segunda-feira, 14 de abril de 2014

entorno

“Também, quando somos pequenos, pensamos que podemos prever as dores e as desolações que a idade trará. Imaginamo-nos a ficar sozinhos, divorciados, viúvos; os filhos a afastarem-se de nós, os amigos a morrerem. Imaginamos a perda de estatuto, a perda do desejo – e o já não seremos desejáveis. Podemos ir mais longe e considerar a nossa própria aproximação à morte que, não obstante a companhia de que possamos dispor, só podemos enfrentar sós. Mas tudo isto é pensar no futuro. O que não conseguimos fazer é pensar no futuro e vermo-nos depois a olhar para trás, a partir desse ponto no futuro. Aprender as novas emoções que traz o tempo. Descobrir, por exemplo, que, à medida que os espetadores da nossa vida diminuem, há menos confirmação e por isso menos certeza do que somos e do que fomos. Ainda que mantenhamos registos assíduos – em palavras, som, imagens – podemos descobrir que nos dedicámos a um registo inadequado. Qual era a frase que Adrian costumava citar? ‘A história é essa certeza que se produz no ponto em que as imperfeições da memória se cruzam com as insuficiências da documentação’”.


“O Sentido do Fim”, Julian Barnes, Quetzal.

E enquanto as reciprocidades se multiplicam, sabemos que somos novos?

sábado, 29 de março de 2014

sangue



Nunca mais comi coelho cozinhado assim. Era a especialidade do meu Pai, a única, na verdade, como convinha à sua (ainda muito) marialva organização do mundo. Comi esta semana um coelho muito semelhante ao que ele fazia. Discuti com quem o fez a receita e confirmei, o segredo está no sangue. O coelho fica a repousar no seu próprio sangue e é cozinhado com ele no dia seguinte. O coelho do meu Pai era acompanhado de arroz também cozinhado em sangue. Tudo muito castanho e avinagrado. Uma panela de pequenas peças esculpidas num barro ácido. Tenho a certeza que haverá filhas que perseguem ou perseguirão o rasto perdido da textura, do aroma e do sabor de adoráveis guisados de tofu ou pastéis de seitã. O sabor que eu perdi leva sangue. Terei que lidar com isso.

quarta-feira, 26 de março de 2014

competência para amar



A rapariga tinha aulas às 08:20 da manhã, esse cedo adolescente irrepetível, e levantava-se ainda mais cedo, a tempo de ver o rapaz, que ia para outra escola ou para a fábrica. A memória perde-se, não sabe se na altura o rapaz já trabalhava, aquela violência. Não sabe como combinavam aqueles encontros matinais, não havia telemóveis. Se foram muitas as vezes que o fez também já não é possível determinar. Foram as suficientes para se recordar das manhãs escuras, os autocarros que chegavam e saiam a chiar da central rodoviária junto à casa do rapaz. Autocarros cheios de pessoas que se levantavam cedíssimo. 

domingo, 9 de março de 2014

rise and fall (and that place in between)


Madonna and child, by Mario Testino.

“O mundo tal como o conhecemos não é esta figura, afinal simples, em que todos os acontecimentos se esbateram e pouco a pouco vão-se notando traços essenciais, o sentido final, o valor primeiro e último. Pelo contrário, trata-se de uma miríade de acontecimentos entretecidos (…). Cremos que o nosso presente se apoia em intenções profundas, necessidades estáveis, pedimos aos historiadores que nos convençam disso. Mas o verdadeiro sentido histórico reconhece que vivemos sem referentes nem coordenadas originários. (…) Então, a história é o conhecimento diferencial das energias e dos desfalecimentos, das alturas e das derrocadas”.


Michel Foucault, “Dits et Écrits”, Paris, Gallimard, 1994, vol. II “Nietzche, la généalogie, l’histoire”.



quarta-feira, 5 de março de 2014

the power and the glory




Como os dias se sucedem já não uns a seguir aos outros, mas uns por cima dos outros, tombando de uma alegria preenchida que (às vezes) tem os seus desesperos, os acontecimentos do calendário também chegam diferentes. Deparou-se-me, assim, a cerimónia de entrega dos Óscares, vista como através de uma película de gaze reconfortante. Os filmes vistos estavam na média de anos anteriores, não sem algum esforço, e talvez por causa dele, não tinha filias exacerbadas, ciente que estava que seria um ano justo e ligeiramente aborrecido. Passou-se o mesmo com os vestidos. As gloriosas exceções foram Charlize Theron, que vestiu um acontecimento Dior. E, apesar de esse ter sido objetivamente o melhor vestido da noite, não foi o meu preferido. Penélope Cruz não quis por os pés no chão, era melhor esvoaçar baixinho num Giambattista Valli com um efeito que, ao contrário dos ‘nudes’ cintilantes, não se esgota: uma fita preta de veludo num tecido leve e claro.

Mas os dias que se atropelam têm tréguas que se impõem sozinhas. Numa das mais deliciosas, entrei, finalmente em “House of Cards”. E zás, com a brutalidade fria e delicada da elegância sem esforço, Robin Wrigth usou, num único episódio, vestidos que davam para uma década de Óscares. 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Não escolhemos quem amamos. Sobretudo, não escolhemos por quem nos apaixonamos. Mas escolhemos com quem queremos estar e, desde logo, escolhemos ter amor-próprio. A ideia do amor romântico não é muito saudável, mas não exclui a decisão. É um não acabar de desgraças para evitar que os amantes se conheçam e, por isso, se separem. Acabam morrendo juntos, pois é, mas na juventude que evita tudo e, por isso, evitará também o melhor e o pior. Essas narrativas são bonitas, sobretudo porque bem escritas, a começar por “Romeu e Julieta” e passando pelo “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco ("Amou, perdeu-se e morreu amando", amemos o gerúndio e a economia narrativa). Esse amor louco, quase infantil, que engole ambos, é doentio, mas nasceu dos seus corações e segue um rumo condicionado pelo mundo adverso. Só nunca entendi “Tristão e Isolda”. Desde adolescente que me parece terrivelmente antirromântico que duas pessoas se apaixonem sem remédio porque beberam um. Alguém decidiu por eles e não foi Deus nem os seus corações selvagens. O que faz o amor romântico é a fulminação erótica que nasce de um coração que bate numa vontade insondável, mas que não deixa de ser sua. Este amor pertence-me porque me aconteceu a mim.

E as condições adversas nunca desaparecem. "Love will tear us apart". O espectro paira sobre os amantes. A adversidade somos nós, e é por isso que não há coisa mais romântica que decidir. 


 Richard Burton e Elizabeth Taylor. Decidiram casar duas vezes.