sábado, 5 de julho de 2014

gente sã do campo

“Havia qualquer coisa nela que parecia fascinar Mrs. Freeman e depois um dia Hulga percebeu que era a perna artificial. Mrs. Freeman tinha uma predileção especial pelos detalhes de infeções secretas, deformidades escondidas, assaltos a crianças. Das doenças, preferia as intermináveis e incuráveis. Hulga ouvira Mrs. Hopewell fornecer-lhe todos os detalhes do acidente de caça, como a perna fora literalmente feita em pedaços, como a menina nunca ficara inconsciente. Mrs. Freeman podia escutar a história a qualquer momento, como se tudo tivesse acabado de acontecer há uma hora”.

Flannery O’Connor, “Um bom homem é difícil de encontrar”, Cavalo de Ferro


Paula Rego a Ilustrar Flannery O’Connor. Pois era.

terça-feira, 24 de junho de 2014

nós comemos tudo


"Only lovers left alive", de Jim Jarmusch

Se tivesse 16 anos já tinha o ‘poster’ pendurado no meu quarto. Mas se tivesse 16 anos teria encontrado coisas distintas, que depois se transformariam à medida das ‘reprises’ pessoais que fizesse a cada ciclo inventado. Seria um ciclo - a terminar, começar, em criação – porque o filme estaria lá, outra vez. Um bocadinho como “Tudo sobre a minha mãe”, uma vez o filho, outra a Mãe, outra Agrado, uma vez Barcelona, outra Madrid, e sempre em parte nenhuma, porque é universal. Há uma grande vantagem em crescer com um cinema de província, ir a todos os filmes, como à missa, encontrar todos os géneros semanalmente e saber que há coisas boas em tudo. Um filme de vampiros, uma comédia romântica, uma trip futurística. O género não existe quando só existe cinema. Da negação nasce o amor ao género.

domingo, 15 de junho de 2014



Montegomery, Alabama, EUA, março de 2013


A luz dos candeeiros era difusa e turva devido à morrinha que caía. No meu caminho para casa, sentia-me muito crescida, mas quando olhei para a ponta do meu nariz vi algumas gotas pequeninas, só que troquei os olhos, fiquei tonta e deixei de olhar. No meu caminho para casa pensei nas coisas que tinha de contar ao Jem amanhã. Ele ia ficar tão chateado com o que tinha perdido que de certeza não me ia falar durante uns dias. No meu caminho para casa pensei que o Jem e eu iríamos crescer, mas que não haveria muito mais coisas para aprender, exceto, talvez, álgebra.


“Mataram a cotovia”, Harper Lee, Relógio D’Água

quarta-feira, 11 de junho de 2014

estou triste e zangada (o twitter não tem culpa)

O facebook é onde se veem as fotografias dos filhos dos outros. As ‘selfies’ pós-coitais que juram que andam por aí mas ainda não foram avistadas. Há os gatinhos e as frases de auto-ajuda, motivacionais ou lá o que é aquilo. As citações mal atribuídas, sobretudo à Clarice Lispector. O twitter é a velocidade da discussão, a inflamação. São tantas as polémicas apaixonadas, não é? Passei por lá hoje e, pela quantidade de jornalistas que por lá têm morada, achei que ia encontrar uma grande mobilização contra os despedimentos na Controlinveste, debate de ideias, os jornalistas finalmente a pensar sobre si mesmos, depois de mais um brutal despedimento coletivo. As redações estão a ser varridas de bons profissionais, de memória e de crítica. É um ‘matadouro’, como lhe chamou Pedro Santos Guerreiro num notável artigo no Expresso Diário (não concordo com o poder regenerador que aquilo que nos aconteceu a todos, ao país, em 2011, pudesse ter tido, mas é o que ele pensa e respeito-o por isso). Estava a espera de encontrar muita coisa no twitter sobre o que se passou hoje nas redações do grupo Controlinveste. Corri tudo e fiz buscas. Encontrei alguma coisa, mas não o que estava à espera. Amanhã está marcada uma concentração em frente ao edifício do Diário de Notícias, às 13:00, espero que o trabalho que felizmente tenho me permita ir. Pessoas concentradas em solidariedade com outras, que refletem e pensam sobre o jornalismo e o país. É o que espero encontrar, da histeria do twitter tão costumeira, vi nada. 160 pessoas não terão trabalho. Também me lembrei de um poema de Brecht. 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

da ciência

“Esta nova caça às sexualidades periféricas prova a incorporação das perversões e nova especificação dos indivíduos. A sodomia – a do antigo direito civil ou canônico – era um tipo de ato interdito e o autor não passava de seu sujeito jurídico. O homossexual do século XIX torna-se uma personagem: um passado, uma história, uma infância, um caráter, uma forma de vida; também é morfologia, com uma anatomia indiscreta e, talvez, uma fisiologia misteriosa. Nada daquilo que ele é, no fim das contas, escapa à sua sexualidade. Ela está presente nele todo: subjacente a todas as suas condutas, já que ela é o princípio insidioso e infinitamente ativo das mesmas; inscrita sem puder na sua face e no seu corpo já que é um segredo que se trai sempre. É-lhe consubstancial, não tanto como pecado habitual porém como natureza singular. É necessário não esquecer que a categoria psicológica, psiquiátrica e médica da homossexualidade constituiu-se no dia em que foi caracterizada – o famoso artigo de Westphal em 1870, sobre as ‘sensações sexuais contrárias’ pode servir de data natalícia – menos como um tipo de relações sexuais do que como uma certa qualidade da sensibilidade sexual, uma certa maneira de inverter, em si mesmo, o masculino e o feminino. A homossexualidade apareceu como uma das figuras da sexualidade quando foi transferida, da prática da sodomia, para uma espécie de androgenia interior, um hermafroditismo da alma. O sodomita era um reincidente, agora o homossexual era uma espécie.


Michel Foucault, História da Sexualidade, volume 1, a vontade de saber, Edições Graal

quarta-feira, 4 de junho de 2014

serendipity

Os partidários dos acasos redentores veem, com mais ou menos culpa, “Serendipity” e não censuram a arrogância de colocar dizeres num livro para que dê voltas e torne às mãos de quem se destinava. Mas há toda uma indústria da bibliotecnia por explorar. Desafiando a comissão nacional de proteção de dados, despudorados talões de empréstimo de livros viajam por volumes de poesia, romances e livros técnicos exibindo os nomes completos de leitores idos.

terça-feira, 3 de junho de 2014




Trevos de quatro folhas procuram-se e não se encontram.Não há demanda para cerejas-coração.