sexta-feira, 10 de outubro de 2014

nano-narrativas de liceu #1

           Era uma escola grande. Chegou a parecer-lhe enorme. Tinha uma lista considerável de lugares em que se conseguia ter uma perturbação mínima da solidão. Não eram só os micro-recreios individuais que a abundância de espaço e luz fazia crescer por geração espontânea, com direito a vista para o rio e árvores de diversos portes. Ou as arestas daquele quadrado que, rezava a lenda, tinha sido projetado para ringue de patinagem. Havia sítios em que era possível desaparecer. Os outros diluíam-se num movimento de vozes e de passos, que se aproximava à medida que desciam as escadas para se afastar no consolo infalível de dobrarem a esquina para o corredor do último piso. Ninguém olha para debaixo de uma escada que já não vai a lado nenhum. A escola tinha pelo menos três grandes escadarias e só a do meio era muito utilizada. Sozinha naquelas cabanas acidentais de betão, lia, comia, estava ali. Sobretudo estava ali. Não era um estatuto de que se pudesse orgulhar em voz alta, mas era uma conquista. Fora para uma escola maior e ganhara um lugar. Também ali, a solidão passaria por maturidade.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

sing me to sleep. and he did

Foi um concerto que mais parecia uma reunião de escola. Do camarote vislumbrávamos cá em baixo caras conhecidas. E tínhamos uma visão privilegiada para a protuberância do estômago de Morrissey. Envelhecer é uma chatice, mesmo que sejamos hoje mais felizes que no outro concerto, recortado no tempo pela crueldade involuntária dos outros como uma coisa que aconteceu “no final dos anos 1990”. É tudo uma cadeia ridícula de desfasamentos etários em que ganhar implicaria sermos ainda mais velhos. Afinal, no final dos anos 1990 já ali estávamos por uma coisa que aconteceu nos anos 1980. Morrissey só é sagrado com a guitarra de Johnny Marr. “Asslep” foi o momento mais bonito do concerto. Uma faca impiedosa de silêncio a rasgar a expectativa de uma sala inteira. Com Morrissey nunca se sabe, mas era mesmo, era aquela canção. E depois foi partir, essa atividade que é um vírus.
“Don't feel bad for me/I want you to know /Deep in the cell of my heart/I really want to go”.

sábado, 20 de setembro de 2014



A sala cheia do querido cinema King para ver “A Dança”, de Frederick Wiseman, foi perecendo à medida que o filme avançava e acredito que não foi a duração do documentário que forçou as deserções, mas a circularidade da narrativa. Estavam lá as imagens da beleza mil vezes captada que transforma a dança (clássica, sobretudo) numa arte tão difícil de se deixar tomar por outras, a fotografia e o cinema. Mas a confeção dos tutus, os corpos em contraluz na barra, as silhuetas em alongamento, todo o repertório estafado e facilmente amado serviam um princípio que cabe pouco no cliché quando é tratado com lealdade. O trabalho é pouco sexy. A exaustão é perturbadora à galeria dos lugares comuns que louvam a perseguição do sonho sem mostrarem o caminho como ele é, demasiadas vezes frustrante e equivocado de sentido. Num recomeço de ano que é, como todos, uma continuação circular e uma nova oportunidade, temo a falta de forças e a tentação do enfeite. O que tenho que dizer a mim mesma no início, como no meio e no fim, não me vai salvar e é só: ao trabalho. Assim, sem exclamação. Circular e aborrecido, como, tenho que acreditar, quase tudo o que vale a pena.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

único

Fujo do saudosismo. O meu tempo é agora. As coisas que gosto de ver, comer e ler são as que tenho perto de mim. A memória tem lugares só seus, que não estão, por definição, aqui e agora. Mas tenho saudades do fulgor dos blogues generalistas. A especialização aborrece-me. Os blogues de fotografia serão outra coisa, se são específicos no meio, serão abrangentes na mensagem, como (às vezes parece) só a imagem consegue ser. O Tiago Miranda tem um blogue e é único.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

cenas da vida romântica

"Os Maias", de João Botelho


Se o ‘casting’ seria meio sustento, ele só não bastaria. Não bastou, encontrei lá tudo, outra vez. Outra vez porque de novo, mais uma vez, numa devolução que é honesta e é também criação. Carlos, Maria Eduarda, o Ega, Tomás de Alencar (que é de Alenquer, e isto faz-me sempre rir automaticamente, como uma criança a dizer "cuecas"), o Dâmaso, e Lisboa. Todos a latejar em mim, outra vez. E agora com as sombras e a luz, já tão primorosas em “A Corte do Norte”. O país do “chique a valer” no cenário, aqui literal, da cidade que parecendo merecer mais é o que é também por essa circunstância tornada tragédia. E vi, pela primeira vez posso dizer que vi: Carlos e Ega que correm para apanhar “o americano”, descoloridos. Perdido o viço, despigmentado o desejo, ainda correm. E talvez o apanhem.