Um livro vindo de alguém com quem faço, no melhor dos
sentidos, alguma cerimónia. Cuidados variados e muitos. Sou traída pelo gesto recorrente
de cheirar as páginas percorrendo as folhas velozmente à altura do nariz. Que
também é a altura dos lábios. Sujar um livro de batom, that’s a first.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
a luta continua
O ano começou com a enorme felicidade
de termos conseguido colocar o projeto “Famílias, aqui” (literalmente) na rua.
Trazíamos estes retratos no nosso coração e era tempo de os darmos a conhecer. O conjunto
era representativo o suficiente, embora a diversidade geográfica não esteja
plenamente alcançada. Lutámos para ter duas famílias de homens, quisemos que
uma mulher independente fosse fotografada com a sua filha, saímos duas vezes de
Portugal, viajámos ao Algarve, em todo o lado uma generosidade infinita
abriu-nos portas de casas. Aqui, o termo em inglês é melhor, na sua economia
sem preconceito, home, em vez de lar (que tem outras coisas lá dentro). A visibilidade
feita posição, a política dentro de nós, por causa de nós e por aqueles que como
nós precisam dela. O nós não é majestático. É coisa republicana, da igualdade
feita no concreto do amor.
A morte de Eusébio fez com que a
Câmara de Lisboa retirasse os ‘mupis’, para os voltar a colocar na última
quinta-feira, dia da discussão em plenário da Assembleia da República da
proposta de referendo do PSD. Se em tudo há absurdo é porque o destino não é
para a nossa compreensão. “A vida tem sempre razão”, diz a canção.
Tenho poucas invejas, a de quem escreve muito
bem é uma, só suplantada pela verdadeira inveja, a que nutro pelas fotógrafas e
fotógrafos. Elas e eles dizem sem a violência da palavra, mostram o que
registaram num clique, que, ingénua, imagino sempre discreto, delicado e
elegante, enquanto eu tenho que quase gritar para obter uma resposta e a
pergunta tem que ser bem colocada, não pode falhar o verbo nem o ângulo ou a
resposta que se quer retirar, mesmo que não se obtenha, vale de muito pouco ou
está estragada pela minha falta de inteligência ao colocar a pergunta. Demasiada
violência para resultado tão parco. E mesmo que não seja assim (e não é), uma
boa imagem do quotidiano tem uma vitória coberta de (merecida) glória. Obtê-la não
é fácil, mas parece e isso reverte a favor da sua eficácia.
Estas imagens mostram famílias feitas
de sonho e projeto. Como as outras. Quiseram sê-lo. E estão aí. Desprotegidas legalmente,
erguem a sua coragem todos os dias, embora haja dias em que a coragem seja
necessariamente maior, como a coragem de Fabíola, doente de cancro, que escreveu
aos deputados contando-lhes porque é que é fundamental que a outra mãe dos seus
filhos o seja legalmente. Tão fácil de entender. É só preciso um coração e a inteligência
que o guie.
Na semana passada, aprendi que um
coração não chega. Ou é desmesuradamente livre ou sabe que tem de estar ao lado
das pessoas e das organizações que lutam pelos direitos fundamentais e não daquelas
que (no mínimo, e só nomeio o mínimo) hesitam. Hoje recebi uma mensagem
inesperada, sobretudo pelo vocabulário usado pelo remetente, dizia: “a luta continua”. Continua,
sim. E é imparável. Não é a falta de convicção que não o seja que me
entristece. O que me aperta o coração é pensar que pode não chegar a tempo de
tantas e tantos que precisam da mudança hoje, agora. Replico o final do belíssimo(e certeiro) texto que José Soeiro assina no P3: “basta não ficarmos quietos”.
Sim. Não estamos do lado da negação do outro. É um grande alento saber que se faz uma coisa pela positiva. Sim é a resposta mais bonita que se pode dar. E podia dizer “não”, “não passará”, desde logo. O "não" é profundamente necessário e poderá ser igualmente transformador. Mas escolho dizer outra palavra. Aquela que Yoko Ono inscreveu numa instalação que tive o privilégio de ver. Sobe-se uma escada e atenta-se numa palavra escrita num ‘teto’, acho que é preciso uma lupa para se ler, já não me lembro. Sei o que li: “Sim”. E não é “sim”num qualquer referendo homofóbico. É só sim. "De nada adianta ficar-se de fora/A hora do sim é o descuido do não".
