terça-feira, 28 de junho de 2016
flores bordadas em ganga, para quando o regresso?
Lembrar-me que já se usaram calças de ganga de cintura subida, pela canela e com flores bordadas (e que metade desta tendência está de volta), faz-me pôr tudo em perspetiva, o que inclui o Brexit. Sendo assim, e estando em burnout público e notório, tenho a felicidade de poder ir de férias. A última oração existe totalmente desprovida de ironia mas como está mal acompanhada achei por bem explicitar.
sexta-feira, 17 de junho de 2016
"Uma nova amiga", de François Ozon
Há tantas camadas, disseram-me depois do filme. Bem-aventurados os que estão em contacto com elas, disse eu.
quinta-feira, 16 de junho de 2016
perspetiva
"So beyond the horror we feel at the moment, I feel the true answer lies in a new sense of affinity with all other persecuted LGBTQ people and their allies across the globe. The fight for justice has only just begun, and the Orlando massacre is a staunch reminder of how brutal that battle will inevitably be. But as Oscar Wilde said, 'The mystery of love is greater than the mystery of death,' and we certainly have love on our side."
Rufus Wainwrigth à Rolling Stone.
quarta-feira, 15 de junho de 2016
todos os nomes
As palavras são mesmo muito
importantes. Até aquelas que foram escritas e proferidas de forma retardada
para conterem tudo o que interessa são muito importantes. Mesmo com ligeiro atraso, é importante chegar-se ao lado certo da História com as palavras que lhe dão acesso. Não são todos como
o presidente Obama que disse tudo o que havia a dizer logo no dia em que foram
mortas mais de 50 pessoas numa discoteca gay em Orlando.
As palavras são mesmo muito
importantes. Adorava não ter acordado, mais uma vez, a meio da noite com as
palavras ‘mass shooting’ na cabeça. Assim mesmo, em inglês. E não me digam para
não rezar por Orlando, porque isso é meterem-se com a minha liberdade religiosa.
Rezar pela comunidade LGBT de todo o mundo e pelas vítimas de Orlando é só uma
das coisas que faço, felizmente para mim, que posso.
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Sancho Pança
“Deitei fogo ao velho espantalho
a que os fracos chamam ‘convenção’ e a que os fortes chamam ‘limite’! E à chama
desse estranho incêndio, ergui então bem alto esses novos motivos de beleza,
desvendados ao meu espírito de ansiedade em hinos de Graça, de Amor e de
Vitória! (…) Assusta-se o senso-comum – esse Sancho-Pança da moral que o
burguês inventou para guarda vigilante dos seus ‘sãos princípios’”
Judith Teixeira, “De Mim,
conferência em que se explicam as minhas razões sobre a vida, sobre a estética,
sobre a moral”, 1926
Entre as coisas boas que me aconteceram nos últimos dois anos: ler a Judith Teixeira e voltar a ler o António Botto (uma primeira leitura para todos os efeitos). E não abalou a minha amizade antiga e bela com o meu Sancho Pança pessoal. Estamos firmes.
terça-feira, 7 de junho de 2016
da máquina da ignorância
As redes destroem os heróis que
criam à velocidade da luz em que sempre se movem. E eles, porque não são heróis,
são pessoas comuns, não percebem. A história do casal-gay-que-faz-ativismo-pelos-direitos-LGBT-na-internet-e-não-sabia-que-Pedro-Passos-Coelho-já-não-é-primeiro-ministro é tão paradigmática, a tantos níveis, de tanta coisa, que
podemos apenas resumir tudo com um “que horror”. E é um horror. Mas, e citando
as senhoras na fila do supermercado sobre vários assuntos, “a culpa não é só
deles”. Para início de conversa, talvez seja bom reler o último artigo Pacheco Pereira no
Público. Começa assim:
"Um dos efeitos perversos da cultura da Internet é a desvalorização do saber, do conhecimento, do estudo. Há muita gente que fica irritada quando se lhes toca no deslumbramento tecnológico e também, por arrasto, no direito de dizer alto, que é o que significa “publicar” na Internet, todas as asneiras possíveis visto que “todos têm direito à sua opinião”. Acham que criticar isto é “presunçoso”? Então acabou a ignorância? Lá porque cada um pode colocar o que quer na Internet isso dá-lhe um atestado de sabedoria? Não, é uma doença dos tempos modernos e está-se agravar principalmente nos mais jovens que obtêm na rede quase toda a informação e não tem literacias para a mediar. A “democracia” das “redes sociais” é uma forma de populismo moderno.
Eu costumava chumbar os alunos de filosofia que, para esconder infantilmente a sua ignorância, diziam que também tinham uma “opinião pessoal” sobre Kant. Ai tem? Mas que sorte, é que eu não tenho e a esmagadora maioria das pessoas letradas do mundo também não tem, incluindo 99% dos professores de filosofia e a maioria absoluta dos especialistas em Kant, pela simples razão que ter uma “opinião pessoal”, que não seja uma repetição, ou seja, que seja “pessoal”, exige muito estudo, muito conhecimento de Kant, e muita criatividade filosófica. Se não é do domínio do génio filosófico, fica perto. Não é Habermas quem quer.
Mas a Internet está cheia disto, gente que escreve sobre um livro começando por dizer que não o leu, que escreve sobre cinema porque viu uns filmes, que se torna crítico literário porque “também pode dizer o que quiser”, ou melhor, “que tem o direito de dizer o que quiser” e só os passadistas de duvidosa democraticidade é que não querem que este “direito seja de todos”. E depois dizem “habituem-se que o mundo mudou”. Sim o mundo mudou, mas ninguém tem obrigação de aturar este ruído das “redes sociais” dos comentários, do “todos temos direito a falar, mesmo que não tenhamos nada para dizer”: “é a minha opinião pessoal sobre Kant, embora nunca o tenha lido e, se me criticam, berro que é censura e elitismo e nostalgia do mundo em que só os “sábios” (dito com desprezo) podiam falar…”.
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