"Grand Budapest Hotel", de Wes Anderson
domingo, 20 de abril de 2014
segunda-feira, 14 de abril de 2014
entorno
“Também, quando somos pequenos, pensamos que podemos prever
as dores e as desolações que a idade trará. Imaginamo-nos a ficar sozinhos,
divorciados, viúvos; os filhos a afastarem-se de nós, os amigos a morrerem. Imaginamos
a perda de estatuto, a perda do desejo – e o já não seremos desejáveis. Podemos
ir mais longe e considerar a nossa própria aproximação à morte que, não obstante
a companhia de que possamos dispor, só podemos enfrentar sós. Mas tudo isto é
pensar no futuro. O que não conseguimos fazer é pensar no futuro e vermo-nos
depois a olhar para trás, a partir desse ponto no futuro. Aprender as novas emoções
que traz o tempo. Descobrir, por exemplo, que, à medida que os espetadores da
nossa vida diminuem, há menos confirmação e por isso menos certeza do que somos
e do que fomos. Ainda que mantenhamos registos assíduos – em palavras, som,
imagens – podemos descobrir que nos dedicámos a um registo inadequado. Qual era
a frase que Adrian costumava citar? ‘A história é essa certeza que se produz no
ponto em que as imperfeições da memória se cruzam com as insuficiências da documentação’”.
“O Sentido do Fim”, Julian Barnes, Quetzal.
E enquanto as reciprocidades se multiplicam, sabemos que somos novos?
sábado, 29 de março de 2014
sangue
Nunca mais comi coelho cozinhado
assim. Era a especialidade do meu Pai, a única, na verdade, como convinha à sua
(ainda muito) marialva organização do mundo. Comi esta semana um coelho muito
semelhante ao que ele fazia. Discuti com quem o fez a receita e confirmei, o
segredo está no sangue. O coelho fica a repousar no seu próprio sangue e é
cozinhado com ele no dia seguinte. O coelho do meu Pai era acompanhado de arroz
também cozinhado em sangue. Tudo muito castanho e avinagrado. Uma panela de
pequenas peças esculpidas num barro ácido. Tenho a certeza que haverá filhas
que perseguem ou perseguirão o rasto perdido da textura, do aroma e do sabor de
adoráveis guisados de tofu ou pastéis de seitã. O sabor que eu perdi leva
sangue. Terei que lidar com isso.
quarta-feira, 26 de março de 2014
competência para amar
A rapariga tinha aulas às 08:20
da manhã, esse cedo adolescente irrepetível, e levantava-se ainda mais cedo, a
tempo de ver o rapaz, que ia para outra escola ou para a fábrica. A memória
perde-se, não sabe se na altura o rapaz já trabalhava, aquela violência. Não sabe
como combinavam aqueles encontros matinais, não havia telemóveis. Se foram
muitas as vezes que o fez também já não é possível determinar. Foram as
suficientes para se recordar das manhãs escuras, os autocarros que chegavam e saiam
a chiar da central rodoviária junto à casa do rapaz. Autocarros cheios de pessoas
que se levantavam cedíssimo.
domingo, 9 de março de 2014
rise and fall (and that place in between)
Madonna and child, by Mario Testino.
“O mundo tal como o conhecemos não é esta figura, afinal simples, em que todos os acontecimentos se esbateram e pouco a pouco vão-se notando traços essenciais, o sentido final, o valor primeiro e último. Pelo contrário, trata-se de uma miríade de acontecimentos entretecidos (…). Cremos que o nosso presente se apoia em intenções profundas, necessidades estáveis, pedimos aos historiadores que nos convençam disso. Mas o verdadeiro sentido histórico reconhece que vivemos sem referentes nem coordenadas originários. (…) Então, a história é o conhecimento diferencial das energias e dos desfalecimentos, das alturas e das derrocadas”.
Michel Foucault, “Dits et Écrits”, Paris,
Gallimard, 1994, vol. II “Nietzche, la généalogie, l’histoire”.
quarta-feira, 5 de março de 2014
the power and the glory
Como os dias se sucedem já não
uns a seguir aos outros, mas uns por cima dos outros, tombando de uma alegria
preenchida que (às vezes) tem os seus desesperos, os acontecimentos do
calendário também chegam diferentes. Deparou-se-me, assim, a cerimónia de
entrega dos Óscares, vista como através de uma película de gaze reconfortante. Os filmes vistos estavam na média de anos anteriores, não
sem algum esforço, e talvez por causa dele, não tinha filias exacerbadas,
ciente que estava que seria um ano justo e ligeiramente aborrecido. Passou-se o
mesmo com os vestidos. As gloriosas exceções foram Charlize Theron, que vestiu um acontecimento Dior. E, apesar
de esse ter sido objetivamente o melhor vestido da noite, não foi o meu
preferido. Penélope Cruz não quis por os pés no chão, era melhor esvoaçar baixinho
num Giambattista Valli com um efeito que, ao contrário dos ‘nudes’ cintilantes,
não se esgota: uma fita preta de veludo num tecido leve e claro.
Mas os dias que se atropelam têm
tréguas que se impõem sozinhas. Numa das mais deliciosas, entrei, finalmente
em “House of Cards”. E zás, com a brutalidade fria e delicada da elegância sem
esforço, Robin Wrigth usou, num único episódio, vestidos que davam para uma
década de Óscares.
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