A câmara tosca do meu telemóvel fixou
este desenho de José Escada, de 1980. É dos seus últimos trabalhos, os
primeiros acessíveis a quem entra na galeria de São Roque, na rua de São Bento,
para encontrar a exposição “José Escada, um príncipe fora do tempo”. Agora penso
que se não fora da sua última fase talvez não me tivesse encantado assim. Este
traço (os olhos, os olhos) e a ausência de cor seriam outros sem a diversidade
do que ficou para trás. Depuração? Talvez. É um conceito que não domino bem. Depois de ver toda a exposição,
voltei aos primeiros desenhos, por força da organização do espaço e porque
queria ficar a sós com eles, com este sobretudo. É do ano do meu nascimento,
que é um ego- detalhe que me toca inevitavelmente. Não consegui a solidão com o
quadro. Não é só o meu reflexo que se vê na fotografia, é também o do
galerista.
Apesar dos antiquários, apesar de
lá ter vivido Amália, apesar de ligar zonas da cidade que absolutamente adoro,
a rua de São Bento é um corredor opressor, a visão terrena de um passadiço de
entrada no Purgatório. Na melhor definição de uma amiga, a rua de São Bento tem
mau ‘karma’. Estou por isso vitoriosa. Até ao final de dezembro há uma porta para fora do Purgatório. Fica no número 269.