domingo, 20 de outubro de 2013


"Hannah Arendt", de Margarethe von Trotta


Ninguém pensa isoladamente, mas pensar é um ato solitário, é o coração da liberdade individual, sem a qual não existem liberdades coletivas. O pensamento constrói-se sem nenhuma concessão. Há quem abdique de agir pensando para poder continuar a pertencer a uma estrutura, para poder continuar a confirmar um enquadramento consolador. É a coerência corrupta. Porque pensar pode não ser nada consolador. Ser coerente é não abdicar do pensamento. Mesmo que isso potencialmente desenquadre, exclua, ponha de parte. Não ser querido em nenhum dos mundos pelos quais se anda pode ser o preço a pagar, coisa pouca se esses mundos exigem o não questionamento, a abdicação do pensamento, e, portanto, a anulação da pessoa. A comunidade mais vasta, o ‘coletivo’, há de agradecer um dia ou, mesmo que não o faça, beneficiará da liberdade exercida sem concessões por um indivíduo.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013


Rebecca Hall, em "The Town", de Ben Affleck
 
Pode um filme 'noire' estar cheio de luz? Sim. Quem "vive de noite" aspira sempre a outro lugar. Aqui, a iluminação outonal de Boston é prisão, presságio, promessa.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013



- Então porque é que tens medo de mim?

Ele olhou para ela muito antes de responder.

- É do dinheiro que tenho medo e da tua situação. É do mundo dentro de ti.


"O amante de Lady Chatterly", D. H. Lawrence.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

cape cod


Coloquei a imagem debaixo da secretária. Quase ninguém a via, a não ser eu, que tinha que me baixar para o fazer. A privacidade protege-se com gestos ridículos. As senhoras que limpavam a redação certamente a terão encarado. E isso passou-me pela cabeça quando a colei ali. Serviria para ser olhada quando precisasse de calma, mas nessas alturas esquecia-me dela. Ainda se fumava nas redações. Olhava-a nos tempos mortos. Foi o último vestígio das colagens adolescentes no quarto. Um dia rasgou-se, estava desfeita quando a procurei num regresso de férias. Transporto-a comigo, não só porque o papel se desfez mas porque consegui deixar de ter secretária. Trago-a porque é um ideal imperfeito de três pessoas. Três. Estão a rir, enquanto velejam. Cheias de estilo e de incoerências que só elas saberiam explicar. Se quisessem. Longe do julgamento alheio, de que gostavam, só podiam gostar. Parecem felizes e seguem em frente.


domingo, 6 de outubro de 2013

coisas da escola

Tem tido o encanto dos encontros perfeitos. Eu sou assim, estou aqui, e aquela escola estava ali para mim. Estava ali para nos encontrarmos agora. ‘Perfeito’ inclui naturalmente a dureza, a falta de sono, a acumulação de indisponibilidades para o resto, as avaliações a que já vou ser sujeita na próxima semana e o meu corpo a transpirar, o cabelo desalinhado, avenida acima, atrasada outra vez. Em todas as escolas em que fui feliz tinha que subir ladeiras íngremes para lá chegar. Regresso às metáforas simples para tarefas complicadas. Ou seria assim se não tivesse conhecido aquela que é, com elevado grau de certeza, uma personagem de Philip Roth que desertou de um romance inacabado. Asilo concedido e imensos apontamentos a tirar.