quinta-feira, 28 de novembro de 2013

nome


 
O que um nome contém de promessa. Uma ideia vã, fútil e perigosa. Ou a manifestação de uma intuição. Fecho-me e, só, digo-o. Pronuncio-o, ondulando todas as sílabas. E o nome, ao contrário das palavras que, em pequena, repetia à exaustão para as depenar de sentido, é agora meu. Fica também meu e sei que é um empréstimo. Mas mesmo assim, arrogo-me a pensar - e penso - que o digo de uma forma que aos outros não concedo. Que gosto dele numa soma sucessiva, que começou quando o escrevi e logo o disse alto. Como a precisar de acreditar.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

domingo, 17 de novembro de 2013

bilhete postal da Turquia

Distúrbios elementares pela Sónia Ferreira, que me mandou este 'postal' da Turquia, que eu lhe pedi para partilhar. Obrigada.


 
 
Por Sónia Ferreira, da imprensa livre.
 
 
 
A Turquia é uma sauna. Os turcos têm uma obsessão pelo abafo e eu senti-me como uma nórdica em Portugal. Um exagero de aquecimento, caras arrepiadas quando lá fora apenas se sentia uma brisa fresca, um caso de estudo estes turcos. Fiquei impressionada com toda a experiência. Não apenas com os palácios e mesquitas, com o contraste entre abundância e delicadeza, mas com a noção de um país que se sustenta e se renova autonomamente. Na Turquia, que também passou pela purga do FMI, as cidades alargam-se. Fazem-se túneis, estradas, casas, o desemprego está abaixo dos 10 por cento e a descer. Os responsáveis políticos falam em "vamos fazer" e "vamos construir" com tamanha naturalidade que senti nascer no peito um sentimento de pena pelo meu país. Somos pequenos e não temos dinheiro. E de receio, pela Europa que deixamos que aconteça neste momento. Nações estraçalhadas pela ganância de um sistema autofágico, ausência de política, o nada. Na Turquia, debaixo de um regime estranho e de discurso perverso, os direitos das mulheres sofrem retrocessos. Os direitos civis e as liberdades estão longe de cumprir os padrões ocidentais, para nós elementares. Soube que a Turquia está no topo da lista de países com mais jornalistas presos. Há dezenas de jornalistas presos, sobretudo na sequência das manifestações, sobre os quais recaíram acusações falsas de pertencerem a redes criminosas de droga ou de "terrorismo". Bom, no ministério da Defesa Nacional, a assessora perguntou-nos se eramos da "free press" por isso fiquei com dúvidas sobre o estatuto da imprensa na Turquia. Contam-me que uma jornalista foi despedida na semana passada por usar uma camisola que o primeiro-ministro classificou como imprópria. Digo perverso um discurso de um primeiro-ministro que usa o argumentário do ocidente para justificar a islamização do Estado, aos poucos. Diz ele que se a maioria da população é muçulmana, então deve respeitar-se a democracia e dar-se expressão à maioria. A democracia assim esvaziada numa cápsula formal. Na Turquia, o vermelho por todo o lado. Também no raki, a bebida nacional, e mesmo nas romãs, enormes, expostas abertas nas pequenas bancas na praça à hora do pequeno-almoço. O vermelho que forra a sala em que o sultão recebia os altos embaixadores de outros reinos. Uma nação que preza o poder e o exibe, apenas nisto despudorada, nas bandeiras que esvoaçam pela cidade sobre as nossas cabeças.
 
 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Lisboa, presente mais-que-perfeito



Também me comovo com o esplendor dos jacarandás. O roxo efémero a antecipar junho no seu orgulho. E os Santos, a alegria marcada a giz no chão. Saber que estão lá, poder escolher não ir, mas comungar. Honrarias pagãs a um doutor da Igreja convertido em santo popular, como só a vontade de amar pode fazer, é Deus a escrever direito por linhas tortas. Só que para mim, Lisboa é agora. A semana que hoje terminou, na sua dormência doce, lado a lado com a que vem. O primeiro frio acinzentará a pedra húmida das casas. A luz doirará entardeceres que se amaldiçoam curtos porque não se perde o tempo, radicalizado de tão precioso, para os contemplar. É agora.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

linhas


Perco dezenas de histórias por dia ao andar menos de comboio. As nesgas de conversas que me roubavam à leitura, os olhares enamorados de quem não tem mais ninguém à volta numa cápsula cheia de gente, os silêncios amachucados ao telefone. E as solidariedades. “Poise a mochila no meu colo. A sério, vai tão carregada”. Há inquéritos que foram conduzidos em várias linhas de comboio europeias que concluíram que os seus passageiros não têm o sentimento de tempo perdido. Quando passei a frequentar a linha de Cascais tornei-me na arrogante passageira que nunca perde o comboio. Na linha de Azambuja nunca me acontecia, os comboios fugiam, não valia de nada correr. Agora conduzo mais, as mãos simulam determinação ao volante, maquilhagem esboçada nos semáforos, tentativa de sossego dos pés, nervosos nos pedais. E, arrogante, não me larga a esperança. Acabei de apanhar um comboio com uma história lá dentro que não vou só escutar.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013