segunda-feira, 11 de janeiro de 2016


David Bowie e Iman, fotografia de Bruce Weber



believing the strangest things, loving the alien

sábado, 2 de janeiro de 2016






Isabel Ruth e Rui Gomes, em "Os verdes anos", de Paulo Rocha. Argumento e diálogos de Nuno Bragança.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2015

O último dia deste ano começou com café fresco. Acabados de moer que foram os seus grãos de mistura frutada de comércio justo do Quénia, não adio mais. 2015 foi o ano em que fiz uma mudança sozinha e fiquei doente, a exaustão a levantar a dúvida sobre aquele nevoeiro frio na marginal às 03:00 da manhã do final de julho. Fiquei recolhida em casa três dias a arrumar livros e a ver a “Casa da Rússia”. “You’re my only country now”. 2015 foi o ano em que atei esse laço e fui à cidade onde os meus pais se conheceram. Moscovo. E só para ser completo, amei-a como se sempre, como se alguma vez. São Petersburgo aborreceu-me, tanta beleza apalaçada que o ruído da multidão turística só tornava mais dourada. Moscovo, sim, dura, castanha, vermelha de sangue, difícil, imensa, narrativa. Vim de São Petersburgo com os poemas do Pushkin e numa banheira de um hotel em Coimbra encontrei o que melhor me explicava a campanha eleitoral que eu estava a cobrir. Exausta.

Isto já foi depois de morreres, querido André. Assim custa muito, escrever. Morrer.

Pushkin na banheira do hotel em Coimbra foi o primeiro momento em que parei para ler e também para fechar os olhos com um livro aberto, ou é assim que me lembro. E São Petersburgo pode ter-me aborrecido mas foi por ti que vi o Hermitage. De dentro do museu a cidade é mesmo bonita e eu enviei-te fotos e depois contei-te como era. Eu estava no Hermitage mas era como se tu estivesses lá estado primeiro e me tivesses contado e eu estava apenas a atualizar-te. Como fazem os amigos que são amigos há muitos anos e visitam as mesmas coisas com intervalos de gente crescida. Há dez anos. Há quinze anos. Isso não vai acontecer connosco. Porque tu morreste.

Foi a fé que confirmei e que às vezes não quis. De onde vem esta paz desolada? Eu quero gritar, não quero aceitar, foram coisas que eu pensei, quando a tremer sustentei uma amiga que caia de dor quando lhe disse que tinhas morrido. A meio dos discursos, em Beja. E nesse dia ainda havíamos de ir para Faro. Estávamos num carrossel.

E não foi só essa aceitação que eu não tinha pedido, que eu não queria mas que estava em mim, como ‘uma vacina que pegou’  - Graham Greene, sim. O ano havia de caminhar para o fim com as coisas a terem a felicidade de um chão. Por coisas digo também os objetos, contentes e pesados nos seus lugares. O cheiro do café acabado de moer esta manhã.

sábado, 26 de dezembro de 2015


Não é a luta de classes. É a paz social podre que é abalada por um golpe geracional. Com sorte e inteligência, é isso que acontece às famílias, Mesmo na ausência ou por causa dela ou apesar dela. Quando chega a sua vez, filhas, filhos, deslocam alguma coisa, como as suas mães e pais, com sorte e inteligência, terão deslocado antes. E tudo se passa dentro de linhas que expõem o risco da repetição estéril. E depois vem a luta de classes.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015



Em 2015 terei aprendido imensas coisas. Como tal, não consigo dizer nada. Que a força esteja connosco, que não desistimos da luz.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

“Não só uma canoa, canoas. E uns vários aviões espalhados. Não é como se alguém pudesse culpá-la pelo complexo de cidade-dormitório que a persegue. Até porque toda a capital pede, por definição, uma órbita de cidades-satélites. A síndrome de cachorro de rua acompanha: a eterna pergunta do que é ser um cidadão daquela cidade. Em São Leopoldo, são descendentes de alemães. Em Porto Alegre, o centro do universo, mas e ali?
A cidade que era um espaço vazio ganha um trilho de trem, e assim ela vira uma Cidade. E o que une as pessoas é um trilho de trem que concomitantemente a divide. Depois, uma rodovia, com a mesma função. Dois riscos quebrando a cidade no meio, forçando passarelas, ligações e pontes.
Não é como se alguém pudesse culpar uma pessoa específica, o prefeito, o governador, o presidente, o tio da padaria. É assim que as coisas são. As demandas – as necessidades – das pessoas tornam a cidade o que ela é. O que as pessoas realmente usam na cidade, encontram.
A cidade não pode narrar sua versão dos fatos. A cidade não pode dizer que os benefícios que ela traz são apenas tarefa cumprida, enquanto os problemas são problemas. Não pode insistir no fato de que resistiu a duas enchentes. Não é como se alguém pudesse culpar a cidade em si pelo seu símbolo ser um avião, e o nome ser canoa”.


Luisa Geisler, “Luzes de emergência se acenderão automaticamente”, Alfaguara, Rio de Janeiro.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015