Sim. Não estamos do lado da negação do outro. É um grande alento saber que se faz uma coisa pela positiva. Sim é a resposta mais bonita que se pode dar. E podia dizer “não”, “não passará”, desde logo. O "não" é profundamente necessário e poderá ser igualmente transformador. Mas escolho dizer outra palavra. Aquela que Yoko Ono inscreveu numa instalação que tive o privilégio de ver. Sobe-se uma escada e atenta-se numa palavra escrita num ‘teto’, acho que é preciso uma lupa para se ler, já não me lembro. Sei o que li: “Sim”. E não é “sim”num qualquer referendo homofóbico. É só sim. "De nada adianta ficar-se de fora/A hora do sim é o descuido do não".
A luta continua,
sim.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
estranheza
2013 foi um bom ano para
conversar com estranhos. Na sua bondade, estão lá para isso. E para quem gosta
de sentir o pulso às opiniões e quer escapar do fel dos fóruns e dos taxistas,
é o melhor. Ao contrário dos senhores que conduzem carros de praça e a quem
devemos dar um enormíssimo desconto porque têm uma profissão muito difícil, há
outros estranhos com quem conversar. Não estão tão predispostos, julgam que
isso não é esperado deles, mas estão cheios de vontade, é ver como agarram os
pretextos. Assim, 2013 está a terminar numa exaustão, que é muito de felicidade,
de coisas boas, de coisas novas, de medos anulados, de gargalhadas profundas, e
de conversas com estranhos. E neste fim estranho, como todos os fins, é bom ser
surpreendida não só pelas pessoas que nos querem bem porque estão na nossa
vida, mas por seguranças em centros de saúde que oferecem cafés, por manicures
depressivas cheias de sapiência, e por toda a bondade contida nos funcionários
do ISCTE, para onde os seus congéneres da FCSH deviam ser enviados, como para
um campo de trabalhos forçados ao contrário, estágio de sorrisos prestáveis e coisas
quentes. Exatamente, 2013 está a terminar com muitas palavras que querem
evitar o tom confessional e assim vão dizendo tudo e nada. Como nas conversas
com estranhos.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
a vida como ela é
O título é repetido, mas não tenho medo de o gastar. Fez-se para aqui, até pela gargalhada de coalhar o (genial) moralismo de Nelson Rodrigues.
Aquilo que ouvi deste filme não o encontrei. Encontrei diferente, melhor. Parece que o mundo descobriu o sexo entre mulheres, isso é lá com ele. Que abra bem os olhos, mas não deixe de ver o grande plano. “A vida de Adèle” é a vida de Adèle. Tão universal quanto isso.
Já passaram semanas e ainda estou com a rapariga que dança “I follow rivers”, de Lykke Li. Acedo a colocar um vídeo neste lugar, que quis sempre quieto, tal é a captura em que me traz. Adèle está diferente e ainda ninguém percebeu. Chega a casa para ser surpreendida por uma festa. São 18 anos, que já são outra coisa, e os outros tornam-se difusos à medida que lá dentro se carregam um pouco mais os seus contornos. O rosto fecha-se, parece que alguma coisa não está bem. Mas está tudo bem, como só tudo está melhor quando fica irremediavelmente diferente. E então ela sorri e dança. Não está nada definido. Adèle há de morrer e nascer outra vez. É assim. Nada a fazer. Nunca nada acaba. Esta é apenas a melhor cena dos primeiros dois capítulos.
sábado, 14 de dezembro de 2013
mulheres do meu país
"Quando se fala no que está errado
na vida da Mulher, prejudicando-a sob todos os aspetos, logo se vê uma intenção
política perigosa nessa afirmação. Em consequência disso, na maioria dos casos,
são as próprias mulheres que reprovam e deturpam qualquer esforço honesto feito
no sentido de lhes despertar a consciência para as condições em que elas
próprias vivem, lutam e sofrem. Isto, só por si, representa um atraso
incalculável, com profunda influência na vida geral e da mulher em particular"
Maria Lamas, "As mulheres do meu país", 1948 - 1950. Edição fac-simile, Caminho.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Ibéria
"A favor de esta [Constitucion] se
ha declarado la opinion del pueblo y de los escritores. Anoche, cuando desde el
balcon gritaban los governadores Viva da Constitucion, respondia el inmenso
gentio congregado en la plaza del Rocío La Española. (…) Entre los liberales se
nota una gran escision: unos quieren la Constitucion española, otros la
desechan; entre estes deben contarse los membros del gobierno. Los unos, si
preveen como futuramente posible la union de toda la Peninsula en una masa
compacta y homogenea, estan lejos de temer este acontecimiento, porque se han
despojado de necias preocupaciones y de ridículos odios; los otros, apreciando
sobre todo la convervacion del nombre portugués y la independencia del estado,
imaginan que la adopcion de nuestro código politico hecharia por tierra la
barrera moral que separa a las dos naciones acarreando com el tiempo su
conseguiente inevitable fusión”.
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