quinta-feira, 23 de outubro de 2014


Keira Knightley

Há uma coisa chamada ‘street style’, que aparentemente consiste em encenar fotografias de pessoas a andar na rua. Não raras vezes estas pessoas - famosas e anónimas, quase todas tornadas famosas pela repetição fotográfica da sua moda de rua -, usam várias camadas de roupa, botas (mesmo com calor), óculos escuros e cabelos penteados para estarem despenteados. São quase sempre pessoas bonitas, daquelas em que qualquer trapinho assenta bem. Tem a sua graça, mas eu continuo a preferir ver pessoas previamente famosas por motivos alheios ao facto de andarem na rua, que saíram de casa com um propósito (almoçar estando entre os melhores), idealmente enfiadas num vestido ao alcance de uma boa modista em qualquer parte do mundo.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

livros nas pessoas e na cidade#2



A biblioteca do meu bairro está rodeada de árvores. Lá dentro, posso fingir que não sei onde estou. As janelas são altas e são muitas, mas o que dão a ver é só um bairro. Pode ser qualquer um e é assim eu o sinto já meu. 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

livros nas pessoas e na cidade


Deixei o trilho e subi a pequena elevação de terra e relva fina e deparei com o homem que lia à sombra da ponte Vasco da Gama. Se alguém vai correr para ali, também pode ir ler para ali, parecia dizer o nosso espanto um ao outro. O sítio é fresco, como senti logo nos pés, aliviados subitamente por um orvalho que atravessou os ténis, um alento no calor absurdo de quase novembro. O homem estava sentado numa cadeira de praia, daquelas às quais a portabilidade retirou muito pouca dignidade, ao ponto de serem ainda, de facto, cadeiras. Tinha encaixado entre o colo e o braço da cadeira um jornal ou vários. A cabeça curvada de lado, num gesto que é uma graça moldada pela sobreposição do tempo com o tempo passado a ler. Ergueu ligeiramente a cabeça, momento concedido ao tal pequeno espanto quando me viu, e voltou à leitura de Piketty, a edição portuguesa acabada de sair de “O Capital do século XXI”. Eu não tive outro remédio que não fosse continuar a correr com o fresco nos pés. Ainda pensei tirar uma fotografia. Que ideia, e segui.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

o véu e o gatilho



A liberdade criativa deve ser um dado adquirido. A criação estar sujeita à crítica e à discussão públicas é outra coisa que deve ser um dado adquirido numa sociedade democrática. Filipe Faísca, no uso da sua liberdade criativa, apresentou na ModaLisboa uma coleção em que as mulheres estão com a cara coberta por um véu. Uma pesquisa de notícias mostra a neutralidade com que este aspeto foi tratado pela imprensa. Nalguns casos, o elemento ‘véu’ está ausente de um relato que se destina quase exclusivamente a informar o que pessoas, neste caso, mulheres, levam vestido. Não é só o peso que as questões de género (não) têm nas decisões editoriais, é simplesmente não ver a notícia, é falhar um ‘lead’. Costumo ter pudor em articular estas afirmações, mas este caso é flagrante: é mau jornalismo. Em pleno combate ao Estado Islâmico uma fila de mulheres de lenço no rosto parece não ter intrigado ninguém. Uma fila de mulheres com os rostos cobertos por véus não puxou o gatilho do pensamento de ninguém? Quase ninguém. A exceção de que dei conta foi o Diário de Notícias, que na segunda-feira chamava o assunto à primeira página: "Estilista usa véus na ModaLisboa mas recusa intenção pública". Filipe Faísca recusa o que quiser, eu recuso esta coleção.

sábado, 11 de outubro de 2014

Manchester, 1965, fotografia de Shirley Baker. Mais flores da revolução industrial para ver aqui.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

nano-narrativas de liceu #1

           Era uma escola grande. Chegou a parecer-lhe enorme. Tinha uma lista considerável de lugares em que se conseguia ter uma perturbação mínima da solidão. Não eram só os micro-recreios individuais que a abundância de espaço e luz fazia crescer por geração espontânea, com direito a vista para o rio e árvores de diversos portes. Ou as arestas daquele quadrado que, rezava a lenda, tinha sido projetado para ringue de patinagem. Havia sítios em que era possível desaparecer. Os outros diluíam-se num movimento de vozes e de passos, que se aproximava à medida que desciam as escadas para se afastar no consolo infalível de dobrarem a esquina para o corredor do último piso. Ninguém olha para debaixo de uma escada que já não vai a lado nenhum. A escola tinha pelo menos três grandes escadarias e só a do meio era muito utilizada. Sozinha naquelas cabanas acidentais de betão, lia, comia, estava ali. Sobretudo estava ali. Não era um estatuto de que se pudesse orgulhar em voz alta, mas era uma conquista. Fora para uma escola maior e ganhara um lugar. Também ali, a solidão passaria por maturidade.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

sing me to sleep. and he did

Foi um concerto que mais parecia uma reunião de escola. Do camarote vislumbrávamos cá em baixo caras conhecidas. E tínhamos uma visão privilegiada para a protuberância do estômago de Morrissey. Envelhecer é uma chatice, mesmo que sejamos hoje mais felizes que no outro concerto, recortado no tempo pela crueldade involuntária dos outros como uma coisa que aconteceu “no final dos anos 1990”. É tudo uma cadeia ridícula de desfasamentos etários em que ganhar implicaria sermos ainda mais velhos. Afinal, no final dos anos 1990 já ali estávamos por uma coisa que aconteceu nos anos 1980. Morrissey só é sagrado com a guitarra de Johnny Marr. “Asslep” foi o momento mais bonito do concerto. Uma faca impiedosa de silêncio a rasgar a expectativa de uma sala inteira. Com Morrissey nunca se sabe, mas era mesmo, era aquela canção. E depois foi partir, essa atividade que é um vírus.
“Don't feel bad for me/I want you to know /Deep in the cell of my heart/I really want to go”.