terça-feira, 24 de junho de 2014

nós comemos tudo


"Only lovers left alive", de Jim Jarmusch

Se tivesse 16 anos já tinha o ‘poster’ pendurado no meu quarto. Mas se tivesse 16 anos teria encontrado coisas distintas, que depois se transformariam à medida das ‘reprises’ pessoais que fizesse a cada ciclo inventado. Seria um ciclo - a terminar, começar, em criação – porque o filme estaria lá, outra vez. Um bocadinho como “Tudo sobre a minha mãe”, uma vez o filho, outra a Mãe, outra Agrado, uma vez Barcelona, outra Madrid, e sempre em parte nenhuma, porque é universal. Há uma grande vantagem em crescer com um cinema de província, ir a todos os filmes, como à missa, encontrar todos os géneros semanalmente e saber que há coisas boas em tudo. Um filme de vampiros, uma comédia romântica, uma trip futurística. O género não existe quando só existe cinema. Da negação nasce o amor ao género.

domingo, 15 de junho de 2014



Montegomery, Alabama, EUA, março de 2013


A luz dos candeeiros era difusa e turva devido à morrinha que caía. No meu caminho para casa, sentia-me muito crescida, mas quando olhei para a ponta do meu nariz vi algumas gotas pequeninas, só que troquei os olhos, fiquei tonta e deixei de olhar. No meu caminho para casa pensei nas coisas que tinha de contar ao Jem amanhã. Ele ia ficar tão chateado com o que tinha perdido que de certeza não me ia falar durante uns dias. No meu caminho para casa pensei que o Jem e eu iríamos crescer, mas que não haveria muito mais coisas para aprender, exceto, talvez, álgebra.


“Mataram a cotovia”, Harper Lee, Relógio D’Água

quarta-feira, 11 de junho de 2014

estou triste e zangada (o twitter não tem culpa)

O facebook é onde se veem as fotografias dos filhos dos outros. As ‘selfies’ pós-coitais que juram que andam por aí mas ainda não foram avistadas. Há os gatinhos e as frases de auto-ajuda, motivacionais ou lá o que é aquilo. As citações mal atribuídas, sobretudo à Clarice Lispector. O twitter é a velocidade da discussão, a inflamação. São tantas as polémicas apaixonadas, não é? Passei por lá hoje e, pela quantidade de jornalistas que por lá têm morada, achei que ia encontrar uma grande mobilização contra os despedimentos na Controlinveste, debate de ideias, os jornalistas finalmente a pensar sobre si mesmos, depois de mais um brutal despedimento coletivo. As redações estão a ser varridas de bons profissionais, de memória e de crítica. É um ‘matadouro’, como lhe chamou Pedro Santos Guerreiro num notável artigo no Expresso Diário (não concordo com o poder regenerador que aquilo que nos aconteceu a todos, ao país, em 2011, pudesse ter tido, mas é o que ele pensa e respeito-o por isso). Estava a espera de encontrar muita coisa no twitter sobre o que se passou hoje nas redações do grupo Controlinveste. Corri tudo e fiz buscas. Encontrei alguma coisa, mas não o que estava à espera. Amanhã está marcada uma concentração em frente ao edifício do Diário de Notícias, às 13:00, espero que o trabalho que felizmente tenho me permita ir. Pessoas concentradas em solidariedade com outras, que refletem e pensam sobre o jornalismo e o país. É o que espero encontrar, da histeria do twitter tão costumeira, vi nada. 160 pessoas não terão trabalho. Também me lembrei de um poema de Brecht. 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

