quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Não escolhemos quem amamos. Sobretudo, não escolhemos por quem nos apaixonamos. Mas escolhemos com quem queremos estar e, desde logo, escolhemos ter amor-próprio. A ideia do amor romântico não é muito saudável, mas não exclui a decisão. É um não acabar de desgraças para evitar que os amantes se conheçam e, por isso, se separem. Acabam morrendo juntos, pois é, mas na juventude que evita tudo e, por isso, evitará também o melhor e o pior. Essas narrativas são bonitas, sobretudo porque bem escritas, a começar por “Romeu e Julieta” e passando pelo “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco ("Amou, perdeu-se e morreu amando", amemos o gerúndio e a economia narrativa). Esse amor louco, quase infantil, que engole ambos, é doentio, mas nasceu dos seus corações e segue um rumo condicionado pelo mundo adverso. Só nunca entendi “Tristão e Isolda”. Desde adolescente que me parece terrivelmente antirromântico que duas pessoas se apaixonem sem remédio porque beberam um. Alguém decidiu por eles e não foi Deus nem os seus corações selvagens. O que faz o amor romântico é a fulminação erótica que nasce de um coração que bate numa vontade insondável, mas que não deixa de ser sua. Este amor pertence-me porque me aconteceu a mim.

E as condições adversas nunca desaparecem. "Love will tear us apart". O espectro paira sobre os amantes. A adversidade somos nós, e é por isso que não há coisa mais romântica que decidir. 


 Richard Burton e Elizabeth Taylor. Decidiram casar duas vezes.





quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

abandono



É nos pais e mães em transportes públicos que mais perto o sinto. Aquele gesto num repente pequenino. Um soluço com que puxam simultaneamente a criança mais para si e mais para cima. O corpo adormecido ou só feito pesado vai escorregando e é interrompido naquele pulo. Abandona-te em mim que eu não te abandono.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

páginas fatais


 

Um livro vindo de alguém com quem faço, no melhor dos sentidos, alguma cerimónia. Cuidados variados e muitos. Sou traída pelo gesto recorrente de cheirar as páginas percorrendo as folhas velozmente à altura do nariz. Que também é a altura dos lábios. Sujar um livro de batom, that’s a first.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

a luta continua


 

O ano começou com a enorme felicidade de termos conseguido colocar o projeto “Famílias, aqui” (literalmente) na rua. Trazíamos estes retratos no nosso coração e era tempo de os darmos a conhecer. O conjunto era representativo o suficiente, embora a diversidade geográfica não esteja plenamente alcançada. Lutámos para ter duas famílias de homens, quisemos que uma mulher independente fosse fotografada com a sua filha, saímos duas vezes de Portugal, viajámos ao Algarve, em todo o lado uma generosidade infinita abriu-nos portas de casas. Aqui, o termo em inglês é melhor, na sua economia sem preconceito, home, em vez de lar (que tem outras coisas lá dentro). A visibilidade feita posição, a política dentro de nós, por causa de nós e por aqueles que como nós precisam dela. O nós não é majestático. É coisa republicana, da igualdade feita no concreto do amor.

A morte de Eusébio fez com que a Câmara de Lisboa retirasse os ‘mupis’, para os voltar a colocar na última quinta-feira, dia da discussão em plenário da Assembleia da República da proposta de referendo do PSD. Se em tudo há absurdo é porque o destino não é para a nossa compreensão. “A vida tem sempre razão”, diz a canção.

 Tenho poucas invejas, a de quem escreve muito bem é uma, só suplantada pela verdadeira inveja, a que nutro pelas fotógrafas e fotógrafos. Elas e eles dizem sem a violência da palavra, mostram o que registaram num clique, que, ingénua, imagino sempre discreto, delicado e elegante, enquanto eu tenho que quase gritar para obter uma resposta e a pergunta tem que ser bem colocada, não pode falhar o verbo nem o ângulo ou a resposta que se quer retirar, mesmo que não se obtenha, vale de muito pouco ou está estragada pela minha falta de inteligência ao colocar a pergunta. Demasiada violência para resultado tão parco. E mesmo que não seja assim (e não é), uma boa imagem do quotidiano tem uma vitória coberta de (merecida) glória. Obtê-la não é fácil, mas parece e isso reverte a favor da sua eficácia.

Estas imagens mostram famílias feitas de sonho e projeto. Como as outras. Quiseram sê-lo. E estão aí. Desprotegidas legalmente, erguem a sua coragem todos os dias, embora haja dias em que a coragem seja necessariamente maior, como a coragem de Fabíola, doente de cancro, que escreveu aos deputados contando-lhes porque é que é fundamental que a outra mãe dos seus filhos o seja legalmente. Tão fácil de entender. É só preciso um coração e a inteligência que o guie.

Na semana passada, aprendi que um coração não chega. Ou é desmesuradamente livre ou sabe que tem de estar ao lado das pessoas e das organizações que lutam pelos direitos fundamentais e não daquelas que (no mínimo, e só nomeio o mínimo) hesitam. Hoje recebi uma mensagem inesperada, sobretudo pelo vocabulário usado pelo remetente, dizia: “a luta continua”. Continua, sim. E é imparável. Não é a falta de convicção que não o seja que me entristece. O que me aperta o coração é pensar que pode não chegar a tempo de tantas e tantos que precisam da mudança hoje, agora. Replico o final do belíssimo(e certeiro) texto que José Soeiro assina no P3: “basta não ficarmos quietos”.

Sim. Não estamos do lado da negação do outro. É um grande alento saber que se faz uma coisa pela positiva. Sim é a resposta mais bonita que se pode dar. E podia dizer “não”, “não passará”, desde logo. O "não" é profundamente necessário e poderá ser igualmente transformador. Mas escolho dizer outra palavra. Aquela que Yoko Ono inscreveu numa instalação que tive o privilégio de ver. Sobe-se uma escada e atenta-se numa palavra escrita num ‘teto’, acho que é preciso uma lupa para se ler, já não me lembro. Sei o que li: “Sim”. E não é “sim”num qualquer referendo homofóbico. É só sim. "De nada adianta ficar-se de fora/A hora do sim é o descuido do não".
A luta continua, sim.
 



 
Fotografias de Ana Nunes da Silva às suas próprias fotografias nas ruas de Lisboa, aqui, Lisboa, Cidade Aberta.