O José Luís Peixoto sabe escrever sobre terrinas a despedaçarem-se. Terrinas com rosas na tampa, terrinas que
acumulam coisas lá dentro, porque são de enfeitar, de estar no centro das mesas
todos os dias. As terrinas sem sopa que se compram na feira da Luz e antes
pergunta-se “é a quanto?”. Não sei quando foi a última vez que li na minha língua
uma coisa assim. Li noutras. Vem-me à cabeça a Toni Morrison, em “Beloved”, e
talvez tenha pouco a ver, mas é o que me lembro. Li noutras línguas. Mas é na
materna que consola. Ou escacava tudo à frente? É na materna que mais espanta,
será? Não é a mesma coisa ler do inglês ou ler na língua mãe sobre um pai que
chega da taberna cambaleante, um pai que parte os pratos da sopa ou a terrina
sem sopa. E as alegrias de se surpreender uma cadela a parir cãezinhos dentro de um piano numa
oficina em Benfica. E o cheio de quando se mata uma galinha. O cheio aquoso de quando
está quase, a ânsia cansada de uma canja.
segunda-feira, 23 de maio de 2016
sexta-feira, 29 de abril de 2016
how it ends
"Like that night-blooming jasmine bush I passed in Syria, when I was embedded with the rebels in 2012. They were heading out to a battle and we were all running through this centuries-old, mud-brick medina, and the smell of the jasmine hit me first. I stopped and looked up and realized there was an entire ceiling of the stuff growing above us. I buried my face in the tiny white flowers that only bloom after sundown, each one a little starburst. I was convinced they were the most miraculous thing I had ever seen, a god-given moment of truth".
quinta-feira, 28 de abril de 2016
a verdade
Robert Redford nasceu com uma gabardina bege vestida e a fiabilidade no olhar e na voz. Podemos suspirar e/ou refletir ligeiramente porque é constantemente usado para encarnar a credibilidade jornalística. Dan Rather é alguém que nem é bem humano no filme de estreia na realizaçãode James Vanderbilt. A opção não podia ser mais acertada.
quarta-feira, 27 de abril de 2016
D. B.
Vénias à Anne Hathaway, que faz uma vénia a Beyoncé. Uma grande vénia a Beyoncé e ao génio de saber biografar. É tão difícil. Aos artistas agradecemos isto, conduzirem-nos ao centro mais doloroso e verdadeiro, porque sozinhas e sozinhos é mais difícil, ou menos bonito, ou tem menos graça. Matemos os pais, façamos tudo o que for preciso. Depois será melhor. Será sempre melhor se for depois de Beyoncé (D.B.)
terça-feira, 12 de abril de 2016
Santa Catarina de Alexandria, por Francisco Zurbarán
De Catarina de Alexandria se diz ser padroeira dos estudantes. Sob a sua proteção, eu, infantil, estudante, me coloco. Ando submersa e pouco visível aqui, mas ando contente e isso é mesmo muito bom. Estudar é um privilégio. Ter (algum) tempo para o fazer é outro. E desse lugar privilegiado avisto um verão em que finalmente vou ter férias e ler livros desobrigada. Espero lá chegar com ainda menos coisas certas do que quando me inscrevi no mestrado há quase três anos. Tudo acabará bem quando começar para outro lado.
quinta-feira, 3 de março de 2016
coleccionismos
Percorria as revistas dos jornais
de domingo à procura de imagens belas com as quais forrar os meus cadernos no
início do ano letivo. Cadernos A3 negros, que depois plastificava, eram os que
enquadravam melhor esses instantâneos de qualquer coisa acumulados em caixas,
na gaveta da mesa-de-cabeceira, em sítios para o efeito onde fui dar também com
coisas que simulam o absurdo, como o Público com a primeira página da morte de
John-John Kennedy. O que teriam feito as imagens da internet aos meus cadernos?
Provavelmente, nada. Tirando as fotografias publicitárias a perfumes – essa obsessão
– , continuo a percorrer os mesmos caminhos que vão dar ao preto e branco do
maio de 68, agora bem menos Paris, muito mais Londres, e aos filmes que cravam
as garras. E quanto ao demais que colecionava, é googlar John John Kennedy e
Carolyne Bessette e perceber. Expurgue-se a heteronormatividade. Contemple-se.
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