segunda-feira, 16 de novembro de 2015

está tudo ligado, mesmo


 “A ironia trágica é ter 70% dos agricultores do mundo com fome. E a maioria são mulheres. Podemos dizer que a maioria das pessoas que alimentam o mundo têm fome e são mulheres”, Eric Holt-Gimenez, presidente da ONG Food First, em entrevista ao Público.


Tive um pai que me repetia à exaustão que tudo é político, acabei por perceber que ele tinha razão quando entendi também que sabê-lo é pouco. Agora julgo que sei: tudo é feminismo. E tantas outras coisas todas juntas.


domingo, 15 de novembro de 2015

dentes de leite



Recolho da estante com inevitável solenidade o livro para emprestar. Querer dar sendo nosso. Por isso se empresta pouco e se diz que os livros já não voltam os mesmos. Só não voltam os mesmos se correr bem, isso já se diz menos. Na secção dos espanhóis é o segundo. O primeiro são “Os girassóis cegos”, quatro histórias, quatro derrotas. A guerra. “Dentes de Leite” foi o segundo romance em castelhano que li. Comprado com “Os girassóis cegos” na mão, ainda no início, em Segóvia, numa livraria sonhada. O livreiro de sorriso diligente, conversador com moderação sobre o que lhe pedia, literatura da Guerra Civil. A Guerra de Espanha. Ali, perto do local em que se passa “Por quem os sinos dobram”. 

Na capa uma criança pequena vestida de fascista italiano faz a saudação romana. Procuro as marcas e não estão lá. Nem a data, que sempre ponho, nenhum sublinhado. Nada, a não ser uma rúbrica a atestar a propriedade e um eventual marcador: um bilhete do Cine-Casino Paraíso Nazaré. Plateia, 3 euros, taxa de IVA incluída a 5%, a data com o dia impercetível do mês sete do ano de 2002. O caminho que fez para ali chegar toma outra volta, separo o bilhete do livro, sabendo que os anos que separam a Nazaré de Segóvia, de Hemingway, de Mendez e de Pisón não existem. Como não existem sublinhados a lápis para me dizer onde olhar anos depois quando tiro o livro da estante para não ser só meu. E agradeço também a ausência de notas à margem e toda a alvura da palavra impressa em Barcelona. Como num verso que falte a “Futuros Amantes”, o livro que um dia escolhi para ti.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015


Hedy Lamar


Podiam ser os olhos, a boca, o nariz, uma melena. Os ombros. É total porque uma das suas partes , só uma, teria o poder de submeter. Parar na iminência da expressão 'ditadura da beleza'. 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

bibliografia obrigatória



Saudades de livros no comboio só porque sim. Mas é a falta que sempre se mostra em tudo, o vírus das saudades de instantes significativos que existem nos dias menos felizes, inventados por isso. Nem chegam a ser saudades, um suspiro. Amarrei-me à leitura obrigada e daí nunca saí. Na falta de quem mande, o esmero na redação de listas. Revejo-as em blocos antigos - guardo papéis, sim. Numa puxada seca tiro a folha da máquina e deixo-a em cima da mesa, para mim. Nos lugares seguros há sempre máquinas de escrever. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

os enamoramentos

As metáforas conjugais também são as minhas preferidas. Serão, porventura, mais difíceis do que as outras porque expõem impiedosamente a incapacidade analítica (e relacional) de quem as profere. O Javier Marías saberia dizer umas coisas sobre esta matéria. Elaborou-as particularmente bem em “Os enamoramentos” que li perto do osso, orgulhosamente, no original em castelhano, mas também em "Coração tão branco". Na nossa imprensa, que na opinião é ainda muito dominada por homens, as metáforas conjugais são fraquinhas e um entendimento político a três vai demonstrar a fragilidade do pensamento, da linguagem (e das relações) de tantos pobres cronistas. Será uma altura divertida para psicoterapeutas lerem jornais. Temos, felizmente, a Ana Sá Lopes, que criou uma personagem para que a metáfora relacional aplicada à política tenha até um nome, Vanessa. Mas eu que adoro a Vanessa desde a primeira hora – e na primeira hora eu andava na faculdade e devorava a coluna ‘Pão e Rosas’ da Ana Sá Lopes enquanto me enterrava nos sofás da cafetaria Continental – comovo-me mesmo com os textos em que a Vanessa fica de fora. Recordo um texto, num fim de ciclo político qualquer, em que a Ana Sá Lopes comparava o arrastar desencantado desses tempos com o último ano de um casamento, quando os dois empurram o carrinho no hipermercado, entorpecidos mas cientes, levando ainda para a frente a familiaridade do gesto. E se houve tanta beleza num texto sobre o fim, imaginemos o que pode ser escrito sobre o princípio.

Portanto, ao contrário desta tese, só vejo boas perspetivas metafóricas num entendimento político a três. Virão as inevitáveis brejeirices, sim, mas à altura das melhores penas estará esse momento - não de uma adorável paixão de liceu ou do fim de uma relação infeliz – do novo e nunca feito. O inédito tem um enorme potencial conjugal. E metafórico.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015




Henriett Ventura e Carlos Pinillos, em "Pedro e Inês", de Olga Roriz, para a Companhia Nacional de Bailado. Fotografia de Bruno Simão



Orgulho-me tanto da minha memória. Que arrogância. Afinal, há 12 anos Ana Lacerda era Inês morta e o que me comoveu às lágrimas foi esse pas de deux com Christian Schwarm. A Inês que ama Pedro na água é interpretada por uma bailarina diferente da Inês morta. A mulher desdobrada em sentido inverso dos dois cisnes. Em “O Lago dos Cisnes” o cisne negro e o cisne branco são dois e sempre a mesma bailarina.

A procura da unidade continua a virar-me para Tatiana e o bailado que mais vi mas nunca ao vivo. Em “Oneguin” há uma mulher que chega à cena final no mesmo corpo, da mesma bailarina. Tatiana é a mesma. Seria condescendente dizer que é outra porque põe Oneguin porta fora quando ele lhe aparece velho mas com os mesmos truques que na juventude conduziram a duelos ao frio e toda a sorte de sarilhos, morte e destruição. Tatiana de dedo estendido a apontar a Oneguin a rua é um comovente gesto de autopreservação tardio. Pode aparecer como a única atitude inteligente de Tatiana, que passa quase todo o bailado entregue à fragilidade de menina, mas só para quem escolha ignorar o salto temporal em que Tatiana se desdobra e cresce longe do espectador. Ela é a mesma porque é outra. É esse o seu propósito, que é tão mais claro quanto posto em contraste com a imaturidade de Oneguin, tornada patética pelo passar do tempo. Respeitemos a heroína romântica, ela merece.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015


Brigitte Bardot


Este é o estado em que se encontra este blogue, na frase cunhada pela Carla Quevedo nos tempos gloriosos da blogoesfera. Saudosismo, sim, mas só da pujança dos blogues, essa fase fantástica em em que todos éramos intelectuais e escrevíamos sobre tudo, sapatos e vestidos incluídos, não havia 'blogues de moda' nem de celebridades bebedoras de sumos 'detox'. Eu sou mais feliz hoje, mas os blogues não. A agrafia deste lugar poderá prolongar-se. É assim que estamos, efetivamente, blogue e eu. Percebo que algo mudou quando vejo nisto uma coisa boa, ou para usar a adjetivação de António Costa, "muito interessante".