quinta-feira, 31 de outubro de 2013

linhas


Perco dezenas de histórias por dia ao andar menos de comboio. As nesgas de conversas que me roubavam à leitura, os olhares enamorados de quem não tem mais ninguém à volta numa cápsula cheia de gente, os silêncios amachucados ao telefone. E as solidariedades. “Poise a mochila no meu colo. A sério, vai tão carregada”. Há inquéritos que foram conduzidos em várias linhas de comboio europeias que concluíram que os seus passageiros não têm o sentimento de tempo perdido. Quando passei a frequentar a linha de Cascais tornei-me na arrogante passageira que nunca perde o comboio. Na linha de Azambuja nunca me acontecia, os comboios fugiam, não valia de nada correr. Agora conduzo mais, as mãos simulam determinação ao volante, maquilhagem esboçada nos semáforos, tentativa de sossego dos pés, nervosos nos pedais. E, arrogante, não me larga a esperança. Acabei de apanhar um comboio com uma história lá dentro que não vou só escutar.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

domingo, 20 de outubro de 2013


"Hannah Arendt", de Margarethe von Trotta


Ninguém pensa isoladamente, mas pensar é um ato solitário, é o coração da liberdade individual, sem a qual não existem liberdades coletivas. O pensamento constrói-se sem nenhuma concessão. Há quem abdique de agir pensando para poder continuar a pertencer a uma estrutura, para poder continuar a confirmar um enquadramento consolador. É a coerência corrupta. Porque pensar pode não ser nada consolador. Ser coerente é não abdicar do pensamento. Mesmo que isso potencialmente desenquadre, exclua, ponha de parte. Não ser querido em nenhum dos mundos pelos quais se anda pode ser o preço a pagar, coisa pouca se esses mundos exigem o não questionamento, a abdicação do pensamento, e, portanto, a anulação da pessoa. A comunidade mais vasta, o ‘coletivo’, há de agradecer um dia ou, mesmo que não o faça, beneficiará da liberdade exercida sem concessões por um indivíduo.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013


Rebecca Hall, em "The Town", de Ben Affleck
 
Pode um filme 'noire' estar cheio de luz? Sim. Quem "vive de noite" aspira sempre a outro lugar. Aqui, a iluminação outonal de Boston é prisão, presságio, promessa.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013



- Então porque é que tens medo de mim?

Ele olhou para ela muito antes de responder.

- É do dinheiro que tenho medo e da tua situação. É do mundo dentro de ti.


"O amante de Lady Chatterly", D. H. Lawrence.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

cape cod


Coloquei a imagem debaixo da secretária. Quase ninguém a via, a não ser eu, que tinha que me baixar para o fazer. A privacidade protege-se com gestos ridículos. As senhoras que limpavam a redação certamente a terão encarado. E isso passou-me pela cabeça quando a colei ali. Serviria para ser olhada quando precisasse de calma, mas nessas alturas esquecia-me dela. Ainda se fumava nas redações. Olhava-a nos tempos mortos. Foi o último vestígio das colagens adolescentes no quarto. Um dia rasgou-se, estava desfeita quando a procurei num regresso de férias. Transporto-a comigo, não só porque o papel se desfez mas porque consegui deixar de ter secretária. Trago-a porque é um ideal imperfeito de três pessoas. Três. Estão a rir, enquanto velejam. Cheias de estilo e de incoerências que só elas saberiam explicar. Se quisessem. Longe do julgamento alheio, de que gostavam, só podiam gostar. Parecem felizes e seguem em frente.