terça-feira, 22 de outubro de 2013
domingo, 20 de outubro de 2013
"Hannah Arendt", de Margarethe von Trotta
Ninguém pensa isoladamente, mas
pensar é um ato solitário, é o coração da liberdade individual, sem a qual não
existem liberdades coletivas. O pensamento constrói-se sem nenhuma concessão. Há
quem abdique de agir pensando para poder continuar a pertencer a uma estrutura,
para poder continuar a confirmar um enquadramento consolador. É a coerência corrupta.
Porque pensar pode não ser nada consolador. Ser coerente é não abdicar do
pensamento. Mesmo que isso potencialmente desenquadre, exclua, ponha de parte. Não
ser querido em nenhum dos mundos pelos quais se anda pode ser o preço a pagar,
coisa pouca se esses mundos exigem o não questionamento, a abdicação do
pensamento, e, portanto, a anulação da pessoa. A comunidade mais vasta, o ‘coletivo’,
há de agradecer um dia ou, mesmo que não o faça, beneficiará da liberdade
exercida sem concessões por um indivíduo.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Rebecca Hall, em "The Town", de Ben Affleck
Pode um filme 'noire' estar cheio de luz? Sim. Quem "vive de noite" aspira sempre a outro lugar. Aqui, a iluminação outonal de Boston é prisão, presságio, promessa.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
terça-feira, 8 de outubro de 2013
cape cod
Coloquei a imagem debaixo da
secretária. Quase ninguém a via, a não ser eu, que tinha que me baixar para o
fazer. A privacidade protege-se com gestos ridículos. As senhoras que limpavam
a redação certamente a terão encarado. E isso passou-me pela cabeça quando a
colei ali. Serviria para ser olhada quando precisasse de calma, mas nessas
alturas esquecia-me dela. Ainda se fumava nas redações. Olhava-a nos tempos mortos. Foi o último vestígio das
colagens adolescentes no quarto. Um dia rasgou-se, estava desfeita quando a
procurei num regresso de férias. Transporto-a comigo, não só porque o papel se desfez
mas porque consegui deixar de ter secretária. Trago-a porque é um ideal
imperfeito de três pessoas. Três. Estão a rir,
enquanto velejam. Cheias de estilo e de incoerências que só elas saberiam explicar. Se quisessem. Longe do julgamento alheio, de que gostavam, só podiam gostar. Parecem felizes
e seguem em frente.
domingo, 6 de outubro de 2013
coisas da escola
Tem tido o encanto dos encontros
perfeitos. Eu sou assim, estou aqui, e aquela escola estava ali para mim. Estava
ali para nos encontrarmos agora. ‘Perfeito’ inclui naturalmente a dureza, a
falta de sono, a acumulação de indisponibilidades para o resto, as avaliações a
que já vou ser sujeita na próxima semana e o meu corpo a transpirar, o cabelo
desalinhado, avenida acima, atrasada outra vez. Em todas as escolas em que fui
feliz tinha que subir ladeiras íngremes para lá chegar. Regresso às metáforas
simples para tarefas complicadas. Ou seria assim se não tivesse conhecido aquela que é, com elevado grau de certeza, uma personagem de Philip Roth que desertou de um romance inacabado. Asilo concedido e imensos apontamentos a tirar.
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