quarta-feira, 22 de abril de 2015


"Um ano muito violento" ("A most violent year"), de J. C. Chandor


O potencial cinematográfico da neve está longe de estar cumprido. Assim, posso e devo ansiar por mais planos como este. Há coisas que só podem passar-se no inverno rigoroso. Coisas boas.

domingo, 19 de abril de 2015

desfocar

"Isto é o prazer de Barrett, a sua constante demanda. Projeto Síntese Excêntrica. É um álbum de recortes mental: uma árvore genealógica imaginária, não de antepassados, mas de acontecimentos, circunstancias e estados de desejo.
Está a começar por Madame Bovary apenas porque é o seu romance preferido. Porque tem de se começar por qualquer lado.

É evidente que não leva a lado nenhum. Não concretiza nada. Porém, ele está, pensa, (espera), com esta simples tarefa e estes projetos não almejados e impublicáveis, a fazer progressos. É um funcionário que muda a mercadoria de sítio e isso basta, é precisamente suficiente, para apoiar e contrabalançar estudos que não têm destino conhecido, nem leitores futuros, que não prometem qualquer discurso erudito ou refutação."

Michael Cunningham, A Rainha da Neve,Gradiva

Anseio pelos romances de Cunningham como ansiava pelo episódio de uma novela de Manoel Carlos que passava às 19:00 durante o meu 12º ano. Era um consolo tão eficaz, certo como a sua hora marcada. Estudei tanto nesse ano, desiludi-me tanto com pessoas, e tomei a atitude certa: continuar a estudar. Tudo tinha horas certas, contabilizava as horas de estudo, de sono e de lazer. Praticamente não vi televisão à noite durante esse ano letivo, mas às sete lá estava, naquele sofá desconfortável com braços em ferro de que a minha Mãe só se livrou recentemente. É bom ter um consolo assim.
Nesse ano eu fui o expoente máximo da concentração, do estar focado para conseguir, e se hoje lamento ter perdido anos sem essa determinação, também sei que a desconcentração é boa e devia ser mais permitida. Precisamos dela para ser criativos, para ligar coisas. Só ter tempo para deixar que as coisas se liguem as vai fazer ligarem-se. A desconcentração devia ser mais permitida. Até louvada. 

sábado, 18 de abril de 2015

serei a louca

"Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas". Pois somos. E de inventar aquilo que outras já tinha descoberto antes de nós. Depois de um concerto de Capicua, como o de quinta-feira no Lux, é difícil não sorrir de otimismo. O sorriso otimista é aquele movimento que permanece, que não é eufórico, mas é mesmo alegre. Depois de uma revista norte-americana ter acenado com a morte da palavra feminista - coitadinha, por falta de uso -, uma série de figuras do mainstream vieram reclamar-se feministas, e nem foi em reação, creio. Foi só. Eu sou feminista, disse a Taylor Swift. Eu sou feminista, disse a Emma Watson. Eu sou super feminista, disse a Lena Dunham, a maravilhosa autora e protagonista da série "Girls". Por cá, no cantinho machista com vista para o mar, temos uma poeta para nos cantar. Temos uma poeta para nos inquietar. Que orgulho. A Capicua foi das melhores coisas que nos aconteceram.


Capicua, por Vera Marmelo, mais fotos lindas para ver aqui.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

padarias apátridas

A proliferação de ‘padarias portuguesas’ e suas congéneres está a ter óbvias consequências na generalização do comércio de péssimo pão, mas tem também outras, talvez menos notadas. Os pães de Deus entraram num processo de deformação que mete dó, grandes e descuidados, como que atirados sem amor para um forno que não tem melhor remédio do que cosê-los assim, mal-amados. E se uns engordam sem critério outros emagrecem com equivalente tragédia. Mil-folhas não é apenas uma designação bonita e o título de um álbum de Sonic Youth. O nome tem que existir em relação efetiva com as camadas suficientes de massa folhada que o justificam. Sob pena de se tornar a ilustração para qualquer infeliz tese semiótica, há que resgatar os mil-folhas a estas pastelarias de hipermercado e devolver-lhes as folhas que os fazem ser o que são. 

sábado, 11 de abril de 2015

deixar de fumar #2

Além de considerações desta natureza, há que esperar a faceta animalesca de deixar de fumar.


Uma senhora acorda inspirada e feliz por ter duas pequenas postas de peixe cozido no frigorífico. Por uma senhora quero dizer eu mesma. Levo para o trabalho peixe cozido com brócolos para o almoço e no autocarro sinto-me aquela pessoa que leva peixe cozido com brócolos para o almoço. Não só levava de casa o almoço como aquele consistia em peixe cozido com brócolos. Repito o menu porque a ideia reconfortou-me, de facto, mais do que o que comi. Até meio da tarde eu era frugal e não consumia comida processada. Até que a meio da tarde, meio da tarde de sexta-feira, devo sublinhar, isto foi ontem - tinha uma semana de trabalho e deveres de estudo no lombo -, devorei um pacote inteiro de cajus. Assim, puf. Cajus fritos. Puf. Um pacote enorme, comprado numa loja, não uma pequena embalagem para consumo em cervejaria. Puf. Cajus fritos comprados na novel mercearia açoriana na Rua da Madalena. Tudo muito civilizado. Puf.  

quinta-feira, 9 de abril de 2015


Sofia Vergara na edição espanhola da “Vanity Fair”, em julho de 2012. No próximo número da edição norte-americana, de novo rubra, é fotografada por Annie Leibovitz.


Será uma coisa típica de pré-35 anos, mas abraço o cliché, que é para isso que ele existe. Parece que deixei de fumar ou estou em processo para tal. Desta vez é a sério, desta vez é que é. Melhor, desta vez tem mesmo que ser. É qualquer coisa que oiço o corpo a dizer-me, numa voz grave e pausada, mal disfarçando uma paciência que não tem perante as promessas desfeitas. Quando as quebrei não ouvia vozes.
Não, não tem graça nenhuma. Não envolve nenhuma ressurreição de pacotilha para consumir com fotografias de exercício físico no instagram. É apenas a decisão de um corpo que gosta de o ser e que gosta muito de fumar. Abdicar de um prazer é uma desgraça. Deixar de fumar é como perder um amigo. Ouvi-o de uma velha fumadora numa redação, santuário perdido do ato sagrado de escrever e fumar num mesmo movimento. Agora que sei da perda, vou chorá-la, retirar-me dentro da dor e vestir luto. Vermelho parece-me adequado.