Nunca mais comi coelho cozinhado
assim. Era a especialidade do meu Pai, a única, na verdade, como convinha à sua
(ainda muito) marialva organização do mundo. Comi esta semana um coelho muito
semelhante ao que ele fazia. Discuti com quem o fez a receita e confirmei, o
segredo está no sangue. O coelho fica a repousar no seu próprio sangue e é
cozinhado com ele no dia seguinte. O coelho do meu Pai era acompanhado de arroz
também cozinhado em sangue. Tudo muito castanho e avinagrado. Uma panela de
pequenas peças esculpidas num barro ácido. Tenho a certeza que haverá filhas
que perseguem ou perseguirão o rasto perdido da textura, do aroma e do sabor de
adoráveis guisados de tofu ou pastéis de seitã. O sabor que eu perdi leva
sangue. Terei que lidar com isso.
sábado, 29 de março de 2014
quarta-feira, 26 de março de 2014
competência para amar
A rapariga tinha aulas às 08:20
da manhã, esse cedo adolescente irrepetível, e levantava-se ainda mais cedo, a
tempo de ver o rapaz, que ia para outra escola ou para a fábrica. A memória
perde-se, não sabe se na altura o rapaz já trabalhava, aquela violência. Não sabe
como combinavam aqueles encontros matinais, não havia telemóveis. Se foram
muitas as vezes que o fez também já não é possível determinar. Foram as
suficientes para se recordar das manhãs escuras, os autocarros que chegavam e saiam
a chiar da central rodoviária junto à casa do rapaz. Autocarros cheios de pessoas
que se levantavam cedíssimo.
domingo, 9 de março de 2014
rise and fall (and that place in between)
Madonna and child, by Mario Testino.
“O mundo tal como o conhecemos não é esta figura, afinal simples, em que todos os acontecimentos se esbateram e pouco a pouco vão-se notando traços essenciais, o sentido final, o valor primeiro e último. Pelo contrário, trata-se de uma miríade de acontecimentos entretecidos (…). Cremos que o nosso presente se apoia em intenções profundas, necessidades estáveis, pedimos aos historiadores que nos convençam disso. Mas o verdadeiro sentido histórico reconhece que vivemos sem referentes nem coordenadas originários. (…) Então, a história é o conhecimento diferencial das energias e dos desfalecimentos, das alturas e das derrocadas”.
Michel Foucault, “Dits et Écrits”, Paris,
Gallimard, 1994, vol. II “Nietzche, la généalogie, l’histoire”.
quarta-feira, 5 de março de 2014
the power and the glory
Como os dias se sucedem já não
uns a seguir aos outros, mas uns por cima dos outros, tombando de uma alegria
preenchida que (às vezes) tem os seus desesperos, os acontecimentos do
calendário também chegam diferentes. Deparou-se-me, assim, a cerimónia de
entrega dos Óscares, vista como através de uma película de gaze reconfortante. Os filmes vistos estavam na média de anos anteriores, não
sem algum esforço, e talvez por causa dele, não tinha filias exacerbadas,
ciente que estava que seria um ano justo e ligeiramente aborrecido. Passou-se o
mesmo com os vestidos. As gloriosas exceções foram Charlize Theron, que vestiu um acontecimento Dior. E, apesar
de esse ter sido objetivamente o melhor vestido da noite, não foi o meu
preferido. Penélope Cruz não quis por os pés no chão, era melhor esvoaçar baixinho
num Giambattista Valli com um efeito que, ao contrário dos ‘nudes’ cintilantes,
não se esgota: uma fita preta de veludo num tecido leve e claro.
Mas os dias que se atropelam têm
tréguas que se impõem sozinhas. Numa das mais deliciosas, entrei, finalmente
em “House of Cards”. E zás, com a brutalidade fria e delicada da elegância sem
esforço, Robin Wrigth usou, num único episódio, vestidos que davam para uma
década de Óscares.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Não escolhemos quem amamos. Sobretudo,
não escolhemos por quem nos apaixonamos. Mas escolhemos com quem queremos
estar e, desde logo, escolhemos ter amor-próprio. A ideia do amor romântico não é muito saudável, mas não exclui a decisão. É um não acabar de desgraças para evitar que os
amantes se conheçam e, por isso, se separem. Acabam morrendo juntos, pois é,
mas na juventude que evita tudo e, por isso, evitará também o melhor e o pior. Essas narrativas são bonitas, sobretudo porque bem escritas,
a começar por “Romeu e Julieta” e passando pelo “Amor de Perdição”, de Camilo
Castelo Branco ("Amou, perdeu-se e morreu amando", amemos o gerúndio e a economia narrativa). Esse amor louco, quase infantil, que engole ambos, é doentio,
mas nasceu dos seus corações e segue um rumo condicionado pelo mundo adverso. Só nunca
entendi “Tristão e Isolda”. Desde adolescente que me parece terrivelmente antirromântico
que duas pessoas se apaixonem sem remédio porque beberam um.
Alguém decidiu por eles e não foi Deus nem os seus corações selvagens. O que
faz o amor romântico é a fulminação erótica que nasce de um coração que bate
numa vontade insondável, mas que não deixa de ser sua. Este amor pertence-me porque me aconteceu a mim.
E as condições adversas nunca desaparecem. "Love will tear us apart". O espectro paira sobre os amantes. A adversidade somos nós, e é por isso que não há coisa mais romântica que decidir.
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Richard Burton e Elizabeth Taylor. Decidiram casar duas vezes.
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
abandono
É nos pais e mães em transportes públicos que mais perto o
sinto. Aquele gesto num repente pequenino. Um soluço com que puxam
simultaneamente a criança mais para si e mais para cima. O corpo adormecido ou
só feito pesado vai escorregando e é interrompido naquele pulo. Abandona-te em
mim que eu não te abandono.
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