segunda-feira, 6 de junho de 2016


 retrato de Alice Vanderbilt Shepard, John Singer Sargent, 1888, Amon Carter Museum of American Art

quarta-feira, 1 de junho de 2016

a vida, o amor e os batráquios



Não consigo deixar de pensar em “The Surprise”, uma das histórias de “Frog and Toad” que conheci através deste artigo maravilhoso da New Yorker. Sorriso prolongado, conclusão alguma. Aqui é tudo delicioso e complexo, como sempre que se lê e escreve para crianças: da existência de uma publicação da especialidade chamada “The Lion and the Unicorn” ao conto “Alone”. Amor anfíbio, talvez. Desse que existe na terra e na água, que vai para todo o lado porque se transporta sem saber ou sabendo mesmo que não se queira. Não sei se a vontade é para aqui chamada. Amor anfíbio porque está lá, onde quer que se ache.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

quinta-feira, 26 de maio de 2016

absoluto silêncio

"O olhar da Maria foi imediatamente atraído por aquela terrina. Levantou a tampa para ver o seu interior e para segurar a concha de loiça, que tinha um cabo esculpido de flores. A pega da tampa eram três rosas com pétalas de cerâmica. As pegas da terrina eram também feitas de rosas. Em vários pontos da terrina e do prato onde estava assente, havia rosas pequenas e botões de rosa esculpidos e pintados com minúcia.
A Maria olhou para a minha mulher como se não tivesse coragem de pedir: A minha mulher olhou para ela, virou-se para o tendeiro e perguntou:
- É a quanto?
E perguntou se não baixava o preço, ele disse que não podia, ela repetiu a mesma pergunta, ele baixou o preço e a minha mulher tirou o porta-moedas da mala.
O homem ficou a embrulhar cada peça da terrina em folhas de jornal, enquanto dizia:
- Fica muito bem servida.
As lâmpadas já estavam acesas nos postes, mas ainda não era de noite. O fim da tarde era o céu que escurecia o seu próprio azul. O tendeiro regalava-se a embrulhar o prato da terrina numa folha de jornal no saco de plástico. Regalava-se a repetir frases que já tinha dito mil vezes. A minha filha sorria e a minha mulher respondia palavras casuais com grande esperteza.
Foi essa terrina que o marido da Maria levantou com as duas mãos. Segurou-a pelo prato, segurou-a à altura do peito e, com toda a força, atirou-a para o chão num instante de absoluto silêncio. Os pedaços da terrina ficaram espalhados e inúteis por todo o chão da cozinha; da mesma maneira, ficaram espalhados os botões, os alfinetes, as pontas de lápis, os pedaços de brinquedos e todos os objectos sem uso que estavam guardados no seu interior".

José Luís Peixoto, "Cemitério de Pianos", Bertrand Editora

quarta-feira, 25 de maio de 2016

terça-feira, 24 de maio de 2016

por exemplo

“Depois de jantarmos, sob a lâmpada da cozinha, as cortinas a agitarem-se levemente nas janelas, as brasas a esmorecerem na lareira, era inverno, o meu braço, a minha mão grossa num só movimento, como um impulso, mas nem sequer um impulso, como a vontade que se tem por um momento e que se concretiza nesse mesmo momento, vontade de outra pessoa dentro de mim, vontade que não é pensada, mas que surge como uma chama e o meu braço, a minha mão grossa a atravessar uma distância recta e invisível, eu a olhar para o seu rosto e a abrandar um pouco dessa força, e a minha mão a acertar-lhe na face e na boca, as pontas dos meus dedos grossos a tocarem-lhe nos cabelos e na orelha, o som bruto da carne contra carne, ela virar a expressão da cara contraída sob a minha mão, e a minha mão a deixar de existir quando ela caiu despedida, o som desordenado do seu corpo a cair no chão, as suas costas a derrubarem um banco de madeira, eu logo a querer levantá-la, logo a querer segurá-la, logo a querer desfazer aquilo que tinha acabado de acontecer, mas a ficar parado e a esperar que acontecesse, não posso fazer nada, não posso voltar atrás, é impossível, e o seu corpo parou, comecei a sentir a memória ardente da sua face, boca, cabelos e orelha ainda na minha mão,  e todos os objectos da cozinha como se ardessem, a balança de pesar gramas de farinha, o azulejo com uma paisagem de Lisboa pendurado na parede, o cinzeiro de loiça brilhante, e as crianças a chorarem, as crianças a chorarem, o mais pequeno veio a correr e agarrou-se às minhas pernas (…)”



José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, Bertrand Editora

segunda-feira, 23 de maio de 2016

cemitérios

O José Luís Peixoto sabe escrever sobre terrinas a despedaçarem-se. Terrinas com rosas na tampa, terrinas que acumulam coisas lá dentro, porque são de enfeitar, de estar no centro das mesas todos os dias. As terrinas sem sopa que se compram na feira da Luz e antes pergunta-se “é a quanto?”. Não sei quando foi a última vez que li na minha língua uma coisa assim. Li noutras. Vem-me à cabeça a Toni Morrison, em “Beloved”, e talvez tenha pouco a ver, mas é o que me lembro. Li noutras línguas. Mas é na materna que consola. Ou escacava tudo à frente? É na materna que mais espanta, será? Não é a mesma coisa ler do inglês ou ler na língua mãe sobre um pai que chega da taberna cambaleante, um pai que parte os pratos da sopa ou a terrina sem sopa. E as alegrias de se surpreender uma cadela a parir cãezinhos dentro de um piano numa oficina em Benfica. E o cheio de quando se mata uma galinha. O cheio aquoso de quando está quase, a ânsia cansada de uma canja.