sábado, 25 de outubro de 2014
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
"Leaving Las Vegas", de Nirav Patel
No cabeçalho está agora uma imagem de Nirav Patel, a quem
pertence também este corte geológico de uma partida.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Keira Knightley
Há uma coisa chamada ‘street style’,
que aparentemente consiste em encenar fotografias de pessoas a andar
na rua. Não raras vezes estas pessoas - famosas e anónimas, quase todas tornadas
famosas pela repetição fotográfica da sua moda de rua -, usam várias camadas de roupa, botas (mesmo
com calor), óculos escuros e cabelos penteados para estarem despenteados. São
quase sempre pessoas bonitas, daquelas em que qualquer trapinho assenta bem. Tem
a sua graça, mas eu continuo a preferir ver pessoas previamente famosas por
motivos alheios ao facto de andarem na rua, que saíram de casa com um propósito (almoçar estando entre os melhores), idealmente enfiadas num vestido ao alcance de uma boa modista em qualquer parte do mundo.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
livros nas pessoas e na cidade#2
A biblioteca do meu bairro está
rodeada de árvores. Lá dentro, posso fingir que não sei onde estou. As janelas são
altas e são muitas, mas o que dão a ver é só um
bairro. Pode ser qualquer um e é assim eu o sinto já meu.
terça-feira, 21 de outubro de 2014
livros nas pessoas e na cidade
Deixei o trilho e subi a pequena elevação
de terra e relva fina e deparei com o homem que lia à sombra da ponte Vasco da
Gama. Se alguém vai correr para ali, também pode ir ler para ali, parecia dizer
o nosso espanto um ao outro. O sítio é fresco, como senti logo nos pés, aliviados
subitamente por um orvalho que atravessou os ténis, um alento no calor absurdo
de quase novembro. O homem estava sentado numa cadeira de praia, daquelas às
quais a portabilidade retirou muito pouca dignidade, ao ponto de serem ainda,
de facto, cadeiras. Tinha encaixado entre o colo e o braço da cadeira um jornal
ou vários. A cabeça curvada de lado, num gesto que é uma graça moldada pela sobreposição
do tempo com o tempo passado a ler. Ergueu ligeiramente a cabeça, momento concedido
ao tal pequeno espanto quando me viu, e voltou à leitura de Piketty, a edição portuguesa
acabada de sair de “O Capital do século XXI”. Eu não tive outro remédio que não
fosse continuar a correr com o fresco nos pés. Ainda pensei tirar uma
fotografia. Que ideia, e segui.
terça-feira, 14 de outubro de 2014
o véu e o gatilho
A liberdade criativa deve ser um
dado adquirido. A criação estar sujeita à crítica e à discussão públicas é
outra coisa que deve ser um dado adquirido numa sociedade democrática. Filipe
Faísca, no uso da sua liberdade criativa, apresentou na ModaLisboa uma coleção
em que as mulheres estão com a cara coberta por um véu. Uma pesquisa de
notícias mostra a neutralidade com que este aspeto foi tratado pela imprensa. Nalguns
casos, o elemento ‘véu’ está ausente de um relato que se destina quase exclusivamente
a informar o que pessoas, neste caso, mulheres, levam vestido. Não é só o peso
que as questões de género (não) têm nas decisões editoriais, é simplesmente não
ver a notícia, é falhar um ‘lead’. Costumo ter pudor em articular estas afirmações,
mas este caso é flagrante: é mau jornalismo. Em pleno combate ao Estado Islâmico
uma fila de mulheres de lenço no rosto parece não ter intrigado ninguém. Uma
fila de mulheres com os rostos cobertos por véus não puxou o gatilho do
pensamento de ninguém? Quase ninguém. A exceção de que dei conta foi o Diário
de Notícias, que na segunda-feira chamava o assunto à primeira página: "Estilista
usa véus na ModaLisboa mas recusa intenção pública". Filipe Faísca recusa
o que quiser, eu recuso esta coleção.
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