quinta-feira, 3 de março de 2016

coleccionismos

Percorria as revistas dos jornais de domingo à procura de imagens belas com as quais forrar os meus cadernos no início do ano letivo. Cadernos A3 negros, que depois plastificava, eram os que enquadravam melhor esses instantâneos de qualquer coisa acumulados em caixas, na gaveta da mesa-de-cabeceira, em sítios para o efeito onde fui dar também com coisas que simulam o absurdo, como o Público com a primeira página da morte de John-John Kennedy. O que teriam feito as imagens da internet aos meus cadernos? Provavelmente, nada. Tirando as fotografias publicitárias a perfumes – essa obsessão – , continuo a percorrer os mesmos caminhos que vão dar ao preto e branco do maio de 68, agora bem menos Paris, muito mais Londres, e aos filmes que cravam as garras. E quanto ao demais que colecionava, é googlar John John Kennedy e Carolyne Bessette e perceber. Expurgue-se a heteronormatividade. Contemple-se. 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

as mulheres portuguesas são parvas #2

E como as mulheres são, às vezes, inimigas de si próprias, pregando um machismo cor de rosa, esse do eterno feminino, da sensibilidade especial e da propensão da fêmea para o 'multitasking', aqui fica um homem feminista a fazer algo que não sendo extraordinário, parece: usar do bom senso. 
"A ideia de que 'as mulheres acrescentam' é, por isso, um pouco perigosa. Primeiro, porque parece ser sempre formulada por quem acha que o argumento da igualdade de direitos não é suficiente. Daí sugerirem que as mulheres devem entrar na política porque são diferentes (para melhor, claro) dos homens. É uma ideia paternalista que a realidade, felizmente, se encarrega de desmentir. Não vejo grandes diferenças entre a governação de Margaret Thatcher, Angela Merkel, Fátima Felgueiras ou Dilma Rousseff e a de vários políticos do sexo masculino. Em segundo lugar, em que medida é que enunciar a expressão “as mulheres são”, seguida de um adjectivo agradável, é menos preconceituoso do que dizer 'os negros são' e acrescentar um adjectivo desagradável?". Ricardo Araújo Pereira na Visão, sobre "o feminismo preferido dos machistas".

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

as mulheres portuguesas são parvas

Esse foi o título que Maria Filomena Mónica deu a um texto publicado em março do ano passado e que é difícil de ler, de tão triste e verdadeiro que é. A prova do que lá se escreve está neste outro texto, publicado por um homem, supostamente com um e-mail escrito pela sua mulher, dando instruções para um dia em que ele tem de tratar das filhas de manhã porque ela tem uma reunião no Porto. É a realidade das mulheres mais privilegiadas e alegadamente esclarecidas a que aqui se retrata, como também era para elas que Maria Filomena Mónica escrevia, retirando, e bem, das suas considerações o inferno das mulheres pobres. Por muito que a classe média tenha sido proletarizada, antes e depois da crise, são as mulheres que têm "reuniões no Porto" aquelas que têm mais instrumentos ao seu dispor para resistir à escravidão da tipificação de género. São mulheres com cursos superiores, que fizeram Erasmus e viajaram com a democratização do transporte aéreo, que têm algum rendimento, e no entanto, aqui estão elas, a repetir o caminho das mães. Não duvido que este texto espelhe a realidade de muitas famílias, de muitas mulheres e homens, basta ver as partilhas que teve nas redes sociais. O problema é mesmo esse. Já estava na altura de as mulheres portuguesas deixarem de ser parvas.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016






De todas as que consegui ver, a primeira página do Libération é a que mais me comoveu. Chegou-me primeiro distorcida pelas rugas no plástico protetor (um jornal em papel, que vem de avião, que bonito), enviesada em cima da mesa do polícia, enquanto passava a mala no detetor de metais. E pensei, é mais bonita que a do Guardian, é ainda mais bonita que a do Público. O Público, esse mestre na arte da primeira página obituária, usa a frase que os tablóides ingleses quase todos também puxaram para as suas capas, neles grotesca, como tudo o que querem que um jornal seja, uma fechadura para ver o feio e ter medo. O Guardian foi sublime. É tão belo que parece pedir calma. Respiremos, pensemos ainda, a tristeza também o permite. E o Times é como um sino que toca, seco, grave, a decretar uma dor. O luto também é solene e isso é necessário.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016


David Bowie e Iman, fotografia de Bruce Weber



believing the strangest things, loving the alien

sábado, 2 de janeiro de 2016






Isabel Ruth e Rui Gomes, em "Os verdes anos", de Paulo Rocha. Argumento e diálogos de Nuno Bragança.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2015

O último dia deste ano começou com café fresco. Acabados de moer que foram os seus grãos de mistura frutada de comércio justo do Quénia, não adio mais. 2015 foi o ano em que fiz uma mudança sozinha e fiquei doente, a exaustão a levantar a dúvida sobre aquele nevoeiro frio na marginal às 03:00 da manhã do final de julho. Fiquei recolhida em casa três dias a arrumar livros e a ver a “Casa da Rússia”. “You’re my only country now”. 2015 foi o ano em que atei esse laço e fui à cidade onde os meus pais se conheceram. Moscovo. E só para ser completo, amei-a como se sempre, como se alguma vez. São Petersburgo aborreceu-me, tanta beleza apalaçada que o ruído da multidão turística só tornava mais dourada. Moscovo, sim, dura, castanha, vermelha de sangue, difícil, imensa, narrativa. Vim de São Petersburgo com os poemas do Pushkin e numa banheira de um hotel em Coimbra encontrei o que melhor me explicava a campanha eleitoral que eu estava a cobrir. Exausta.

Isto já foi depois de morreres, querido André. Assim custa muito, escrever. Morrer.

Pushkin na banheira do hotel em Coimbra foi o primeiro momento em que parei para ler e também para fechar os olhos com um livro aberto, ou é assim que me lembro. E São Petersburgo pode ter-me aborrecido mas foi por ti que vi o Hermitage. De dentro do museu a cidade é mesmo bonita e eu enviei-te fotos e depois contei-te como era. Eu estava no Hermitage mas era como se tu estivesses lá estado primeiro e me tivesses contado e eu estava apenas a atualizar-te. Como fazem os amigos que são amigos há muitos anos e visitam as mesmas coisas com intervalos de gente crescida. Há dez anos. Há quinze anos. Isso não vai acontecer connosco. Porque tu morreste.

Foi a fé que confirmei e que às vezes não quis. De onde vem esta paz desolada? Eu quero gritar, não quero aceitar, foram coisas que eu pensei, quando a tremer sustentei uma amiga que caia de dor quando lhe disse que tinhas morrido. A meio dos discursos, em Beja. E nesse dia ainda havíamos de ir para Faro. Estávamos num carrossel.

E não foi só essa aceitação que eu não tinha pedido, que eu não queria mas que estava em mim, como ‘uma vacina que pegou’  - Graham Greene, sim. O ano havia de caminhar para o fim com as coisas a terem a felicidade de um chão. Por coisas digo também os objetos, contentes e pesados nos seus lugares. O cheiro do café acabado de moer esta manhã.