segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

a vida como ela é




O título é repetido, mas não tenho medo de o gastar. Fez-se para aqui, até pela gargalhada de coalhar o (genial) moralismo de Nelson Rodrigues.

Aquilo que ouvi deste filme não o encontrei. Encontrei diferente, melhor. Parece que o mundo descobriu o sexo entre mulheres, isso é lá com ele. Que abra bem os olhos, mas não deixe de ver o grande plano. “A vida de Adèle” é a vida de Adèle. Tão universal quanto isso.

Já passaram semanas e ainda estou com a rapariga que dança “I follow rivers”, de Lykke Li. Acedo a colocar um vídeo neste lugar, que quis sempre quieto, tal é a captura em que me traz. Adèle está diferente e ainda ninguém percebeu. Chega a casa para ser surpreendida por uma festa. São 18 anos, que já são outra coisa, e os outros tornam-se difusos à medida que lá dentro se carregam um pouco mais os seus contornos. O rosto fecha-se, parece que alguma coisa não está bem. Mas está tudo bem, como só tudo está melhor quando fica irremediavelmente diferente. E então ela sorri e dança. Não está nada definido. Adèle há de morrer e nascer outra vez. É assim. Nada a fazer. Nunca nada acaba. Esta é apenas a melhor cena dos primeiros dois capítulos.

sábado, 14 de dezembro de 2013

mulheres do meu país


 
 
 
"Quando se fala no que está errado na vida da Mulher, prejudicando-a sob todos os aspetos, logo se vê uma intenção política perigosa nessa afirmação. Em consequência disso, na maioria dos casos, são as próprias mulheres que reprovam e deturpam qualquer esforço honesto feito no sentido de lhes despertar a consciência para as condições em que elas próprias vivem, lutam e sofrem. Isto, só por si, representa um atraso incalculável, com profunda influência na vida geral e da mulher em particular"
Maria Lamas, "As mulheres do meu país", 1948 - 1950. Edição fac-simile, Caminho.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Ibéria


"A favor de esta [Constitucion] se ha declarado la opinion del pueblo y de los escritores. Anoche, cuando desde el balcon gritaban los governadores Viva da Constitucion, respondia el inmenso gentio congregado en la plaza del Rocío La Española. (…) Entre los liberales se nota una gran escision: unos quieren la Constitucion española, otros la desechan; entre estes deben contarse los membros del gobierno. Los unos, si preveen como futuramente posible la union de toda la Peninsula en una masa compacta y homogenea, estan lejos de temer este acontecimiento, porque se han despojado de necias preocupaciones y de ridículos odios; los otros, apreciando sobre todo la convervacion del nombre portugués y la independencia del estado, imaginan que la adopcion de nuestro código politico hecharia por tierra la barrera moral que separa a las dos naciones acarreando com el tiempo su conseguiente inevitable fusión”.

 Embajada de Portugal – Correspondencia, leg. 5383, ofício de  José Maria de Pando, nº 142, de 18 de novembro de 1820; nº 153, de 6 de dezembro de 1820; nº 154, de 9 de dezembro de 1820.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

nome


 
O que um nome contém de promessa. Uma ideia vã, fútil e perigosa. Ou a manifestação de uma intuição. Fecho-me e, só, digo-o. Pronuncio-o, ondulando todas as sílabas. E o nome, ao contrário das palavras que, em pequena, repetia à exaustão para as depenar de sentido, é agora meu. Fica também meu e sei que é um empréstimo. Mas mesmo assim, arrogo-me a pensar - e penso - que o digo de uma forma que aos outros não concedo. Que gosto dele numa soma sucessiva, que começou quando o escrevi e logo o disse alto. Como a precisar de acreditar.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

domingo, 17 de novembro de 2013

bilhete postal da Turquia

Distúrbios elementares pela Sónia Ferreira, que me mandou este 'postal' da Turquia, que eu lhe pedi para partilhar. Obrigada.


 
 
Por Sónia Ferreira, da imprensa livre.
 
 
 
A Turquia é uma sauna. Os turcos têm uma obsessão pelo abafo e eu senti-me como uma nórdica em Portugal. Um exagero de aquecimento, caras arrepiadas quando lá fora apenas se sentia uma brisa fresca, um caso de estudo estes turcos. Fiquei impressionada com toda a experiência. Não apenas com os palácios e mesquitas, com o contraste entre abundância e delicadeza, mas com a noção de um país que se sustenta e se renova autonomamente. Na Turquia, que também passou pela purga do FMI, as cidades alargam-se. Fazem-se túneis, estradas, casas, o desemprego está abaixo dos 10 por cento e a descer. Os responsáveis políticos falam em "vamos fazer" e "vamos construir" com tamanha naturalidade que senti nascer no peito um sentimento de pena pelo meu país. Somos pequenos e não temos dinheiro. E de receio, pela Europa que deixamos que aconteça neste momento. Nações estraçalhadas pela ganância de um sistema autofágico, ausência de política, o nada. Na Turquia, debaixo de um regime estranho e de discurso perverso, os direitos das mulheres sofrem retrocessos. Os direitos civis e as liberdades estão longe de cumprir os padrões ocidentais, para nós elementares. Soube que a Turquia está no topo da lista de países com mais jornalistas presos. Há dezenas de jornalistas presos, sobretudo na sequência das manifestações, sobre os quais recaíram acusações falsas de pertencerem a redes criminosas de droga ou de "terrorismo". Bom, no ministério da Defesa Nacional, a assessora perguntou-nos se eramos da "free press" por isso fiquei com dúvidas sobre o estatuto da imprensa na Turquia. Contam-me que uma jornalista foi despedida na semana passada por usar uma camisola que o primeiro-ministro classificou como imprópria. Digo perverso um discurso de um primeiro-ministro que usa o argumentário do ocidente para justificar a islamização do Estado, aos poucos. Diz ele que se a maioria da população é muçulmana, então deve respeitar-se a democracia e dar-se expressão à maioria. A democracia assim esvaziada numa cápsula formal. Na Turquia, o vermelho por todo o lado. Também no raki, a bebida nacional, e mesmo nas romãs, enormes, expostas abertas nas pequenas bancas na praça à hora do pequeno-almoço. O vermelho que forra a sala em que o sultão recebia os altos embaixadores de outros reinos. Uma nação que preza o poder e o exibe, apenas nisto despudorada, nas bandeiras que esvoaçam pela cidade sobre as nossas cabeças.
 
 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Lisboa, presente mais-que-perfeito



Também me comovo com o esplendor dos jacarandás. O roxo efémero a antecipar junho no seu orgulho. E os Santos, a alegria marcada a giz no chão. Saber que estão lá, poder escolher não ir, mas comungar. Honrarias pagãs a um doutor da Igreja convertido em santo popular, como só a vontade de amar pode fazer, é Deus a escrever direito por linhas tortas. Só que para mim, Lisboa é agora. A semana que hoje terminou, na sua dormência doce, lado a lado com a que vem. O primeiro frio acinzentará a pedra húmida das casas. A luz doirará entardeceres que se amaldiçoam curtos porque não se perde o tempo, radicalizado de tão precioso, para os contemplar. É agora.