sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

estranheza


 
2013 foi um bom ano para conversar com estranhos. Na sua bondade, estão lá para isso. E para quem gosta de sentir o pulso às opiniões e quer escapar do fel dos fóruns e dos taxistas, é o melhor. Ao contrário dos senhores que conduzem carros de praça e a quem devemos dar um enormíssimo desconto porque têm uma profissão muito difícil, há outros estranhos com quem conversar. Não estão tão predispostos, julgam que isso não é esperado deles, mas estão cheios de vontade, é ver como agarram os pretextos. Assim, 2013 está a terminar numa exaustão, que é muito de felicidade, de coisas boas, de coisas novas, de medos anulados, de gargalhadas profundas, e de conversas com estranhos. E neste fim estranho, como todos os fins, é bom ser surpreendida não só pelas pessoas que nos querem bem porque estão na nossa vida, mas por seguranças em centros de saúde que oferecem cafés, por manicures depressivas cheias de sapiência, e por toda a bondade contida nos funcionários do ISCTE, para onde os seus congéneres da FCSH deviam ser enviados, como para um campo de trabalhos forçados ao contrário, estágio de sorrisos prestáveis e coisas quentes. Exatamente, 2013 está a terminar com muitas palavras que querem evitar o tom confessional e assim vão dizendo tudo e nada. Como nas conversas com estranhos.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

a vida como ela é




O título é repetido, mas não tenho medo de o gastar. Fez-se para aqui, até pela gargalhada de coalhar o (genial) moralismo de Nelson Rodrigues.

Aquilo que ouvi deste filme não o encontrei. Encontrei diferente, melhor. Parece que o mundo descobriu o sexo entre mulheres, isso é lá com ele. Que abra bem os olhos, mas não deixe de ver o grande plano. “A vida de Adèle” é a vida de Adèle. Tão universal quanto isso.

Já passaram semanas e ainda estou com a rapariga que dança “I follow rivers”, de Lykke Li. Acedo a colocar um vídeo neste lugar, que quis sempre quieto, tal é a captura em que me traz. Adèle está diferente e ainda ninguém percebeu. Chega a casa para ser surpreendida por uma festa. São 18 anos, que já são outra coisa, e os outros tornam-se difusos à medida que lá dentro se carregam um pouco mais os seus contornos. O rosto fecha-se, parece que alguma coisa não está bem. Mas está tudo bem, como só tudo está melhor quando fica irremediavelmente diferente. E então ela sorri e dança. Não está nada definido. Adèle há de morrer e nascer outra vez. É assim. Nada a fazer. Nunca nada acaba. Esta é apenas a melhor cena dos primeiros dois capítulos.

sábado, 14 de dezembro de 2013

mulheres do meu país


 
 
 
"Quando se fala no que está errado na vida da Mulher, prejudicando-a sob todos os aspetos, logo se vê uma intenção política perigosa nessa afirmação. Em consequência disso, na maioria dos casos, são as próprias mulheres que reprovam e deturpam qualquer esforço honesto feito no sentido de lhes despertar a consciência para as condições em que elas próprias vivem, lutam e sofrem. Isto, só por si, representa um atraso incalculável, com profunda influência na vida geral e da mulher em particular"
Maria Lamas, "As mulheres do meu país", 1948 - 1950. Edição fac-simile, Caminho.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Ibéria


"A favor de esta [Constitucion] se ha declarado la opinion del pueblo y de los escritores. Anoche, cuando desde el balcon gritaban los governadores Viva da Constitucion, respondia el inmenso gentio congregado en la plaza del Rocío La Española. (…) Entre los liberales se nota una gran escision: unos quieren la Constitucion española, otros la desechan; entre estes deben contarse los membros del gobierno. Los unos, si preveen como futuramente posible la union de toda la Peninsula en una masa compacta y homogenea, estan lejos de temer este acontecimiento, porque se han despojado de necias preocupaciones y de ridículos odios; los otros, apreciando sobre todo la convervacion del nombre portugués y la independencia del estado, imaginan que la adopcion de nuestro código politico hecharia por tierra la barrera moral que separa a las dos naciones acarreando com el tiempo su conseguiente inevitable fusión”.

 Embajada de Portugal – Correspondencia, leg. 5383, ofício de  José Maria de Pando, nº 142, de 18 de novembro de 1820; nº 153, de 6 de dezembro de 1820; nº 154, de 9 de dezembro de 1820.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

nome


 
O que um nome contém de promessa. Uma ideia vã, fútil e perigosa. Ou a manifestação de uma intuição. Fecho-me e, só, digo-o. Pronuncio-o, ondulando todas as sílabas. E o nome, ao contrário das palavras que, em pequena, repetia à exaustão para as depenar de sentido, é agora meu. Fica também meu e sei que é um empréstimo. Mas mesmo assim, arrogo-me a pensar - e penso - que o digo de uma forma que aos outros não concedo. Que gosto dele numa soma sucessiva, que começou quando o escrevi e logo o disse alto. Como a precisar de acreditar.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013