quinta-feira, 17 de setembro de 2015

É uma bolha. Pensamos que estamos no centro dos acontecimentos e não podíamos estar mais alheados. O ‘stress’, a privação de sono, o desgaste da cobertura de uma campanha eleitoral são antes de mais uma prova e um prazer. Antes de mais são duas coisas ao mesmo tempo. É assim de esquizofrénico. E só outros jornalistas que já o fizeram (ou políticos) sabem do que estamos a falar. Percebemos isso quando os amigos nos dizem ‘quando passares por Lisboa podemos jantar’. Passar por Lisboa é só trabalhar e dormir umas horas, nessa desconcentração de vir a casa que até dispensávamos. A negação profissionaliza-se durante duas semanas. Para quem gosta é tomar o balanço. Eu só gosto mesmo durante duas semanas, à justa, que ir à procura do que liberta é o que liberta. Mas gosto da vida suspensa com prazo de descer à terra. Vou para a estrada, o blogue fica. Até já.


Marilyn Monroe

sábado, 12 de setembro de 2015

alvoradas

O quartel descaracterizado na paisagem continua a tocar a horas certas. Perco-me no que dizem as cornetas. Alvoradas. Não sei se não se dá por ele se sou eu que o vejo a ouvir. Quer dizer, há guaritas. Os muros terminam naquele arame farpado em forma de estendal. Não vejo militares. Acho que nunca vi. Os que vão ao supermercado são estrangeiros ou têm ar de viajantes. São os da NATO. Os do quartel pequenino, não sei. Um quartel pequenino. Mas é. E toca. Como uma caixa de música às horas lá deles. Alvoradas. Deviam ser todos assim. Infelizmente, não podem ser todos assim, fantasmas de paz no caminho entre o subúrbio e a beira-mar.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

mil e uma noites

Este é um consenso do qual gostava de participar. Antecipei a estreia de “As mil e uma noites”, de Miguel Gomes, com a ansiedade de quem queria muito cinema vindo dos dias da crise. E eu gosto tanto de gostar. Mas pelo menos o primeiro volume da trilogia põe-me de fora da ovação consensual.
Na sequência inicial, que mistura a invasão da vespa asiática com o encerramento dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, um rancho folclórico atua numa praça de Viana e qualquer coisa faz curto-circuito naquela sequência. São os bailarinos. Vestem fato-macaco. São operários que fazem par com as minhotas. Excessivas como só elas, ali estão aquelas mulheres só ouro e vermelho e amarelo e negro, e mais ouro, tudo em demasia, a dançar com homens de fato-macaco. Pensei: que coisa notável, bela e desconcertante. E desejei: vai por aí. Mas não foi.
Para cinema aparentemente militante, tive a sensação que Miguel Gomes se colocava demasiado longe. Uma distância muito grande, seja qual for a classificação que se possa querer fazer ou não fazendo nenhuma. Recebi muitas das escolhas narrativas como efeitos, rodriguinhos. Sobretudo, não gostei da forma como aquelas pessoas foram retratadas. E foi por isso que dei comigo a perguntar “mas porque é que não foi o João Canijo a fazer um filme sobre a crise?”. Talvez ainda vá a tempo. Pensei em João Canijo porque ele trata sempre as suas personagens com um brutal respeito. Não há distância, há imersão, ele é um deles ou pelo menos está efetivamente entre eles. As personagens de João Canijo são sempre simultaneamente reais e ficcionais e os seus filmes na fronteira em que tudo se passa, entre o documentário e a ficção. E João Canijo consegue sempre intelectualizar. No seu cinema está a vida de uma mulher que trabalha numa casa de alterne, os dias de um pescador, de um emigrante português em França, uma mãe do Bairro Padre Cruz. Sem que deixem de ser quem são. Não é falta de intelecto. É respeito e pouco efeito. Venha o segundo volume e mais filmes sobre a crise. Do João Canijo, da Teresa Villaverde. Venham.


terça-feira, 8 de setembro de 2015

a arte da paz

A Plataforma de Apoio aos Refugiados está online.

a 'matriz cristã da Europa'

"Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas; que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa.
Por isso amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egipto."
Deuteronómio 10, 17-19

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

a arte da guerra



“Os generais da causa Stuart intrigavam, alguns travavam mesmo com os ingleses conversações secretas, como é praxe de qualquer guerra entre civilizados. Só os ingénuos, e Deus sabe quão grande era a ingenuidade dos escoceses, entenderiam estas diligências como traição. Não se atraiçoa na política, só se atraiçoa nos romances de aventuras”.



Hélia Correia, “Lillias Fraser”, Relógio d’Água