da ciência

“Esta nova caça às sexualidades periféricas prova a incorporação das perversões e nova especificação dos indivíduos. A sodomia – a do antigo direito civil ou canônico – era um tipo de ato interdito e o autor não passava de seu sujeito jurídico. O homossexual do século XIX torna-se uma personagem: um passado, uma história, uma infância, um caráter, uma forma de vida; também é morfologia, com uma anatomia indiscreta e, talvez, uma fisiologia misteriosa. Nada daquilo que ele é, no fim das contas, escapa à sua sexualidade. Ela está presente nele todo: subjacente a todas as suas condutas, já que ela é o princípio insidioso e infinitamente ativo das mesmas; inscrita sem puder na sua face e no seu corpo já que é um segredo que se trai sempre. É-lhe consubstancial, não tanto como pecado habitual porém como natureza singular. É necessário não esquecer que a categoria psicológica, psiquiátrica e médica da homossexualidade constituiu-se no dia em que foi caracterizada – o famoso artigo de Westphal em 1870, sobre as ‘sensações sexuais contrárias’ pode servir de data natalícia – menos como um tipo de relações sexuais do que como uma certa qualidade da sensibilidade sexual, uma certa maneira de inverter, em si mesmo, o masculino e o feminino. A homossexualidade apareceu como uma das figuras da sexualidade quando foi transferida, da prática da sodomia, para uma espécie de androgenia interior, um hermafroditismo da alma. O sodomita era um reincidente, agora o homossexual era uma espécie.


Michel Foucault, História da Sexualidade, volume 1, a vontade de saber, Edições Graal

quarta-feira, 4 de junho de 2014

serendipity

Os partidários dos acasos redentores veem, com mais ou menos culpa, “Serendipity” e não censuram a arrogância de colocar dizeres num livro para que dê voltas e torne às mãos de quem se destinava. Mas há toda uma indústria da bibliotecnia por explorar. Desafiando a comissão nacional de proteção de dados, despudorados talões de empréstimo de livros viajam por volumes de poesia, romances e livros técnicos exibindo os nomes completos de leitores idos.

terça-feira, 3 de junho de 2014




Trevos de quatro folhas procuram-se e não se encontram.Não há demanda para cerejas-coração.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

som do silêncio


Biblioteca de Estugarda, fotografia de Ana Nunes da Silva



Guardo já algumas bibliotecas no meu coração. Tento ordená-las e coloca-las bonitas numa estante da memória. As coleções vivem do fetiche e do mimo, numa contradição feliz. Somos atraídos ao objeto desejado numa vertigem e precisamos de o tocar, ele tem que existir fisicamente e temos de ficar com um vestígio desse contacto ou ele não conta. Mas depois colocamos o objeto colecionado em ordem com os outros, catalogamos, arranjamos uma estante ou uma vitrine para o dispor, demoramo-nos a limpar o pó, visitamo-lo e conversamos com ele. É por isso que os livros em papel não vão desaparecer, mesmo que diminuam consideravelmente, porque o seu desaparecimento levaria consigo as bibliotecas, as públicas e as privadas, e a sensualidade do toque contaminada pelo amor de cuidar.
Não há lugares prováveis para uma biblioteca impressionante. Estugarda tem uma biblioteca impactante. A cidade da Mercedes-Benz tem uma biblioteca linda, que cega de luxúria branca luminosa. Foi um projeto controverso, é uma biblioteca que se continua a discutir, anos depois de ter sido construída. Tão bom. A biblioteca do Trinity College, em Dublin, é obviamente deslumbrante. É amá-la, sabendo que todos o fazem. A nova biblioteca de Amesterdão encontrou-me numa viagem de acerto de contas, de querer estar sossegada num lugar de vício e pecado. Para quem quer pecar em silêncio, não há como invejar um lugar imenso, superiormente organizado, que se desdobra em pequenas escalas que zelam por todos se sentirem bem. Uma suposta tempestade de neve impediu-me de entrar na Biblioteca do Congresso em Washington, mas pelo menos tentei, até perguntei ao senhor com a metralhadora na mão, tal era o grau de negação. Todos os edifícios federais estavam fechados e a minha tristeza não mudou nada.

Estar numa biblioteca é um privilégio. E é um privilégio muito equivalente estar numa destas bibliotecas cheias de sainete ou estar na nossa biblioteca municipal. É o luxo do tempo, da reflexão, da leitura e do pensamento, e de nos sentirmos acompanhados nisso. Unidos pela qualidade do silêncio, estamos todos no mesmo barco e, livres, vamos todos para sítios diferentes.