terça-feira, 17 de novembro de 2015

UM PORMENOR DE PIERO DELLA FRANCESCA

A forma de sinceridade requerida
é a mais extrema pobreza:
pela neve sem vincar rasto
sempre caminhou
aquele que busca um amor


José Tolentino Mendonça, “De igual para igual”, Assírio e Alvim

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

está tudo ligado, mesmo


 “A ironia trágica é ter 70% dos agricultores do mundo com fome. E a maioria são mulheres. Podemos dizer que a maioria das pessoas que alimentam o mundo têm fome e são mulheres”, Eric Holt-Gimenez, presidente da ONG Food First, em entrevista ao Público.


Tive um pai que me repetia à exaustão que tudo é político, acabei por perceber que ele tinha razão quando entendi também que sabê-lo é pouco. Agora julgo que sei: tudo é feminismo. E tantas outras coisas todas juntas.


domingo, 15 de novembro de 2015

dentes de leite



Recolho da estante com inevitável solenidade o livro para emprestar. Querer dar sendo nosso. Por isso se empresta pouco e se diz que os livros já não voltam os mesmos. Só não voltam os mesmos se correr bem, isso já se diz menos. Na secção dos espanhóis é o segundo. O primeiro são “Os girassóis cegos”, quatro histórias, quatro derrotas. A guerra. “Dentes de Leite” foi o segundo romance em castelhano que li. Comprado com “Os girassóis cegos” na mão, ainda no início, em Segóvia, numa livraria sonhada. O livreiro de sorriso diligente, conversador com moderação sobre o que lhe pedia, literatura da Guerra Civil. A Guerra de Espanha. Ali, perto do local em que se passa “Por quem os sinos dobram”. 

Na capa uma criança pequena vestida de fascista italiano faz a saudação romana. Procuro as marcas e não estão lá. Nem a data, que sempre ponho, nenhum sublinhado. Nada, a não ser uma rúbrica a atestar a propriedade e um eventual marcador: um bilhete do Cine-Casino Paraíso Nazaré. Plateia, 3 euros, taxa de IVA incluída a 5%, a data com o dia impercetível do mês sete do ano de 2002. O caminho que fez para ali chegar toma outra volta, separo o bilhete do livro, sabendo que os anos que separam a Nazaré de Segóvia, de Hemingway, de Mendez e de Pisón não existem. Como não existem sublinhados a lápis para me dizer onde olhar anos depois quando tiro o livro da estante para não ser só meu. E agradeço também a ausência de notas à margem e toda a alvura da palavra impressa em Barcelona. Como num verso que falte a “Futuros Amantes”, o livro que um dia escolhi para ti.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015


Hedy Lamar


Podiam ser os olhos, a boca, o nariz, uma melena. Os ombros. É total porque uma das suas partes , só uma, teria o poder de submeter. Parar na iminência da expressão 'ditadura da beleza'. 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

bibliografia obrigatória



Saudades de livros no comboio só porque sim. Mas é a falta que sempre se mostra em tudo, o vírus das saudades de instantes significativos que existem nos dias menos felizes, inventados por isso. Nem chegam a ser saudades, um suspiro. Amarrei-me à leitura obrigada e daí nunca saí. Na falta de quem mande, o esmero na redação de listas. Revejo-as em blocos antigos - guardo papéis, sim. Numa puxada seca tiro a folha da máquina e deixo-a em cima da mesa, para mim. Nos lugares seguros há sempre máquinas de escrever. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

os enamoramentos

As metáforas conjugais também são as minhas preferidas. Serão, porventura, mais difíceis do que as outras porque expõem impiedosamente a incapacidade analítica (e relacional) de quem as profere. O Javier Marías saberia dizer umas coisas sobre esta matéria. Elaborou-as particularmente bem em “Os enamoramentos” que li perto do osso, orgulhosamente, no original em castelhano, mas também em "Coração tão branco". Na nossa imprensa, que na opinião é ainda muito dominada por homens, as metáforas conjugais são fraquinhas e um entendimento político a três vai demonstrar a fragilidade do pensamento, da linguagem (e das relações) de tantos pobres cronistas. Será uma altura divertida para psicoterapeutas lerem jornais. Temos, felizmente, a Ana Sá Lopes, que criou uma personagem para que a metáfora relacional aplicada à política tenha até um nome, Vanessa. Mas eu que adoro a Vanessa desde a primeira hora – e na primeira hora eu andava na faculdade e devorava a coluna ‘Pão e Rosas’ da Ana Sá Lopes enquanto me enterrava nos sofás da cafetaria Continental – comovo-me mesmo com os textos em que a Vanessa fica de fora. Recordo um texto, num fim de ciclo político qualquer, em que a Ana Sá Lopes comparava o arrastar desencantado desses tempos com o último ano de um casamento, quando os dois empurram o carrinho no hipermercado, entorpecidos mas cientes, levando ainda para a frente a familiaridade do gesto. E se houve tanta beleza num texto sobre o fim, imaginemos o que pode ser escrito sobre o princípio.

Portanto, ao contrário desta tese, só vejo boas perspetivas metafóricas num entendimento político a três. Virão as inevitáveis brejeirices, sim, mas à altura das melhores penas estará esse momento - não de uma adorável paixão de liceu ou do fim de uma relação infeliz – do novo e nunca feito. O inédito tem um enorme potencial conjugal. E metafórico.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015




Henriett Ventura e Carlos Pinillos, em "Pedro e Inês", de Olga Roriz, para a Companhia Nacional de Bailado. Fotografia de Bruno Simão



Orgulho-me tanto da minha memória. Que arrogância. Afinal, há 12 anos Ana Lacerda era Inês morta e o que me comoveu às lágrimas foi esse pas de deux com Christian Schwarm. A Inês que ama Pedro na água é interpretada por uma bailarina diferente da Inês morta. A mulher desdobrada em sentido inverso dos dois cisnes. Em “O Lago dos Cisnes” o cisne negro e o cisne branco são dois e sempre a mesma bailarina.

A procura da unidade continua a virar-me para Tatiana e o bailado que mais vi mas nunca ao vivo. Em “Oneguin” há uma mulher que chega à cena final no mesmo corpo, da mesma bailarina. Tatiana é a mesma. Seria condescendente dizer que é outra porque põe Oneguin porta fora quando ele lhe aparece velho mas com os mesmos truques que na juventude conduziram a duelos ao frio e toda a sorte de sarilhos, morte e destruição. Tatiana de dedo estendido a apontar a Oneguin a rua é um comovente gesto de autopreservação tardio. Pode aparecer como a única atitude inteligente de Tatiana, que passa quase todo o bailado entregue à fragilidade de menina, mas só para quem escolha ignorar o salto temporal em que Tatiana se desdobra e cresce longe do espectador. Ela é a mesma porque é outra. É esse o seu propósito, que é tão mais claro quanto posto em contraste com a imaturidade de Oneguin, tornada patética pelo passar do tempo. Respeitemos a heroína romântica, ela merece.