente levantou uma qualquer bandeirola para espíritos ávidos de crítica a tudo o que não entendem e que, normalmente, está longe dos seus parâmetros pseudoprimeiromundistas e dos óculos com aros de preconceito que colocam para ver um país que não é suposto fazer uma coisa reservada a um clube de países que supostamente. O Roger Cohen foi correspondente no Brasil nos anos 1980 e diz tudo muito melhor do que eu.
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
OST
Há poucas bandas sonoras para trabalhar a escrever tão eficazes como Yan Tiersen para o filme "Good bye, Lenin!" e Ludovico Einaudi, sobretudo "Una Mattina". Sim, vim toda energizada do Brasil. O Rio estava lindo, São Paulo pareceu-me uma Nova Iorque lusófona e o Recife é um lugar cheio de charme. E assim de rajada vi dois reais gabinetes de leitura e comovi-me. Deixámos paredes com livros, deixámos bibliotecas e ainda por cima são bonitas. Trouxe o último Ruy Castro e uma biografia dita íntima da imperatriz Leopoldina. Over and out. Fui.
terça-feira, 2 de agosto de 2016
domingo, 31 de julho de 2016
nightswimming
As férias foram incríveis. Como tudo o que é incrível, não sei se vai dar para escrever. Isso e estar inundada de trabalho, sempre a fintar a vontade de me entregar a coisas sérias como ir à praia, ler o último Pisón, finalmente meu, em edição de bolso numa livraria das Edições Paulinas em Santiago de Compostela. E se é verdade que continuo preocupada com prazos e, em geral, com a possibilidade de estar a escrever uma coisa medíocre, o que me faz perder ainda mais tempo de olhar tristonho a ver trash tv e a comer salsinhas de soja (continuo sem fumar aka a engordar), continuo a sorrir. Tudo isto equivale mais ou menos a dizer que me ocorrem à mente coisas ótimas. Partilho uma: "Automatic for the People", dos REM, é dos melhores álbuns que já existiram e que sorte eu tenho de o ter ouvido repetidamente quando saiu, em 1992.
terça-feira, 28 de junho de 2016
flores bordadas em ganga, para quando o regresso?
Lembrar-me que já se usaram calças de ganga de cintura subida, pela canela e com flores bordadas (e que metade desta tendência está de volta), faz-me pôr tudo em perspetiva, o que inclui o Brexit. Sendo assim, e estando em burnout público e notório, tenho a felicidade de poder ir de férias. A última oração existe totalmente desprovida de ironia mas como está mal acompanhada achei por bem explicitar.
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