A comédia romântica é um género que tem sido tão maltratado por Hollywood nos últimos dez anos, que talvez seja melhor repensar a proveniência. Este filme é um tesouro escrito, realizado e protagonizado por Leticia Dolera, com uma banda sonora igual de preciosa. Bom e bonito como uma tarde domingo. Uma tarde de domingo real, não normal. Já dizia o outro, o outro filme, as pessoas normais não têm nada de especial.
domingo, 30 de agosto de 2015
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
O que deixamos por fazer abre caminhos. Não é sequer a perspetiva de voltar, mas de saber que se há de cumprir, mesmo que de outra forma ou noutro lugar. Talvez seja isto a fé. Não isto, mas a paz nisto. A paz que deixa ver.
Bastidores do Bolshoy, 1983, por Vladimir Vytkin, na
retrospetiva de sete décadas de fotografia soviética.
O teatro Bolshoi, de
Moscovo, e o Marinski, de São Petersburgo, estão obviamente encerrados em agosto.
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
atadas pelos pés
Saber fazer uma mala é uma arte que
envolve sacrifícios. Assim, os sapatos de salto alto ficaram em casa. Em seu
lugar, uns rasos que tenho por elegantes e um vestido vermelho que acabaram por
não ver a luz do dia ou da noite. O peso e volume também ditaram que “Anna Karenina”
não me acompanhasse. As peças de Tchekhov foram e a Judith Butler também. “Gender
trouble” traduzido para espanhol, convertido em “El género en disputa”. Um
pouco como fazer uma mala, a Butler em espanhol compensa o feio que soa com a
clareza bizarra que ganhei ao trocar o inglês nativo da obra pela proximidade linguística.
Não sei se foi da bagagem, mas as
mulheres russas apareceram-me com uma clareza que quis recusar por pudor em
fabricar juízos tão rápidos, mas que não consegui aplacar por muito tempo. À minha
volta, um exército de mulheres fazia turismo – sobretudo em Moscovo, onde os
turistas são praticamente apenas russos – impecavelmente vestidas e penteadas. E
de saltos altos. Agulhas, tacões, plataformas. Muitas sandálias de salto
agulha, creio que posso estabelecer a prevalência. O ‘overdressing’ é um
conceito pouco manuseado por aquelas bandas. Quando observava os grupos dos
casamentos que enxameiam os monumentos para tirar fotografias, noivos incluídos,
as comuns turistas nacionais só ligeiramente se distinguiam por um quê menos de
brilho.
A indumentária gritava uma clivagem de género tão primária que apetecia esfregar os olhos e olhar de novo. Os homens com quem aquelas mulheres vaporosas caminhavam de mãos dadas usavam roupa desportiva, ténis, muitas vezes, calções. E não, não é ‘kitsch’. É triste. Questiono-me se posso colocar as coisas em termos de escala, de moderação, de otimização de saltos altos confortáveis (sim, existem). Quem sou eu para julgar mulheres que fazem turismo de saltos altos se eu vou trabalhar tantas vezes de saltos altos, mesmo que os julgue confortáveis? Provavelmente, não iria a uma entrevista de trabalho sem eles. Mesmo com dúvidas, digo, os sapatos de salto alto com que gosto de me calçar, que gosto de ver em pés alheios, se usados em permanência não são bonitos, nem são sapatos, são grilhetas. Não me sai da cabeça que com aqueles saltos inevitavelmente não se chega muito longe.
A indumentária gritava uma clivagem de género tão primária que apetecia esfregar os olhos e olhar de novo. Os homens com quem aquelas mulheres vaporosas caminhavam de mãos dadas usavam roupa desportiva, ténis, muitas vezes, calções. E não, não é ‘kitsch’. É triste. Questiono-me se posso colocar as coisas em termos de escala, de moderação, de otimização de saltos altos confortáveis (sim, existem). Quem sou eu para julgar mulheres que fazem turismo de saltos altos se eu vou trabalhar tantas vezes de saltos altos, mesmo que os julgue confortáveis? Provavelmente, não iria a uma entrevista de trabalho sem eles. Mesmo com dúvidas, digo, os sapatos de salto alto com que gosto de me calçar, que gosto de ver em pés alheios, se usados em permanência não são bonitos, nem são sapatos, são grilhetas. Não me sai da cabeça que com aqueles saltos inevitavelmente não se chega muito longe.
Esta imagem interpelou-me no Museu de História Política, em São Petersburgo. Guardei-a, mesmo não sabendo de quem se trata, nem do que tratava este segmento da exposição (uma amálgama de temas, em que a secretária de Lenine e o espólio de uma bailarina famosa conviviam com 'memorabilia' dos Jogos Olímpicos de Moscovo). Insufla uma esperança inexplicável, aquela que se tem perante a inquietação por canalizar.
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
terça-feira, 18 de agosto de 2015
em Moscovo
“Em Moscovo, sento-me numa sala
enorme de um restaurante, não conheço ninguém, ninguém me conhece, e mesmo
assim não me sinto estranho. Mas aqui, conheço toda a gente, toda a gente me
conhece, mas sinto-me um estranho, um estranho. Estranho e sozinho”.
Andrei sonha com Moscovo em “Três Irmãs”, de Tchékhov, edição Relógio D´Água.
Café Pushkin, Moscovo, agosto de 2015.
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