Há tempos uma vendedora de
telemarketing ligou-me para saber se eu estava interessada numa coleção de
livros sobre as rainhas de Portugal. Percebi pela conversa que deviam ser as
mulheres dos reis porque a senhora introduziu a mais-valia das obras dizendo
que elas influenciavam muito os maridos. Declinei, agradeci e desliguei. A morte
de Maria de Jesus Barroso foi assinalada na imprensa portuguesa com trabalhos
de fundo ou até em pequenos apontamentos narrativos que partem da mesma lógica
daquela trabalhadora de telemarketing. Não é só o ‘por de trás de um grande
homem está sempre uma grande mulher’, é apresentar uma mulher que foi
tantíssimas coisas por direito e de moto próprio como alguém que viveu nos
bastidores e neles influenciou decisões políticas. Se a primeira frase é
condescendente, paternalista e, como disse a jornalista Barbária Baldeia nas
redes sociais, tantas vezes mentirosa, a segunda construção, parente da
primeira, talvez consiga ser mais desprezível. É que mesmo quando envolta num
manto de bondade, insiste em apresentar as mulheres como uma espécie de cobras
na sombra, que conspiram, mesmo que para o bem, e levam a sua avante, mesmo que
abdicando e sacrificando-se. É uma doença narrativa. E tem de acabar. Temos de
começar a pensar nas imagens que veiculamos quando escrevemos. Estas representações
do ‘feminino’ não são apenas machistas, misóginas, foleiras e de mau gosto, são
irresponsáveis. Maria Barroso foi combatente antifascista, fundadora do PS, foi
deputada, foi atriz, declamadora, pedagoga, ativista pelos direitos humanos, liderou
a fundação Pro Dignitate. Tenhamos o devido apego aos factos e, depois de os termos bem
presentes, contemos histórias interessantes.
terça-feira, 7 de julho de 2015
segunda-feira, 6 de julho de 2015
Kirk Douglas, fotografia de Vivian Maier
Há mistério no processo de sobrevivência
de um objeto artístico. Entre a fama em vida e o esquecimento posterior e a miséria
em vida e o Olimpo reparador há gradações. E mistério. “Finding Vivian Maier”
faz também essa reflexão, a partir da questão ética de estar a dar a conhecer o
trabalho de alguém que podia não o querer. O dilema resolve-se da forma mais
simples para o documentarista, Vivian Maier quis dar a conhecer o seu trabalho,
que ele próprio resgatou de um leilão esconso. Ele é um pirata mais ou menos
bondoso que, não sabendo o que tinha em mãos, queria ter um tesouro em mãos. Isso
fará toda a diferença. Talvez a reflexão fosse mais interessante se o
documentarista aventureiro não descobrisse a mínima pista sobre as intenções da
fotógrafa e, perante a desmultiplicação da sua personalidade materializada nas opiniões
dos outros, ficaríamos ainda mais perdidos. Como Vivian, com uma câmara na mão deambulando pelas ruas.
domingo, 5 de julho de 2015
inside out
Inside Out é um filme tão importante que felizmente é para crianças. É talvez difícil para elas e para alguns adultos, como diz a Carla. E nos tempos da ditadura da 'felicidade', sempre a emitir sinais para programar bronzeados e musculados leitores de frases motivacionais, o último filme da Pixar mostra a importância de todas as emoções, sobretudo da tristeza. Como escreveu a Carla: "Só a tristeza é capaz de pôr as coisas no seu lugar e dar espaço à alegria de saber o que não pode perder".
segunda-feira, 29 de junho de 2015
domingo, 28 de junho de 2015
Mark Ruffalo e Matt Bomer, em "The normal heart", de Ryan Murphy.
Nos momentos de orgulho é (também) bom revisitar a luta e a dor e, sobretudo, as dores da luta. E sim, um telefilme pode ser notável.
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