quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

as mulheres portuguesas são parvas #2

E como as mulheres são, às vezes, inimigas de si próprias, pregando um machismo cor de rosa, esse do eterno feminino, da sensibilidade especial e da propensão da fêmea para o 'multitasking', aqui fica um homem feminista a fazer algo que não sendo extraordinário, parece: usar do bom senso. 
"A ideia de que 'as mulheres acrescentam' é, por isso, um pouco perigosa. Primeiro, porque parece ser sempre formulada por quem acha que o argumento da igualdade de direitos não é suficiente. Daí sugerirem que as mulheres devem entrar na política porque são diferentes (para melhor, claro) dos homens. É uma ideia paternalista que a realidade, felizmente, se encarrega de desmentir. Não vejo grandes diferenças entre a governação de Margaret Thatcher, Angela Merkel, Fátima Felgueiras ou Dilma Rousseff e a de vários políticos do sexo masculino. Em segundo lugar, em que medida é que enunciar a expressão “as mulheres são”, seguida de um adjectivo agradável, é menos preconceituoso do que dizer 'os negros são' e acrescentar um adjectivo desagradável?". Ricardo Araújo Pereira na Visão, sobre "o feminismo preferido dos machistas".

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

as mulheres portuguesas são parvas

Esse foi o título que Maria Filomena Mónica deu a um texto publicado em março do ano passado e que é difícil de ler, de tão triste e verdadeiro que é. A prova do que lá se escreve está neste outro texto, publicado por um homem, supostamente com um e-mail escrito pela sua mulher, dando instruções para um dia em que ele tem de tratar das filhas de manhã porque ela tem uma reunião no Porto. É a realidade das mulheres mais privilegiadas e alegadamente esclarecidas a que aqui se retrata, como também era para elas que Maria Filomena Mónica escrevia, retirando, e bem, das suas considerações o inferno das mulheres pobres. Por muito que a classe média tenha sido proletarizada, antes e depois da crise, são as mulheres que têm "reuniões no Porto" aquelas que têm mais instrumentos ao seu dispor para resistir à escravidão da tipificação de género. São mulheres com cursos superiores, que fizeram Erasmus e viajaram com a democratização do transporte aéreo, que têm algum rendimento, e no entanto, aqui estão elas, a repetir o caminho das mães. Não duvido que este texto espelhe a realidade de muitas famílias, de muitas mulheres e homens, basta ver as partilhas que teve nas redes sociais. O problema é mesmo esse. Já estava na altura de as mulheres portuguesas deixarem de ser parvas.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016






De todas as que consegui ver, a primeira página do Libération é a que mais me comoveu. Chegou-me primeiro distorcida pelas rugas no plástico protetor (um jornal em papel, que vem de avião, que bonito), enviesada em cima da mesa do polícia, enquanto passava a mala no detetor de metais. E pensei, é mais bonita que a do Guardian, é ainda mais bonita que a do Público. O Público, esse mestre na arte da primeira página obituária, usa a frase que os tablóides ingleses quase todos também puxaram para as suas capas, neles grotesca, como tudo o que querem que um jornal seja, uma fechadura para ver o feio e ter medo. O Guardian foi sublime. É tão belo que parece pedir calma. Respiremos, pensemos ainda, a tristeza também o permite. E o Times é como um sino que toca, seco, grave, a decretar uma dor. O luto também é solene e isso é necessário.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016


David Bowie e Iman, fotografia de Bruce Weber



believing the strangest things, loving the alien

sábado, 2 de janeiro de 2016






Isabel Ruth e Rui Gomes, em "Os verdes anos", de Paulo Rocha. Argumento e diálogos de Nuno Bragança.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2015

O último dia deste ano começou com café fresco. Acabados de moer que foram os seus grãos de mistura frutada de comércio justo do Quénia, não adio mais. 2015 foi o ano em que fiz uma mudança sozinha e fiquei doente, a exaustão a levantar a dúvida sobre aquele nevoeiro frio na marginal às 03:00 da manhã do final de julho. Fiquei recolhida em casa três dias a arrumar livros e a ver a “Casa da Rússia”. “You’re my only country now”. 2015 foi o ano em que atei esse laço e fui à cidade onde os meus pais se conheceram. Moscovo. E só para ser completo, amei-a como se sempre, como se alguma vez. São Petersburgo aborreceu-me, tanta beleza apalaçada que o ruído da multidão turística só tornava mais dourada. Moscovo, sim, dura, castanha, vermelha de sangue, difícil, imensa, narrativa. Vim de São Petersburgo com os poemas do Pushkin e numa banheira de um hotel em Coimbra encontrei o que melhor me explicava a campanha eleitoral que eu estava a cobrir. Exausta.

Isto já foi depois de morreres, querido André. Assim custa muito, escrever. Morrer.

Pushkin na banheira do hotel em Coimbra foi o primeiro momento em que parei para ler e também para fechar os olhos com um livro aberto, ou é assim que me lembro. E São Petersburgo pode ter-me aborrecido mas foi por ti que vi o Hermitage. De dentro do museu a cidade é mesmo bonita e eu enviei-te fotos e depois contei-te como era. Eu estava no Hermitage mas era como se tu estivesses lá estado primeiro e me tivesses contado e eu estava apenas a atualizar-te. Como fazem os amigos que são amigos há muitos anos e visitam as mesmas coisas com intervalos de gente crescida. Há dez anos. Há quinze anos. Isso não vai acontecer connosco. Porque tu morreste.

Foi a fé que confirmei e que às vezes não quis. De onde vem esta paz desolada? Eu quero gritar, não quero aceitar, foram coisas que eu pensei, quando a tremer sustentei uma amiga que caia de dor quando lhe disse que tinhas morrido. A meio dos discursos, em Beja. E nesse dia ainda havíamos de ir para Faro. Estávamos num carrossel.

E não foi só essa aceitação que eu não tinha pedido, que eu não queria mas que estava em mim, como ‘uma vacina que pegou’  - Graham Greene, sim. O ano havia de caminhar para o fim com as coisas a terem a felicidade de um chão. Por coisas digo também os objetos, contentes e pesados nos seus lugares. O cheiro do café acabado de moer esta manhã.

sábado, 26 de dezembro de 2015


Não é a luta de classes. É a paz social podre que é abalada por um golpe geracional. Com sorte e inteligência, é isso que acontece às famílias, Mesmo na ausência ou por causa dela ou apesar dela. Quando chega a sua vez, filhas, filhos, deslocam alguma coisa, como as suas mães e pais, com sorte e inteligência, terão deslocado antes. E tudo se passa dentro de linhas que expõem o risco da repetição estéril. E depois vem a luta de classes.