terça-feira, 7 de junho de 2016

da máquina da ignorância

As redes destroem os heróis que criam à velocidade da luz em que sempre se movem. E eles, porque não são heróis, são pessoas comuns, não percebem. A história do casal-gay-que-faz-ativismo-pelos-direitos-LGBT-na-internet-e-não-sabia-que-Pedro-Passos-Coelho-já-não-é-primeiro-ministro é tão paradigmática, a tantos níveis, de tanta coisa, que podemos apenas resumir tudo com um “que horror”. E é um horror. Mas, e citando as senhoras na fila do supermercado sobre vários assuntos, “a culpa não é só deles”. Para início de conversa, talvez seja bom reler o último artigo Pacheco Pereira no Público. Começa assim: 
"Um dos efeitos perversos da cultura da Internet é a desvalorização do saber, do conhecimento, do estudo. Há muita gente que fica irritada quando se lhes toca no deslumbramento tecnológico e também, por arrasto, no direito de dizer alto, que é o que significa “publicar” na Internet, todas as asneiras possíveis visto que “todos têm direito à sua opinião”. Acham que criticar isto é “presunçoso”? Então acabou a ignorância? Lá porque cada um pode colocar o que quer na Internet isso dá-lhe um atestado de sabedoria? Não, é uma doença dos tempos modernos e está-se agravar principalmente nos mais jovens que obtêm na rede quase toda a informação e não tem literacias para a mediar. A “democracia” das “redes sociais” é uma forma de populismo moderno.
Eu costumava chumbar os alunos de filosofia que, para esconder infantilmente a sua ignorância, diziam que também tinham uma “opinião pessoal” sobre Kant. Ai tem? Mas que sorte, é que eu não tenho e a esmagadora maioria das pessoas letradas do mundo também não tem, incluindo 99% dos professores de filosofia e a maioria absoluta dos especialistas em Kant, pela simples razão que ter uma “opinião pessoal”, que não seja uma repetição, ou seja, que seja “pessoal”, exige muito estudo, muito conhecimento de Kant, e muita criatividade filosófica. Se não é do domínio do génio filosófico, fica perto. Não é Habermas quem quer.
Mas a Internet está cheia disto, gente que escreve sobre um livro começando por dizer que não o leu, que escreve sobre cinema porque viu uns filmes, que se torna crítico literário porque “também pode dizer o que quiser”, ou melhor, “que tem o direito de dizer o que quiser” e só os passadistas de duvidosa democraticidade é que não querem que este “direito seja de todos”. E depois dizem “habituem-se que o mundo mudou”. Sim o mundo mudou, mas ninguém tem obrigação de aturar este ruído das “redes sociais” dos comentários, do “todos temos direito a falar, mesmo que não tenhamos nada para dizer”: “é a minha opinião pessoal sobre Kant, embora nunca o tenha lido e, se me criticam, berro que é censura e elitismo e nostalgia do mundo em que só os “sábios” (dito com desprezo) podiam falar…”.

segunda-feira, 6 de junho de 2016


 retrato de Alice Vanderbilt Shepard, John Singer Sargent, 1888, Amon Carter Museum of American Art

quarta-feira, 1 de junho de 2016

a vida, o amor e os batráquios



Não consigo deixar de pensar em “The Surprise”, uma das histórias de “Frog and Toad” que conheci através deste artigo maravilhoso da New Yorker. Sorriso prolongado, conclusão alguma. Aqui é tudo delicioso e complexo, como sempre que se lê e escreve para crianças: da existência de uma publicação da especialidade chamada “The Lion and the Unicorn” ao conto “Alone”. Amor anfíbio, talvez. Desse que existe na terra e na água, que vai para todo o lado porque se transporta sem saber ou sabendo mesmo que não se queira. Não sei se a vontade é para aqui chamada. Amor anfíbio porque está lá, onde quer que se ache.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

quinta-feira, 26 de maio de 2016

absoluto silêncio

"O olhar da Maria foi imediatamente atraído por aquela terrina. Levantou a tampa para ver o seu interior e para segurar a concha de loiça, que tinha um cabo esculpido de flores. A pega da tampa eram três rosas com pétalas de cerâmica. As pegas da terrina eram também feitas de rosas. Em vários pontos da terrina e do prato onde estava assente, havia rosas pequenas e botões de rosa esculpidos e pintados com minúcia.
A Maria olhou para a minha mulher como se não tivesse coragem de pedir: A minha mulher olhou para ela, virou-se para o tendeiro e perguntou:
- É a quanto?
E perguntou se não baixava o preço, ele disse que não podia, ela repetiu a mesma pergunta, ele baixou o preço e a minha mulher tirou o porta-moedas da mala.
O homem ficou a embrulhar cada peça da terrina em folhas de jornal, enquanto dizia:
- Fica muito bem servida.
As lâmpadas já estavam acesas nos postes, mas ainda não era de noite. O fim da tarde era o céu que escurecia o seu próprio azul. O tendeiro regalava-se a embrulhar o prato da terrina numa folha de jornal no saco de plástico. Regalava-se a repetir frases que já tinha dito mil vezes. A minha filha sorria e a minha mulher respondia palavras casuais com grande esperteza.
Foi essa terrina que o marido da Maria levantou com as duas mãos. Segurou-a pelo prato, segurou-a à altura do peito e, com toda a força, atirou-a para o chão num instante de absoluto silêncio. Os pedaços da terrina ficaram espalhados e inúteis por todo o chão da cozinha; da mesma maneira, ficaram espalhados os botões, os alfinetes, as pontas de lápis, os pedaços de brinquedos e todos os objectos sem uso que estavam guardados no seu interior".

José Luís Peixoto, "Cemitério de Pianos", Bertrand Editora

quarta-feira, 25 de maio de 2016

terça-feira, 24 de maio de 2016

por exemplo

“Depois de jantarmos, sob a lâmpada da cozinha, as cortinas a agitarem-se levemente nas janelas, as brasas a esmorecerem na lareira, era inverno, o meu braço, a minha mão grossa num só movimento, como um impulso, mas nem sequer um impulso, como a vontade que se tem por um momento e que se concretiza nesse mesmo momento, vontade de outra pessoa dentro de mim, vontade que não é pensada, mas que surge como uma chama e o meu braço, a minha mão grossa a atravessar uma distância recta e invisível, eu a olhar para o seu rosto e a abrandar um pouco dessa força, e a minha mão a acertar-lhe na face e na boca, as pontas dos meus dedos grossos a tocarem-lhe nos cabelos e na orelha, o som bruto da carne contra carne, ela virar a expressão da cara contraída sob a minha mão, e a minha mão a deixar de existir quando ela caiu despedida, o som desordenado do seu corpo a cair no chão, as suas costas a derrubarem um banco de madeira, eu logo a querer levantá-la, logo a querer segurá-la, logo a querer desfazer aquilo que tinha acabado de acontecer, mas a ficar parado e a esperar que acontecesse, não posso fazer nada, não posso voltar atrás, é impossível, e o seu corpo parou, comecei a sentir a memória ardente da sua face, boca, cabelos e orelha ainda na minha mão,  e todos os objectos da cozinha como se ardessem, a balança de pesar gramas de farinha, o azulejo com uma paisagem de Lisboa pendurado na parede, o cinzeiro de loiça brilhante, e as crianças a chorarem, as crianças a chorarem, o mais pequeno veio a correr e agarrou-se às minhas pernas (…)”



José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, Bertrand Editora