Isabel Ruth e Rui Gomes, em "Os verdes anos", de Paulo Rocha. Argumento e diálogos de Nuno Bragança.
sábado, 2 de janeiro de 2016
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
2015
O último dia deste ano começou
com café fresco. Acabados de moer que foram os seus grãos de mistura frutada de
comércio justo do Quénia, não adio mais. 2015 foi o ano em que fiz uma mudança
sozinha e fiquei doente, a exaustão a levantar a dúvida sobre aquele nevoeiro frio
na marginal às 03:00 da manhã do final de julho. Fiquei recolhida em casa três dias
a arrumar livros e a ver a “Casa da Rússia”. “You’re my only country now”. 2015
foi o ano em que atei esse laço e fui à cidade onde os meus pais se conheceram.
Moscovo. E só para ser completo, amei-a como se sempre, como se alguma vez. São
Petersburgo aborreceu-me, tanta beleza apalaçada que o ruído da multidão turística
só tornava mais dourada. Moscovo, sim, dura, castanha, vermelha de sangue,
difícil, imensa, narrativa. Vim de São Petersburgo com os poemas do Pushkin e numa
banheira de um hotel em Coimbra encontrei o que melhor me explicava a campanha
eleitoral que eu estava a cobrir. Exausta.
Isto já foi depois de morreres, querido André. Assim custa muito, escrever. Morrer.
Pushkin na banheira do hotel em Coimbra foi o primeiro momento em que parei para ler e também para fechar os olhos com um livro aberto, ou é assim que me lembro. E São Petersburgo pode ter-me aborrecido mas foi por ti que vi o Hermitage. De dentro do museu a cidade é mesmo bonita e eu enviei-te fotos e depois contei-te como era. Eu estava no Hermitage mas era como se tu estivesses lá estado primeiro e me tivesses contado e eu estava apenas a atualizar-te. Como fazem os amigos que são amigos há muitos anos e visitam as mesmas coisas com intervalos de gente crescida. Há dez anos. Há quinze anos. Isso não vai acontecer connosco. Porque tu morreste.
Isto já foi depois de morreres, querido André. Assim custa muito, escrever. Morrer.
Pushkin na banheira do hotel em Coimbra foi o primeiro momento em que parei para ler e também para fechar os olhos com um livro aberto, ou é assim que me lembro. E São Petersburgo pode ter-me aborrecido mas foi por ti que vi o Hermitage. De dentro do museu a cidade é mesmo bonita e eu enviei-te fotos e depois contei-te como era. Eu estava no Hermitage mas era como se tu estivesses lá estado primeiro e me tivesses contado e eu estava apenas a atualizar-te. Como fazem os amigos que são amigos há muitos anos e visitam as mesmas coisas com intervalos de gente crescida. Há dez anos. Há quinze anos. Isso não vai acontecer connosco. Porque tu morreste.
Foi a fé que confirmei e que às
vezes não quis. De onde vem esta paz desolada? Eu quero gritar, não quero
aceitar, foram coisas que eu pensei, quando a tremer sustentei uma amiga que
caia de dor quando lhe disse que tinhas morrido. A meio dos discursos, em Beja.
E nesse dia ainda havíamos de ir para Faro. Estávamos num carrossel.
E não foi só essa aceitação que eu não tinha pedido, que eu não queria mas que estava em mim, como ‘uma vacina que pegou’ - Graham Greene, sim. O ano havia de caminhar para o fim com as coisas a terem a felicidade de um chão. Por coisas digo também os objetos, contentes e pesados nos seus lugares. O cheiro do café acabado de moer esta manhã.
E não foi só essa aceitação que eu não tinha pedido, que eu não queria mas que estava em mim, como ‘uma vacina que pegou’ - Graham Greene, sim. O ano havia de caminhar para o fim com as coisas a terem a felicidade de um chão. Por coisas digo também os objetos, contentes e pesados nos seus lugares. O cheiro do café acabado de moer esta manhã.
sábado, 26 de dezembro de 2015
Não é a luta de classes. É a paz social podre que é abalada por um golpe geracional. Com sorte e inteligência, é isso que acontece às famílias, Mesmo na ausência ou por causa dela ou apesar dela. Quando chega a sua vez, filhas, filhos, deslocam alguma coisa, como as suas mães e pais, com sorte e inteligência, terão deslocado antes. E tudo se passa dentro de linhas que expõem o risco da repetição estéril. E depois vem a luta de classes.
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
“Não só uma canoa, canoas. E uns
vários aviões espalhados. Não é como se alguém pudesse culpá-la pelo complexo
de cidade-dormitório que a persegue. Até porque toda a capital pede, por
definição, uma órbita de cidades-satélites. A síndrome de cachorro de rua
acompanha: a eterna pergunta do que é ser um cidadão daquela cidade. Em São
Leopoldo, são descendentes de alemães. Em Porto Alegre, o centro do universo,
mas e ali?
A cidade que era um espaço vazio
ganha um trilho de trem, e assim ela vira uma Cidade. E o que une as pessoas é
um trilho de trem que concomitantemente a divide. Depois, uma rodovia, com a
mesma função. Dois riscos quebrando a cidade no meio, forçando passarelas, ligações
e pontes.
Não é como se alguém pudesse
culpar uma pessoa específica, o prefeito, o governador, o presidente, o tio da
padaria. É assim que as coisas são. As demandas – as necessidades – das pessoas
tornam a cidade o que ela é. O que as pessoas realmente usam na cidade,
encontram.
A cidade não pode narrar sua
versão dos fatos. A cidade não pode dizer que os benefícios que ela traz são apenas
tarefa cumprida, enquanto os problemas são problemas. Não pode insistir no fato
de que resistiu a duas enchentes. Não é como se alguém pudesse culpar a cidade
em si pelo seu símbolo ser um avião, e o nome ser canoa”.
Luisa Geisler, “Luzes de
emergência se acenderão automaticamente”, Alfaguara, Rio de Janeiro.
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