quarta-feira, 9 de setembro de 2015

mil e uma noites

Este é um consenso do qual gostava de participar. Antecipei a estreia de “As mil e uma noites”, de Miguel Gomes, com a ansiedade de quem queria muito cinema vindo dos dias da crise. E eu gosto tanto de gostar. Mas pelo menos o primeiro volume da trilogia põe-me de fora da ovação consensual.
Na sequência inicial, que mistura a invasão da vespa asiática com o encerramento dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, um rancho folclórico atua numa praça de Viana e qualquer coisa faz curto-circuito naquela sequência. São os bailarinos. Vestem fato-macaco. São operários que fazem par com as minhotas. Excessivas como só elas, ali estão aquelas mulheres só ouro e vermelho e amarelo e negro, e mais ouro, tudo em demasia, a dançar com homens de fato-macaco. Pensei: que coisa notável, bela e desconcertante. E desejei: vai por aí. Mas não foi.
Para cinema aparentemente militante, tive a sensação que Miguel Gomes se colocava demasiado longe. Uma distância muito grande, seja qual for a classificação que se possa querer fazer ou não fazendo nenhuma. Recebi muitas das escolhas narrativas como efeitos, rodriguinhos. Sobretudo, não gostei da forma como aquelas pessoas foram retratadas. E foi por isso que dei comigo a perguntar “mas porque é que não foi o João Canijo a fazer um filme sobre a crise?”. Talvez ainda vá a tempo. Pensei em João Canijo porque ele trata sempre as suas personagens com um brutal respeito. Não há distância, há imersão, ele é um deles ou pelo menos está efetivamente entre eles. As personagens de João Canijo são sempre simultaneamente reais e ficcionais e os seus filmes na fronteira em que tudo se passa, entre o documentário e a ficção. E João Canijo consegue sempre intelectualizar. No seu cinema está a vida de uma mulher que trabalha numa casa de alterne, os dias de um pescador, de um emigrante português em França, uma mãe do Bairro Padre Cruz. Sem que deixem de ser quem são. Não é falta de intelecto. É respeito e pouco efeito. Venha o segundo volume e mais filmes sobre a crise. Do João Canijo, da Teresa Villaverde. Venham.


terça-feira, 8 de setembro de 2015

a arte da paz

A Plataforma de Apoio aos Refugiados está online.

a 'matriz cristã da Europa'

"Pois o Senhor vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita recompensas; que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa.
Por isso amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egipto."
Deuteronómio 10, 17-19

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

a arte da guerra



“Os generais da causa Stuart intrigavam, alguns travavam mesmo com os ingleses conversações secretas, como é praxe de qualquer guerra entre civilizados. Só os ingénuos, e Deus sabe quão grande era a ingenuidade dos escoceses, entenderiam estas diligências como traição. Não se atraiçoa na política, só se atraiçoa nos romances de aventuras”.



Hélia Correia, “Lillias Fraser”, Relógio d’Água

domingo, 6 de setembro de 2015

despir

Primeiro pensei: dêem-me uma mulher que se dispa e que eu consiga defender. Como acho que nestas coisas o contexto tem mesmo de ser expurgado, forcei-me. Depois, comecei a perceber que não era o contexto. Era o coração da ação que tinha muito pouco a ver com uma mulher e com um corpo feito público. Desinteressei-me do caso.

sábado, 5 de setembro de 2015


"Study for the Spanish Dance", John Singer Sargent, 1879, coleção particular.


Hei-de descobrir mais pistas para a dança ser das artes mais difíceis de representar por outras, por enquanto tenho muito poucas. Mas a constatação cresce. E a exceção ilustra-o tão bem. Talvez isto aconteça com tudo - os clichés, a falta de esforço para encontrar verdade - e eu o veja apenas neste caso. A hipótese de a dança ser um expurgo do acessório noutras artes terá de estar afetada pelo enorme amor que lhe tenho. É isso, só pode ser isso.

terça-feira, 1 de setembro de 2015



Liza Minelli e Bob Fosse, rodagem de "Cabaret"



“No entanto, apesar de todas as brincadeiras de Bernhard a festa não resultou. As pessoas repartiram-se em grupos e cliques; e mesmo quando a paródia estava no auge, pelo menos uma quarta parte dos convidados falava de política em voz baixa e com um ar grave. De facto, alguns tinham vindo a casa de Bernhard apenas para se encontrarem uns com os outros e discutirem os seus assuntos particulares, e nem se deram ao trabalho de fingir que tomavam parte nas atividades sociais. Poderiam igualmente estar nos escritórios ou em casa.
Ao escurecer, uma rapariga começou a cantar. Cantava em russo e, como sempre, a canção era triste. Os criados trouxeram copos e uma grande taça de ponche. Começou a ficar frio. Havia milhões de estrelas no céu. No grande lago de águas tranquilas, os últimos barcos à vela balouçavam como fantasmas com a brisa suave e incerta da noite. O gramofone continuava a tocar. Encostei-me às almofadas, ouvindo um cirurgião judeu que sustentava que a França não podia compreender a Alemanha porque nunca tinha experimentado nada comparável com o ambiente neurótico do pós-guerra alemão. Uma rapariga no meio de um grupo de rapazes soltou uma grande risada estridente. Lá longe, na cidade, contavam-se os votos. Pensei em Natalia: escapara-se – talvez na altura certa. Por muito adiada que a decisão possa ser, toda a gente está condenada. Esta noite decorrem os ensaios de uma catástrofe. Esta noite é a última de uma época”.

“Adeus a Berlim”, Christopher Isherwood.