O quartel descaracterizado na
paisagem continua a tocar a horas certas. Perco-me no que dizem as cornetas. Alvoradas.
Não sei se não se dá por ele se sou eu que o vejo a ouvir. Quer dizer, há
guaritas. Os muros terminam naquele arame farpado em forma de estendal. Não vejo
militares. Acho que nunca vi. Os que vão ao supermercado são estrangeiros ou
têm ar de viajantes. São os da NATO. Os do quartel pequenino, não sei. Um quartel
pequenino. Mas é. E toca. Como uma caixa de música às horas lá deles. Alvoradas.
Deviam ser todos assim. Infelizmente, não podem ser todos assim, fantasmas de paz no caminho entre o subúrbio e a beira-mar.
sábado, 12 de setembro de 2015
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
mil e uma noites
Este é um consenso do qual
gostava de participar. Antecipei a estreia de “As mil e uma noites”, de Miguel
Gomes, com a ansiedade de quem queria muito cinema vindo dos dias da crise. E
eu gosto tanto de gostar. Mas pelo menos o primeiro volume da trilogia põe-me
de fora da ovação consensual.
Na sequência inicial, que mistura
a invasão da vespa asiática com o encerramento dos Estaleiros Navais de Viana
do Castelo, um rancho folclórico atua numa praça de Viana e qualquer coisa faz
curto-circuito naquela sequência. São os bailarinos. Vestem fato-macaco. São
operários que fazem par com as minhotas. Excessivas como só elas, ali estão aquelas
mulheres só ouro e vermelho e amarelo e negro, e mais ouro, tudo em demasia, a
dançar com homens de fato-macaco. Pensei: que coisa notável, bela e
desconcertante. E desejei: vai por aí. Mas não foi.
Para cinema aparentemente
militante, tive a sensação que Miguel Gomes se colocava demasiado longe. Uma
distância muito grande, seja qual for a classificação que se possa querer fazer
ou não fazendo nenhuma. Recebi muitas das escolhas narrativas como efeitos,
rodriguinhos. Sobretudo, não gostei da forma como aquelas pessoas foram
retratadas. E foi por isso que dei comigo a perguntar “mas porque é que não foi
o João Canijo a fazer um filme sobre a crise?”. Talvez ainda vá a tempo. Pensei
em João Canijo porque ele trata sempre as suas personagens com um brutal
respeito. Não há distância, há imersão, ele é um deles ou pelo menos está
efetivamente entre eles. As personagens de João Canijo são sempre
simultaneamente reais e ficcionais e os seus filmes na fronteira em que tudo se
passa, entre o documentário e a ficção. E João Canijo consegue sempre intelectualizar.
No seu cinema está a vida de uma mulher que trabalha numa casa de alterne, os
dias de um pescador, de um emigrante português em França, uma mãe do Bairro Padre
Cruz. Sem que deixem de ser quem são. Não é falta de intelecto. É respeito e
pouco efeito. Venha o segundo volume e mais filmes sobre a crise. Do João Canijo, da Teresa Villaverde. Venham.
terça-feira, 8 de setembro de 2015
a 'matriz cristã da Europa'
"Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas; que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa.
Por isso amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egipto."
Deuteronómio 10, 17-19
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
a arte da guerra
“Os generais da causa Stuart
intrigavam, alguns travavam mesmo com os ingleses conversações secretas, como é
praxe de qualquer guerra entre civilizados. Só os ingénuos, e Deus sabe quão
grande era a ingenuidade dos escoceses, entenderiam estas diligências como traição.
Não se atraiçoa na política, só se atraiçoa nos romances de aventuras”.
Hélia Correia, “Lillias Fraser”,
Relógio d’Água
domingo, 6 de setembro de 2015
despir
Primeiro pensei: dêem-me uma mulher que se dispa e que eu consiga defender. Como acho que nestas coisas o contexto tem mesmo de ser expurgado, forcei-me. Depois, comecei a perceber que não era o contexto. Era o coração da ação que tinha muito pouco a ver com uma mulher e com um corpo feito público. Desinteressei-me do caso.
sábado, 5 de setembro de 2015
"Study for the Spanish Dance", John Singer Sargent, 1879, coleção particular.
Hei-de descobrir mais pistas para a dança ser das artes mais difíceis de representar por outras, por enquanto tenho muito poucas. Mas a constatação cresce. E a exceção ilustra-o tão bem. Talvez isto aconteça com tudo - os clichés, a falta de esforço para encontrar verdade - e eu o veja apenas neste caso. A hipótese de a dança ser um expurgo do acessório noutras artes terá de estar afetada pelo enorme amor que lhe tenho. É isso, só pode ser isso.
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