sexta-feira, 13 de novembro de 2015


Hedy Lamar


Podiam ser os olhos, a boca, o nariz, uma melena. Os ombros. É total porque uma das suas partes , só uma, teria o poder de submeter. Parar na iminência da expressão 'ditadura da beleza'. 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

bibliografia obrigatória



Saudades de livros no comboio só porque sim. Mas é a falta que sempre se mostra em tudo, o vírus das saudades de instantes significativos que existem nos dias menos felizes, inventados por isso. Nem chegam a ser saudades, um suspiro. Amarrei-me à leitura obrigada e daí nunca saí. Na falta de quem mande, o esmero na redação de listas. Revejo-as em blocos antigos - guardo papéis, sim. Numa puxada seca tiro a folha da máquina e deixo-a em cima da mesa, para mim. Nos lugares seguros há sempre máquinas de escrever. 

terça-feira, 27 de outubro de 2015

os enamoramentos

As metáforas conjugais também são as minhas preferidas. Serão, porventura, mais difíceis do que as outras porque expõem impiedosamente a incapacidade analítica (e relacional) de quem as profere. O Javier Marías saberia dizer umas coisas sobre esta matéria. Elaborou-as particularmente bem em “Os enamoramentos” que li perto do osso, orgulhosamente, no original em castelhano, mas também em "Coração tão branco". Na nossa imprensa, que na opinião é ainda muito dominada por homens, as metáforas conjugais são fraquinhas e um entendimento político a três vai demonstrar a fragilidade do pensamento, da linguagem (e das relações) de tantos pobres cronistas. Será uma altura divertida para psicoterapeutas lerem jornais. Temos, felizmente, a Ana Sá Lopes, que criou uma personagem para que a metáfora relacional aplicada à política tenha até um nome, Vanessa. Mas eu que adoro a Vanessa desde a primeira hora – e na primeira hora eu andava na faculdade e devorava a coluna ‘Pão e Rosas’ da Ana Sá Lopes enquanto me enterrava nos sofás da cafetaria Continental – comovo-me mesmo com os textos em que a Vanessa fica de fora. Recordo um texto, num fim de ciclo político qualquer, em que a Ana Sá Lopes comparava o arrastar desencantado desses tempos com o último ano de um casamento, quando os dois empurram o carrinho no hipermercado, entorpecidos mas cientes, levando ainda para a frente a familiaridade do gesto. E se houve tanta beleza num texto sobre o fim, imaginemos o que pode ser escrito sobre o princípio.

Portanto, ao contrário desta tese, só vejo boas perspetivas metafóricas num entendimento político a três. Virão as inevitáveis brejeirices, sim, mas à altura das melhores penas estará esse momento - não de uma adorável paixão de liceu ou do fim de uma relação infeliz – do novo e nunca feito. O inédito tem um enorme potencial conjugal. E metafórico.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015




Henriett Ventura e Carlos Pinillos, em "Pedro e Inês", de Olga Roriz, para a Companhia Nacional de Bailado. Fotografia de Bruno Simão



Orgulho-me tanto da minha memória. Que arrogância. Afinal, há 12 anos Ana Lacerda era Inês morta e o que me comoveu às lágrimas foi esse pas de deux com Christian Schwarm. A Inês que ama Pedro na água é interpretada por uma bailarina diferente da Inês morta. A mulher desdobrada em sentido inverso dos dois cisnes. Em “O Lago dos Cisnes” o cisne negro e o cisne branco são dois e sempre a mesma bailarina.

A procura da unidade continua a virar-me para Tatiana e o bailado que mais vi mas nunca ao vivo. Em “Oneguin” há uma mulher que chega à cena final no mesmo corpo, da mesma bailarina. Tatiana é a mesma. Seria condescendente dizer que é outra porque põe Oneguin porta fora quando ele lhe aparece velho mas com os mesmos truques que na juventude conduziram a duelos ao frio e toda a sorte de sarilhos, morte e destruição. Tatiana de dedo estendido a apontar a Oneguin a rua é um comovente gesto de autopreservação tardio. Pode aparecer como a única atitude inteligente de Tatiana, que passa quase todo o bailado entregue à fragilidade de menina, mas só para quem escolha ignorar o salto temporal em que Tatiana se desdobra e cresce longe do espectador. Ela é a mesma porque é outra. É esse o seu propósito, que é tão mais claro quanto posto em contraste com a imaturidade de Oneguin, tornada patética pelo passar do tempo. Respeitemos a heroína romântica, ela merece.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015


Brigitte Bardot


Este é o estado em que se encontra este blogue, na frase cunhada pela Carla Quevedo nos tempos gloriosos da blogoesfera. Saudosismo, sim, mas só da pujança dos blogues, essa fase fantástica em em que todos éramos intelectuais e escrevíamos sobre tudo, sapatos e vestidos incluídos, não havia 'blogues de moda' nem de celebridades bebedoras de sumos 'detox'. Eu sou mais feliz hoje, mas os blogues não. A agrafia deste lugar poderá prolongar-se. É assim que estamos, efetivamente, blogue e eu. Percebo que algo mudou quando vejo nisto uma coisa boa, ou para usar a adjetivação de António Costa, "muito interessante". 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

ligue os pontos

enquanto você  dormia liguei
os pontos sardentos das suas
costas na esperança de que
a caneta esferográfica revelasse
a imagem de algum ser mitológico
de nome proparoxítono o mapa
detalhado de algum tesouro
submerso formasse quem sabe
alguma constelação ruiva oculta
na epiderme e me deparei
com o contorno de um polígono
arbitrário que não me fornecia
metáforas não apontava direções
simplesmente dizia: você está aqui.


                                                                                                                                  Gregorio Duvivier



Gregorio Duvivier lança hoje em Lisboa “Caviar é uma ova”, apresentado por Ricardo Araújo Pereira. Talvez seja do que preciso para acabar com a agrafia deste lugar, proximidade com gente que ama e come a língua portuguesa à colherada e cria e respeita e manda o pomposo às urtigas. Ia dizer um palavrão, quase que saia. Sou tão portuguesa que mete dó. Sem o Brasil a lamber a minha língua era a mesma, mas tão mais triste. 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Há um antes e um depois. Não, a vida não continua como dantes. Isso não. Mas tu tão bem nos soubeste chegar as palavras que nos lembram que não há longe nem distância, meu querido André. Repito-as. Repito-as. Repito-as. 


Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro, ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom, para um triste ou solene.
Continua a rir com aquilo que nos fazia rir juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa
Como sempre se pronunciou
Sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua a significar o que sempre significou:
Continua a ser o que era.
O cordão de união não se quebrou.
Porque estaria eu fora dos teus pensamentos,
Apenas porque estou fora da tua vista?
Não estou longe,
Estou apenas do outro lado do caminho.
Já verás, tudo está bem.
Redescobrirás o meu coração
E nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca as tuas lágrimas e, se me amas,
Não chores mais

Santo Agostinho