terça-feira, 29 de abril de 2014

lugar comum



"Pedro e Inês", coreografia de Olga Roriz para a Companhia Nacional de Bailado.



É por causa deles. A responsabilidade é deles. Quando nos sentarmos no dia certo e à hora marcada para aplicar um arraial de pancada nos nossos pais e, nas ondas de culpa, à sétima, recebermos tudo de volta, lembremo-nos deles. Pedro e Inês. Culpo-os e estou-lhes grata. 

terça-feira, 22 de abril de 2014

parque


Parece que todos os carros produzem um barulho semelhante. Por isso, só pode ser do chão. Também parece que é sobretudo de manhã, quando estão a abandonar o local movem-se mais devagar. As pessoas, eu também, apressam-se para conseguirem lugar no mesmo sítio de ontem, no mesmo rectângulo ocupado nos dias desdobrados para trás. Eu sou aqui, chia o carro.

Há pessoas que aceleram no parque de estacionamento. Suportam o chiar naquele chão. Quando penso num carro a acelerar num palco ou numa sala de ensaios com chão de linóleo penso naquele barulho.

Um dia chego muito cedo e surpreendo os bailarinos.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

dor, datada



A Medicina Contemporânea, Hebdomadário Português de Ciências Médicas, 14 de Junho de 1936

segunda-feira, 14 de abril de 2014

entorno

“Também, quando somos pequenos, pensamos que podemos prever as dores e as desolações que a idade trará. Imaginamo-nos a ficar sozinhos, divorciados, viúvos; os filhos a afastarem-se de nós, os amigos a morrerem. Imaginamos a perda de estatuto, a perda do desejo – e o já não seremos desejáveis. Podemos ir mais longe e considerar a nossa própria aproximação à morte que, não obstante a companhia de que possamos dispor, só podemos enfrentar sós. Mas tudo isto é pensar no futuro. O que não conseguimos fazer é pensar no futuro e vermo-nos depois a olhar para trás, a partir desse ponto no futuro. Aprender as novas emoções que traz o tempo. Descobrir, por exemplo, que, à medida que os espetadores da nossa vida diminuem, há menos confirmação e por isso menos certeza do que somos e do que fomos. Ainda que mantenhamos registos assíduos – em palavras, som, imagens – podemos descobrir que nos dedicámos a um registo inadequado. Qual era a frase que Adrian costumava citar? ‘A história é essa certeza que se produz no ponto em que as imperfeições da memória se cruzam com as insuficiências da documentação’”.


“O Sentido do Fim”, Julian Barnes, Quetzal.

E enquanto as reciprocidades se multiplicam, sabemos que somos novos?

sábado, 29 de março de 2014

sangue



Nunca mais comi coelho cozinhado assim. Era a especialidade do meu Pai, a única, na verdade, como convinha à sua (ainda muito) marialva organização do mundo. Comi esta semana um coelho muito semelhante ao que ele fazia. Discuti com quem o fez a receita e confirmei, o segredo está no sangue. O coelho fica a repousar no seu próprio sangue e é cozinhado com ele no dia seguinte. O coelho do meu Pai era acompanhado de arroz também cozinhado em sangue. Tudo muito castanho e avinagrado. Uma panela de pequenas peças esculpidas num barro ácido. Tenho a certeza que haverá filhas que perseguem ou perseguirão o rasto perdido da textura, do aroma e do sabor de adoráveis guisados de tofu ou pastéis de seitã. O sabor que eu perdi leva sangue. Terei que lidar com isso.