domingo, 6 de setembro de 2015

despir

Primeiro pensei: dêem-me uma mulher que se dispa e que eu consiga defender. Como acho que nestas coisas o contexto tem mesmo de ser expurgado, forcei-me. Depois, comecei a perceber que não era o contexto. Era o coração da ação que tinha muito pouco a ver com uma mulher e com um corpo feito público. Desinteressei-me do caso.

sábado, 5 de setembro de 2015


"Study for the Spanish Dance", John Singer Sargent, 1879, coleção particular.


Hei-de descobrir mais pistas para a dança ser das artes mais difíceis de representar por outras, por enquanto tenho muito poucas. Mas a constatação cresce. E a exceção ilustra-o tão bem. Talvez isto aconteça com tudo - os clichés, a falta de esforço para encontrar verdade - e eu o veja apenas neste caso. A hipótese de a dança ser um expurgo do acessório noutras artes terá de estar afetada pelo enorme amor que lhe tenho. É isso, só pode ser isso.

terça-feira, 1 de setembro de 2015



Liza Minelli e Bob Fosse, rodagem de "Cabaret"



“No entanto, apesar de todas as brincadeiras de Bernhard a festa não resultou. As pessoas repartiram-se em grupos e cliques; e mesmo quando a paródia estava no auge, pelo menos uma quarta parte dos convidados falava de política em voz baixa e com um ar grave. De facto, alguns tinham vindo a casa de Bernhard apenas para se encontrarem uns com os outros e discutirem os seus assuntos particulares, e nem se deram ao trabalho de fingir que tomavam parte nas atividades sociais. Poderiam igualmente estar nos escritórios ou em casa.
Ao escurecer, uma rapariga começou a cantar. Cantava em russo e, como sempre, a canção era triste. Os criados trouxeram copos e uma grande taça de ponche. Começou a ficar frio. Havia milhões de estrelas no céu. No grande lago de águas tranquilas, os últimos barcos à vela balouçavam como fantasmas com a brisa suave e incerta da noite. O gramofone continuava a tocar. Encostei-me às almofadas, ouvindo um cirurgião judeu que sustentava que a França não podia compreender a Alemanha porque nunca tinha experimentado nada comparável com o ambiente neurótico do pós-guerra alemão. Uma rapariga no meio de um grupo de rapazes soltou uma grande risada estridente. Lá longe, na cidade, contavam-se os votos. Pensei em Natalia: escapara-se – talvez na altura certa. Por muito adiada que a decisão possa ser, toda a gente está condenada. Esta noite decorrem os ensaios de uma catástrofe. Esta noite é a última de uma época”.

“Adeus a Berlim”, Christopher Isherwood.



domingo, 30 de agosto de 2015

as pessoas normais não têm nada de especial


A comédia romântica é um género que tem sido tão maltratado por Hollywood nos últimos dez anos, que talvez seja melhor repensar a proveniência. Este filme é um tesouro escrito, realizado e protagonizado por Leticia Dolera, com uma banda sonora igual de preciosa. Bom e bonito como uma tarde domingo. Uma tarde de domingo real, não normal. Já dizia o outro, o outro filme, as pessoas normais não têm nada de especial

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O que deixamos por fazer abre caminhos. Não é sequer a perspetiva de voltar, mas de saber que se há de cumprir, mesmo que de outra forma ou noutro lugar. Talvez seja isto a fé.  Não isto, mas a paz nisto. A paz que deixa ver. 



Bastidores do Bolshoy, 1983, por Vladimir Vytkin, na retrospetiva de sete décadas de fotografia soviética
O teatro Bolshoi, de Moscovo, e o Marinski, de São Petersburgo, estão obviamente encerrados em agosto.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

atadas pelos pés

Saber fazer uma mala é uma arte que envolve sacrifícios. Assim, os sapatos de salto alto ficaram em casa. Em seu lugar, uns rasos que tenho por elegantes e um vestido vermelho que acabaram por não ver a luz do dia ou da noite. O peso e volume também ditaram que “Anna Karenina” não me acompanhasse. As peças de Tchekhov foram e a Judith Butler também. “Gender trouble” traduzido para espanhol, convertido em “El género en disputa”. Um pouco como fazer uma mala, a Butler em espanhol compensa o feio que soa com a clareza bizarra que ganhei ao trocar o inglês nativo da obra pela proximidade linguística.

Não sei se foi da bagagem, mas as mulheres russas apareceram-me com uma clareza que quis recusar por pudor em fabricar juízos tão rápidos, mas que não consegui aplacar por muito tempo. À minha volta, um exército de mulheres fazia turismo – sobretudo em Moscovo, onde os turistas são praticamente apenas russos – impecavelmente vestidas e penteadas. E de saltos altos. Agulhas, tacões, plataformas. Muitas sandálias de salto agulha, creio que posso estabelecer a prevalência. O ‘overdressing’ é um conceito pouco manuseado por aquelas bandas. Quando observava os grupos dos casamentos que enxameiam os monumentos para tirar fotografias, noivos incluídos, as comuns turistas nacionais só ligeiramente se distinguiam por um quê menos de brilho.

A indumentária gritava uma clivagem de género tão primária que apetecia esfregar os olhos e olhar de novo. Os homens com quem aquelas mulheres vaporosas caminhavam de mãos dadas usavam roupa desportiva, ténis, muitas vezes, calções. E não, não é ‘kitsch’. É triste. Questiono-me se posso colocar as coisas em termos de escala, de moderação, de otimização de saltos altos confortáveis (sim, existem). Quem sou eu para julgar mulheres que fazem turismo de saltos altos se eu vou trabalhar tantas vezes de saltos altos, mesmo que os julgue confortáveis? Provavelmente, não iria a uma entrevista de trabalho sem eles. Mesmo com dúvidas, digo, os sapatos de salto alto com que gosto de me calçar, que gosto de ver em pés alheios, se usados em permanência não são bonitos, nem são sapatos, são grilhetas. Não me sai da cabeça que com aqueles saltos inevitavelmente não se chega muito longe. 





Esta imagem interpelou-me no Museu de História Política, em São Petersburgo. Guardei-a, mesmo não sabendo de quem se trata, nem do que tratava este segmento da exposição (uma amálgama de temas, em que a secretária de Lenine e o espólio de uma bailarina famosa conviviam com 'memorabilia' dos Jogos Olímpicos de Moscovo). Insufla uma esperança inexplicável, aquela que se tem perante a inquietação por canalizar. 

sábado, 22 de agosto de 2015